Argentina tenta atrair brasileiros de volta ao país após queda acentuada no turismo

Mais argentinos tem ido ao exterior, levando a uma fuga recorde dos dólares que Milei tanto deseja injetar na economia interna; governo usa o inverno para atrair novamente os estrangeiros

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Foto do autor Carolina Marins
Atualização:

Fala, Duquesa: Milei, tarifas e a economia argentina

"No React ‘Fala, Duquesa’, a colunista do Estadão comenta sobre a economia do nosso país vizinho, a Argentina, e as reformas propostas por Javier Milei. Crédito: Estadão

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Gerando resumo

O governo do libertário Javier Milei está tentando reverter um efeito colateral da política de ajuste fiscal na Argentina: a queda drástica de turistas, especialmente brasileiros. O secretário de Turismo argentino, o ex-vice-presidente kirchnerista Daniel Scioli, veio a São Paulo com o objetivo de impulsionar a ida de brasileiros ao país vizinho neste inverno por meio de um pacote de incentivos. Mas o país mira um turismo “mais exigente”, em suas palavras.

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Quando Milei assumiu o governo, em dezembro de 2023, a Argentina vivia uma tendência de mais turistas visitando o país atraídos pelo peso desvalorizado e pela existência de um câmbio paralelo vantajoso a quem recebia em reais, dólar e euro.

A partir de janeiro de 2024, quando o libertário lançou o decreto de desregulamentação e mandou seu pacote econômico para o Congresso, a tendência se inverteu.

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A Casa Rosada, residência oficial do presidente da Argentina e um dos pontos turísticos da capital, Buenos Aires Foto: Felipe Moreira/Estadão

Só em maio deste ano, último mês com dados disponíveis, mais de 315 mil turistas visitaram a Argentina, uma queda de 10% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Ao mesmo tempo, mais de 752 mil argentinos cruzaram a fronteira para os países vizinhos, 93% deles em direção ao Brasil.

O turismo de argentinos para fora do país cresceu quase 49% de um maio a outro. O verão deste ano registrou um recorde de argentinos deixando o país: quase 2 milhões. A maioria para as praias brasileiras.

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De janeiro a maio, quase 7 milhões de argentinos viajaram ao exterior, um recorde em mais de uma década, enquanto menos de 2,4 milhões de estrangeiros entraram no país como turistas.

É comum a balança pender para a saída na época de férias, mas dessa vez o chamado déficit turístico se manteve mesmo na baixa temporada, quando a Argentina historicamente se beneficiava de mais entrada, especialmente para a Patagônia no inverno.

O professor de economia da UBA (Universidade de Buenos Aires) Fabio Rodriguez explica a causa do que chamou de “avalanche” de argentinos saindo: “Nos tornamos uma Argentina muito cara em dólares e em pesos também. É muito caro gastar na Argentina e é barato ou relativamente barato gastar em vários outros países que também são destinos turísticos atraentes e competem com os pontos fortes do turismo argentino”.

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Em janeiro e fevereiro é quando milhões de famílias saem de férias com seus filhos e isso se repete agora umas três semanas de julho. No entanto, temos dados muito ruins em abril, março e maio e vamos ter novamente em setembro e outubro. É como se o fluxo que tem um componente sazonal se torna mais permanente.

Fabio Rodriguez, professor de Economia na UBA

Correndo atrás do prejuízo

O governo de Javier Milei agora tenta reverter esse cenário e, segundo Scioli, a intenção é atrair um perfil diferente de turista. “Antes, víamos na fronteira brasileiros atravessando para o lado argentino, compravam seis garrafas de vinho e voltavam para o Brasil. Esse turismo especulativo, de oportunidades fictícias, hoje não está acontecendo, mas sim um turismo muito mais importante, mais sólido, mais dourado”, afirmou Scioli durante uma apresentação para empresários do setor turístico, jornalistas e influencers de viagem em São Paulo na quarta-feira, 2 de julho.

“Estamos vendo, por exemplo, a chegada de mais turistas americanos. Os Estados Unidos são o primeiro país do mundo de onde vêm turistas para a cidade de Buenos Aires, pela primeira vez. O turista americano é um turista exigente, que fica muito tempo lá, consome mais”, completa o secretário.

Mas uma troca não compensa a outra, explica Rodriguez, professor. Mesmo com os turistas em viagem à Argentina gastando mais do que os de antigamente, o montante gasto não compensa o déficit de pessoas.

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No encontro, também estiveram em em São Paulo, Ana Garcia Allievi, secretária executiva do Instituto Nacional de Promoção Turística (Inprotur), Iván Blanco Cadahia, chefe de vendas da Aerolíneas Argentinas no Brasil, e Juan Gaffuri, Chef do restaurante Elena do Hotel Four Seasons em Buenos Aires. O objetivo, segundo Ana Garcia Allieve, era convencer “mais brasileiros a visitarem o país”.

Da esquerda para a direita: Ana Garcia Allievi, Secretária Executiva do INPROTUR; Daniel Scioli, secretário de Turismo; Juan Gaffuri, Chef do Restaurante Elena do Hotel Four Seasons e Iván Blanco Cadahia , Chefe de Vendas da Aerolíneas Argentinas no Brasil, em evento em São Paulo Foto: Divulgação

Os argentinos apresentaram uma oferta de produtos e destinos, com foco especial na gastronomia, vinhos e atividades de inverno. O executivo da estatal Aerolíneas Argentina lançou um pacote exclusivo de promoções para quem comprar passagens este mês e viajar de agosto até novembro. “Por exemplo, o cliente pode escolher um voo direto de São Paulo a Buenos Aires por US$ 160 e adicionar uma rota até Córdoba por mais US$ 50 dólares”, explicou Iván Blanco Cadahia.

Ele argumenta que a ação é um trabalho conjunto com o governo, para atuar em duas frentes: o setor turístico, com promoções e pacotes atraentes para turistas estrangeiros, e a comunicação das medidas por parte do governo. Antes de São Paulo, os argentinos estiveram no Uruguai para fazer o mesmo.

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Argentina mais cara

No entanto, não são apenas os preços das passagens aéreas que afastam os turistas estrangeiros, mas o custo dentro da Argentina. Com a valorização do peso, o país deixou de ser o “paraíso turístico” dos últimos anos. Os preços na Argentina mais do que dobraram em um ano por causa das políticas de contenção da inflação.

Embora esteja caro também para os argentinos, os salários locais vêm sendo ajustados de forma a acompanhar a flutuação. O mesmo não acontece com os estrangeiros. Quem visitava o país em busca de boas carnes, vinhos e doce de leite com baixos preços, agora se assusta com os valores.

Quando visitou Buenos Aires pela primeira vez em outubro de 2023, a coordenadora de políticas públicas Haline Floriano, 29, lembra que pagou no máximo R$ 150 em um jantar individual em Puerto Madero. Neste mês, porém, no mesmo local a refeição custou o dobro. Ela viajou a Buenos Aires e Santa Fé a trabalho e diz que, com esses valores, dificilmente estaria apenas a passeio.

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A coordenadora de políticas públicas Haline Floriano, 29, em viagem a Buenos Aires em julho Foto: Arquivo pessoal

“Assim que eu cheguei eu fui tomar um café e comer um omelete ou algo similar, como uma empanada, e tem ficado ali numa média de R$ 70 a R$ 100”, conta. “Aqui na província de Santa Fé eu jantei, comi uma pizza pequena e um suco, e paguei R$ 70. Fazendo o mesmo pedido lá em Buenos Aires, já estava em média R$ 150”.

Scioli diz estar em conversas com o setor privado para que não pratiquem preços abusivos, embora não seja esse o causador do aumento. “Dentro da estrutura da liberdade, tentamos gerar competição, geramos reformas tributárias, incentivos e promoções para sermos mais acessíveis. Agora também apelamos ao setor privado para que tenha preços razoáveis, justos e amigáveis”, disse.

Fuga de dólares

O secretário minimiza o déficit turístico e diz que seu objetivo não é desestimular a ida de argentinos aos países vizinhos. Mas o fenômeno tem impacto em um dos pilares do plano econômico libertário: fazer os argentinos tirarem os chamados ‘dólares do colchão’ para colocar em circulação na economia.

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A prática de guardar os dólares fora da economia oficial vem de décadas de descrença dos argentinos em seu setor bancário, e ganhou força a partir da crise cambial de 2001. Estima-se que haja em média US$ 252 bilhões fora de circulação do sistema financeiro argentino, segundo dados de 2024.

Para fazer esse dinheiro aparecer, Milei lançou um pacote de medidas financeiras que incentiva o uso da moeda sem que a população precise declarar sua origem. E os argentinos de fato passaram a utilizar esses dólares, mas em outros países.

“Primeiro que esse ‘dólar do colchão’ tem uma função de economia. Dificilmente o argentino o colocará totalmente disponível para consumo, porque serve de segurança”, explica Fabio Rodriguez. “Segundo: gastá-lo em outros países representa uma capacidade de consumo muito maior. Por que alguém tiraria um dólar e iria comprar roupas na Argentina, se ele pode levar esse dólar para o Chile e comprar o dobro de roupas?”.

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Se eu decidir, de alguma forma, gastar essa poupança, ou uma parte dela, vou gastá-la no Chile, no Brasil, em Miami para ver a Copa do Mundo de Clubes, na Europa, e assim por diante.

Fabio Rodriguez, professor de Economia nla UBA

A ida de argentinos ao exterior levou junto cerca de US$ 5 bilhões no primeiro trimestre do ano, segundo análises, o maior gasto em turismo em mais de 20 anos. Em contrapartida, US$ 1,5 bilhão entrou no país, um déficit de US$ 3,5 bilhões para o país. A fuga de dólares foi 114% maior do que no ano anterior.

“Foi o pior valor de toda a série. Se arredondarmos, pode ser um bilhão de dólares por mês, e isso é uma loucura”, diz Rodriguez.

Scioli foi pouco claro sobre medidas de contenção desta fuga de dólares, e se limitou a dizer que o governo trabalha para recuperar a confiança perdida do argentino na economia por meio da estabilização.

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“Já houve um ‘branqueamento’ [medida para regularização dos dólares sem necessidade de declaração de origem], como se chama na Argentina, que foi muito bem-sucedido. E esse dinheiro tem sido direcionado a diversos setores estratégicos da economia. Mas também identificamos muito capital que os argentinos, por medo e por falta de confiança no momento, resguardaram”, afirmou.

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