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Guerra Israel-Hamas: atos dividem Avenida Paulista neste domingo; Programa Ruas Abertas é suspenso

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, os atos ocorreram de forma pacífica, sem necessidade de intervenção

Foto do author Ítalo Lo Re
Por Ítalo Lo Re
Atualização:

Quinze dias após o início da Guerra Israel-Hamas, dois protestos dividiram a Avenida Paulista neste domingo, 22, com milhares de manifestantes. O primeiro deles, pró-Palestina, ocorreu na Praça Oswaldo Cruz, no Paraíso, em uma das extremidades da via. Já o segundo, em apoio a Israel, aconteceu a cerca de 1,3 quilômetro de distância de lá: em frente ao prédio da Fiesp. Apenas 30 minutos separaram os dois atos.

Por segurança, a Prefeitura suspendeu o Programa Ruas Abertas na Avenida Paulista, deixando a via excepcionalmente aberta para carros. Centenas de agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da Polícia Militar atuaram na organização das manifestações. Conforme a última atualização da Secretaria da Segurança Pública (SSP), os atos ocorreram de forma pacífica, sem necessidade de intervenção.

Manifestantes pró-Israel se reuniram na Avenida Paulista.  Foto: Felipe Rau/Estadão

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“A proporção que teve esse último ataque (de 7 de outubro) eu nunca tinha ouvido falar. A gente nunca tinha visto nada parecido de uma vez só, em um só dia”, disse a atriz judia Maria Frishman, de 46 anos. Segundo ela, tem sido angustiante ouvir as histórias de irmãos, sobrinhos e amigos que vivem em Israel. “Eles seguem na mesma cidade em que moram, mas ficam ouvindo sirenes e têm que ir com frequência até bunkers. É um medo constante.”

Para Maria, mesmo em outros países, a situação tem piorado para os judeus por conta da guerra. Assim como muitos manifestantes, ela estava envolta em uma bandeira de Israel quando falou com a reportagem. “Eu vou tirar para pegar o metrô quando sair daqui. Atravessando a rua para vir aqui, ouvi: ‘tem que matar mesmo, tem que exterminar’. Como você está dentro do Brasil, em São Paulo, e escuta que tem que matar judeu?”, indagou.

Rabino do Movimento Sinagoga Sem Fronteiras, Gilberto Ventura afirmou que, além de repudiar a atuação do grupo terrorista Hamas, um dos focos do ato foi abordar o que ele define como uma “radicalização crescente” em relação aos judeus. “O antissemitismo e a relativização da violência, que estão acontecendo na última semana, são fenômenos preocupantíssimos para toda a sociedade brasileira”, disse.

Ventura exaltou que o encontro pró-Israel uniu pessoas de diferentes vertentes religiosas, com muitos evangélicos presentes no local. “Durante a manifestação, no começo, passaram várias pessoas identificadas com a outra manifestação que teve na Avenida Paulista, com a kufiya (lenço tradicional), com roupas se identificando com os palestinos”, disse. “Se quisessem ficar, também seriam muito bem-vindos.”

Muitos brasileiros, mesmo sem ligação com Israel, foram ao ato prestar apoio aos judeus. “É incrível que o mundo não aprendeu nada com o Holocausto, parece que estamos indo para isso. E eu sou totalmente contra e apoio o povo judeu”, afirmou o fisioterapeuta João Gilberto Baldo, de 57 anos, que assistia às falas da calçada central da Avenida Paulista.

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Manifestação a favor de Israel em frente ao prédio da Federação das indústrias do Estado de São Paulo (Fisep), na Avenida Paulista.  Foto: Felipe Rau/ Estadão

A manifestação foi organizada por um grupo de pastores. O ato começou às 14h30 e se estendeu até por volta de 16h30, quando as pessoas presentes se dispersaram. Bandeiras de Israel foram distribuídas no local e as ações foram coordenadas a partir de um trio elétrico. Durante a manifestação, a CET fechou duas faixas da via no sentido Paraíso. Carros continuaram circulando nos dois sentidos.

Ato em prol da Palestina reúne comunidade árabe

Meia hora antes de a manifestação pró-Israel começar, um ato em apoio ao povo palestino chegava ao final na Praça Oswaldo Cruz, com as pessoas presentes cantando o hino nacional brasileiro e realizando uma última oração, mesmo sob o sol forte de 14h.

O ato, que contou com milhares de presentes, começou às 11h. Durante o protesto, representantes da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) e porta-vozes de outras entidades puxaram gritos de ordem de cima de um trio elétrico, como “Libertem a Palestina” e “Palestina Livre”.

“A situação está muito complicada, já perdi mais de 70 pessoas nesses quinze dias, isso só de familiares. Se contar conhecidos, são mais de 200″, disse o professor de Matemática Rafat Alnajjar, de 28 anos. “Uma tia do meu pai morreu com os filhos e netos com uma bomba só. Eram 44 pessoas.”

Nascido e criado em Jabalia, na Faixa de Gaza, ele veio para o Brasil há três anos e meio, como refugiado. Segundo Rafat, o argumento de que a guerra tem ocorrido em reação à ofensiva do Hamas não justifica a morte de palestinos civis. “Estão morrendo muitas mulheres e crianças. Até quando?”, disse.

Sindicato de trabalhadores, movimento estudantil, a Federação Árabe Palestina do Brasil(Fepal) e outros grupos que pedem o fim do cerco de Israel à Faixa de Gaza fazem um encontro na Praça Oswaldo Cruz, no início da Avenida Paulista. Foto: Felipe Rau/Estadão

Para o comerciante Mohamed Bacha, de 56 anos, o apoio à Palestina extrapola o que ocorre na guerra Israel-Hamas. “O povo palestino está sofrendo já há décadas, viemos aqui para pedir por paz”, disse ele, que levou a filha de 11 anos ao ato. No braço, mostrou um adesivo pedindo por “cessar-fogo”, uma das bandeiras da manifestação.

Entre os presentes no protesto, estavam desde famílias palestinas, que foram ao local inclusive com crianças, até apoiadores da causa, como brasileiros, sírios, turcos e libaneses. Bandeiras da Palestina eram vistas por todos os lados, assim mensagens em protesto contra bombardeios e mortes de crianças.

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Grupos pedem o fim do cerco de Israel à Gaza na Praça Oswaldo neste domingo, 22, em São Paulo.  Foto: Felipe Rau/Estadão

Muitos cobraram discernimento entre o Hamas e a população civil palestina. “Não estamos querendo justificar qualquer ato terrorista, mas tem que ficar claro que o povo palestino está sendo injustiçado”, disse o teólogo libanês Saladino Sleiman, de 56 anos, que integra a Ordem dos Sábios do Islam no Brasil.

Durante o protesto, o trânsito ficou totalmente fechado no sentido Consolação. Na direção oposta, houve liberação de ao menos duas faixas para circulação de carros. Dezenas de agentes da Polícia Militar e da Companhia de Engenharia de Tráfego auxiliaram na organização.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que o policiamento foi reforçado em toda a região durante as duas manifestações, com agentes da Força Tática e do BAEP, para garantir a segurança da população e ordem pública. “Até o momento, as manifestações estão ocorrendo de forma pacífica, sem nenhuma intervenção”, respondeu no fim da tarde.

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