China estende exercícios militares perto de Taiwan e reforça campanha de propaganda

Nova fase de treinos militares interrompeu o transporte marítimo e aéreo na ilha e aumentou os temores sobre a represália de Pequim

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Por Redação

PEQUIM - A China estendeu os exercícios militares em torno de Taiwan que deveriam terminar nesta segunda-feira, 8. A nova fase de treinos militares interrompeu o transporte marítimo e aéreo e aumentou os temores de que o período de tensões na região se prolongue ainda mais.

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A decisão desafia os pedidos ocidentais para que os chineses encerrem as maiores manobras de guerra ao redor da ilha autogovernada, mas que Pequim considera parte integral do seu território.

Anunciada em repúdio à viagem da presidente da Câmara americana, Nancy Pelosi, a Taipé na semana passada, a operação que começou na quinta em seis zonas ao redor da ilha estava prevista para terminar ao meio-dia de domingo (23h de sábado em Brasília). A visita de 19 horas, a primeira de um integrante do alto escalão americano à Taiwan desde 1997, foi considerada por Pequim uma violação da sua soberania e um estímulo à independência do território.

Trecho de vídeo mostra exercícios militares chineses. Foto: PLA EASTERN THEATER COMMAND/ESN / AFP - 04/08/2022

Em um comunicado, no entanto, o Comando Leste do Exército da Libertação do Povo disse que iria “continuar o treinamento conjunto sob condições reais de guerra, focando em organizar operações conjuntas de ataque subaquáticos e navais” após cinco dias consecutivos de operações. O tom da nota parece indicar que os exercícios com munições reais chegaram ao fim e a China não emitiu novos alertas de navegação, mas não há confirmação oficial.

O treinamento ocorre em condições reais de guerra e, segundo comunicado do Comando Militar do Leste do exército chinês, tem foco em operações antissubmarino e de ataque marítimo.

A duração e a localização exata dos exercícios ainda não são conhecidas, mas Taiwan já diminuiu as restrições de voo perto das seis áreas usadas nas manobras anteriores.

Além das atividades militares, Pequim suspendeu a cooperação com os EUA em vários temas cruciais, incluindo a luta contra a mudança climática e questões de segurança. O governo do presidente Xi Jinping também anunciou que as manobras com munição real no Mar Amarelo, localizado entre o continente e a Península Coreana, que começaram dia 6, vão até o dia 15 de agosto.

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As operações, segundo a Marinha chinesa, ocorrerão nas águas da Baía de Haizhou, e navios ficarão proibidos de entrar em cinco zonas da região durante o período por motivos de segurança. Esta, contudo, é uma operação rotineira na área.

Haverá também manobras no Mar de Bohai, no Norte, por um mês a partir desta segunda, e há alertas para que navios evitem navegar na área durante os horários especificados, com tráfego livre apenas para embarcações militares. Testes, contudo, também foram realizados no local nesta mesma época em 2021.

Diante do incremento da atividade militar chinesa nos últimos dias, o Exército taiwanês anunciou que fará dois testes com munição real na próxima semana, segundo o jornal South China Morning Post.

Nesta segunda, o porta-voz da chancelaria chinesa, Wang Wenbin, disse que Pequim está realizando exercícios militares normais em “suas próprias águas” de maneira aberta, transparente e profissional.

Visita de Pelosi a Taiwan

Segundo o jornal estatal Global Times, a visita de Pelosi mudou “para sempre o status quo” e as manobras se tornaram mais frequentes pois são “um ensaio das operações de reunificação”. Afirmação similar foi feita por um dos principais analistas militares da televisão oficial, afirmando que os exercícios se tornarão “habituais”.

A presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, e a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, em Taipé. Foto: Taiwan Presidential Office/Handout via REUTERS - 03/08/2022

A reunificação da ilha que tem hoje 23 milhões de habitantes ao continente é uma meta do Partido Comunista da China desde que os nacionalistas fugiram para Taiwan ao serem derrotados na guerra civil chinesa, em 1949.

O governo taiwanês criticou a decisão, acusando Pequim de criar uma crise deliberadamente e demandando que os militares chineses recuem.

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Já o Ministério da Defesa chinês tem mantido sua pressão diplomática sobre Washington. “A atual situação tensa no estreito de Taiwan é inteiramente provocada e criada pelo lado dos EUA por iniciativa própria, e o lado dos EUA deve assumir total responsabilidade e sérias consequências por isso”, disse o porta-voz do Ministério da Defesa, Wu Qian, em publicação nas redes sociais.

Pequim também tem usado o contexto para intensificar uma ofensiva de propaganda destinada a minar a confiança de Taiwan em sua segurança, ao mesmo tempo que busca satisfazer o sentimento nacionalista no continente.

Depois que os exercícios militares começaram, na semana passada, a mídia estatal chinesa e alguns diplomatas começaram a compartilhar publicações e artigos destacando símbolos da cultura chinesa em cidades taiwanesas, o que, segundo eles, reforçaria a reivindicação de soberania de Pequim.

De acordo com o jornal Financial Times, um vídeo publicado pela emissora CCTV no Weibo —a versão chinesa do Twitter— mostra placas de rua em Taipé com os nomes de cidades e províncias chinesas como Tianjin, Shandong, Guiyang e Chongqing. “Toda estrada leva para casa!”, diz a legenda do vídeo. “Aqui, cada rua está cheia de saudades de casa!”

No Twitter, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying, fez uma publicação com mapas da capital taiwanesa, mostrando a localização de algumas dezenas de restaurantes chineses. “Os paladares não enganam. Taiwan sempre fez parte da China. A criança perdida acabará voltando para casa”, escreveu.

Segundo o Financial Times, a campanha de propaganda tem jogado com a identidade nacional de Taiwan, além da história da migração chinesa e das ondas consecutivas de colonização.

Terceiro mandato de Xi Jinping

Xi Jinping está buscando um terceiro mandato como líder do Partido Comunista ainda este ano. Seu controle sobre as Forças Armadas e o que ele definiu como “interesses centrais” da China – incluindo Taiwan, reivindicações territoriais no Mar do Sul da China e o adversário histórico Japão – são fundamentais para manter suas credenciais nacionalistas.

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Com 64 anos, Xi Jinping é líder do Partido Comunista da China desde o fim de 2012 e permanecerá por mais cinco anos como secretário-geral. Foto: Wang Zhao/ AFP

A desaceleração do crescimento econômico da China, que reduziu as opções entre trabalhadores migrantes e graduados universitários, aumentou o espectro de agitação social no país. O partido manteve seu poder por meio do controle total da imprensa e das mídias sociais, juntamente com a supressão de opositores políticos, advogados independentes e ativistas que trabalham em questões de liberdade de expressão online a direitos LGBT.

A China não permite pesquisas de opinião pública. No entanto, a opinião dos chineses geralmente se inclina a favor do governo e seus esforços para restaurar o antigo papel dominante da China na região que a coloca em conflito com os Estados Unidos e seus aliados, incluindo Japão e Austrália.

Posição dos EUA

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse a repórteres durante uma reunião com a Associação das Nações do Sudeste Asiático no Camboja no fim de semana que a visita de Pelosi foi pacífica e não representou uma mudança na política americana em relação a Taiwan. Ele acusou a China de usar a viagem como um “pretexto para aumentar a atividade militar provocativa dentro e ao redor do Estreito de Taiwan”.

Telão com anúncio de boas-vindas a Nancy Pelosi em Taiwan. Foto: Chiang Ying-ying/AP

O governo Biden e Pelosi dizem que os EUA continuam comprometidos com a política de “uma só China” que estende o reconhecimento diplomático formal a Pequim, ao mesmo tempo em que permite relações informais robustas e laços de defesa com Taipé.

Os EUA, no entanto, criticaram as ações de Pequim no Estreito de Taiwan, com a secretária de imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, chamando-as de “fundamentalmente irresponsáveis”. “Não há necessidade nem razão para essa escalada”, disse Jean-Pierre. /NYT, WPOST, AP e AFP

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