Escreve toda semana sobre temas políticos, econômicos e diplomáticos da América Latina e dos Estados Unidos

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Trump repete o plano populista que fracassou com Perón e outros caudilhos latino-americanos

O que Trump está fazendo ao aumentar tarifas para tentar reindustrializar o país já foi tentado no século passado por Argentina, Brasil, México e outras nações latino-americanas, que até hoje sofrem as consequências

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Foto do autor Andrés Oppenheimer

O presidente Donald Trump poderia aprender uma lição com a América Latina sobre como suas tarifas, que já afundaram o mercado de ações e ameaçam desencadear uma recessão, são capazes de destruir a economia dos Estados Unidos.

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O que Trump está fazendo ao aumentar tarifas para tentar reindustrializar o país já foi tentado no século passado por Argentina, Brasil, México e outras nações latino-americanas, que até hoje sofrem as consequências. O nacionalismo econômico fracassou retumbantemente.

A Argentina, por exemplo, deixou de ser um dos países mais ricos do mundo no início do século 20 para se tornar um dos mais pobres várias décadas depois.

De modo semelhante ao que Trump pretende fazer atualmente, a Argentina impôs altas tarifas sobre produtos estrangeiros no fim da década de 40. O presidente populista Juan Perón acreditava na teoria da “substituição de importações”. A ideia era que, se o país impusesse altas tarifas sobre as importações, indústrias locais começariam a substituir esses produtos, criando mais empregos e maior prosperidade econômica.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o Secretário de Comércio, Howard Lutnick, exibem um gráfico com as tarifas, na Casa Branca em Washington, na quarta-feira, 2 de abril de 2025  Foto: Haiyun Jiang / The New York Times

Mas o que aconteceu foi que, após um período de expansão graças à proteção estatal, as empresas locais se tornaram cada vez menos eficientes.

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Sem concorrência estrangeira, elas subiram os preços para aumentar os lucros e pararam de investir em inovação. Seus produtos se tornaram obsoletos e cada vez mais difíceis de exportar.

Lembro-me de que quando eu era jovem, na Argentina, os carros e os eletrônicos argentinos eram tão ruins que a palavra “importado” virou sinônimo de qualidade.

A Argentina teve de subsidiar cada vez mais suas ineficientes indústrias locais. Combinado com outros aumentos nos gastos públicos, isso ocasionou inflação, interrompeu o investimento e provocou fuga de capitais. A Argentina ficou cada vez mais endividada e, a cada poucos anos, teve de suspender pagamentos de sua dívida externa por estar em bancarrota.

E simultaneamente a corrupção aumentou. Em um sistema no qual presidentes decidem quais empresas serão protegidas da concorrência estrangeira, os líderes enriquecem seus aliados e punem seus inimigos.

O presidente Javier Milei, um economista defensor do livre-mercado, tenta atualmente reverter oito décadas de políticas protecionistas.

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Mas não é fácil: milhões de argentinos ainda acreditam na fantasia peronista de que as indústrias são capazes de prosperar com proteção estatal, sem concorrência externa.

Mas o consenso entre economistas de que as barreiras tarifárias não funcionaram na América Latina e não funcionarão nos EUA é avassalador. Mesmo que suspenda suas tarifas, Trump criou um clima tão intenso de incerteza que a maioria dos países e grandes empresas deixarão de investir nos EUA no futuro próximo.

Ironicamente, Trump fez campanha como um candidato pró-empresas que prometeu reduzir a inflação, exatamente o oposto do que sua atual guerra comercial provavelmente alcançará.

“Nós achávamos que Trump seria um segundo Milei, e ele acabou se revelando uma segunda Cristina Kirchner”, disse-me o professor de economia internacional Ricardo Hausmann, de Harvard. Ele acrescentou que Trump “revelou-se um protecionista, um intervencionista. O que ele está fazendo parece saído diretamente da cartilha kirchnerista”.

O argumento de Trump de que países com superávits comerciais em relação aos EUA estão “nos enganando” é falacioso, porque ele está contabilizando apenas o déficit em mercadorias.

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Ele omite que os EUA têm superávits em serviços e que o país se beneficia de outras fontes de renda no exterior, como direitos de propriedade intelectual cobrados por empresas americanas.

Na atual economia do “conhecimento”, na qual softwares do Google, da Microsoft ou da Apple são vendidos por preços muito mais altos do que tecidos ou matérias-primas, os EUA retornarem às suas manufaturas do século 20 é uma péssima ideia.

“Não faz sentido os EUA começarem a fabricar tênis Nike em vez de importá-los do Vietnã”, disse-me o professor Diego Vacano, da Universidade Texas A&M. “Os EUA deveriam tentar se concentrar na produção de bens de alto valor.”

Vacano concluiu que a estratégia de substituição de importações da América Latina “causou perturbação econômica e estagnação na região”.

É isso. E temo que se Trump não reverter suas ridículas tarifas o mais rapidamente possível o mesmo ocorrerá nos EUA. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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Opinião por Andrés Oppenheimer

Andrés Oppenheimer foi considerado pela revista Foreign Policy 'um dos 50 intelectuais latino-americanos mais influentes' do mundo. É colunista do The Miami Herald, apresentador do programa 'Oppenheimer Apresenta' na CNN em Espanhol, e autor de oito best-sellers. Sua coluna 'Informe Oppenheimer' é publicada regularmente em mais de 50 jornais