SEUL — A cidade fronteiriça de Hyesan foi no passado um vislumbre de uma versão mais aberta da totalitária Coreia do Norte. A localidade florescia de uma forma que quase poderia ser chamada de capitalista, e seus moradores eram capazes de entrar em contato facilmente com o mundo exterior pela China, que fica do outro lado de um rio estreito.
Não é mais assim. Uma cidade que anteriormente exalava esperança agora exemplifica como um Kim Jong-un cada vez mais paranoico expandiu dramaticamente seu autoritarismo para corroer as poucas liberdades dos norte-coreanos, de acordo com moradores e fugitivos de Hyesan.
Nos últimos cinco anos, desde que a pandemia de covid-19 eclodiu, Kim enrijeceu o controle sobre o comércio através da fronteira. Isso limitou a capacidade das pessoas comuns de ganhar dinheiro e atingir um nível de autonomia em relação ao regime.
“O sistema de mercado está morto”, disse ao Washington Post por meio de um intermediário uma moradora de Hyesan, de idade na faixa dos 40 anos, que mantinha um negócio de vendas por atacado do outro lado da fronteira. “O governo está ficando com todos os lucros que as pessoas que ganham dinheiro teriam obtido.”
Kim também usou o pretexto da pandemia para instalar novas barreiras — literalmente tanto quanto figurativamente — que isolaram os moradores de Hyesan como nunca havia ocorrido: novas cercas impedem as pessoas de atravessar o rio.

Operações de repressão contra chamadas telefônicas classificadas como ilícitas, feitas por meio de torres de celular chinesas, tornaram muito mais difícil para os moradores de Hyesan ligarem ou enviarem mensagens de texto para familiares e amigos na China ou na Coreia do Sul, assim como acessar tranquilamente a versão chinesa do TikTok.
Essas novas restrições estão mudando profundamente a maneira como os norte-coreanos vivem suas vidas tanto em Hyesan, uma capital provincial com cerca de 200 mil habitantes, quanto no restante do país.
“Hyesan já desfrutou de uma rara abertura, mas as restrições draconianas da era da covid fecharam-na, o que atrasou em décadas o país”, disse Hanna Song, diretora-executiva da ONG Centro de Dados para os Direitos Humanos na Coreia do Norte, sediada em Seul. “Agora, a Coreia do Norte está mais isolada e restritiva do que nunca.”
É impossível saber exatamente o que está acontecendo dentro desse Estado totalitário e recluso, muito menos obter uma visão completa da vida em uma determinada cidade ou região.


Mas em um esforço para entender como a vida mudou desde o início da pandemia, em janeiro de 2020, quando Kim fechou hermeticamente as fronteiras, cortando o fluxo de bens e informações, o Post tentou observar Hyesan. Dada sua abertura histórica, a cidade teoricamente deveria estar entre as mais fáceis de acessar.
Este artigo tem como base entrevistas a três pessoas que ainda vivem em Hyesan e a outras 12 que escaparam de lá, a maioria em 2019, pouco antes da onda de repressão na fronteira, e mantêm contato intermitente com parentes ou amigos por lá. Os moradores e alguns fugitivos falaram sob condição de anonimato por preocupações de segurança.
Para entrar em contato com os moradores de Hyesan, o Post estabeleceu uma parceria com a Asia Press, uma agência de notícias japonesa independente que mantém uma rede de contatos dentro da Coreia do Norte há décadas. As fontes conversaram com a reportagem por meio de telefones celulares chineses capazes de conseguir sinal sobre o rio. Falaram sobre seu entorno, os preços nos mercados e o impacto das políticas do regime em suas vidas diárias.
A Asia Press enviou as perguntas do Post por mensagens de texto para os moradores de Hyesan e retransmitiu as respostas em língua coreana. A agência japonesa informou os três moradores de que as perguntas eram de um jornal americano, e eles não foram pagos para respondê-las.
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O Post também analisou e geolocalizou imagens de satélite e vídeos postados em redes sociais chinesas. O retrato que emergiu foi de restrições sem precedentes que estão isolando cada vez mais os moradores e tornando-os mais dependentes do que nunca em relação ao regime.
Representantes da missão norte-coreana nas Nações Unidas em Nova York não responderam a um pedido de comentário.
A vida em Hyesan não foi assim na maior parte das últimas três décadas. A economia da cidade começou a crescer no fim da década de 90, depois que uma crise de fome devastadora arrasou a Coreia do Norte, matando até 3 milhões de pessoas e evidenciando que o Estado era incapaz de sustentar seu povo. Os moradores de Hyesan começaram a fabricar, vender e comprar itens para sobreviver, e isso foi tolerado enquanto o regime de Kim tentava baixar a pressão — e evitar uma possível agitação social.
Graças à proximidade da cidade com a empreendedora China e à recém-descoberta disposição do regime nominalmente comunista de Kim de permitir a pessoas comuns ganharem seu próprio dinheiro, os mercados de Hyesan passaram a figurar entre os mais bem abastecidos de toda a Coreia do Norte.
Por um tempo, Hyesan chegou a ser conhecida como “vila dos contrabandistas”, porque era muito fácil para as pessoas comprarem e venderem do outro lado do rio, que tem apenas 90 metros de largura em alguns lugares. Seus mercados costumavam ser tão cheios de produtos chineses que os norte-coreanos brincavam que podiam comprar tudo lá, “exceto chifres de gatos”.
Quando Kim assumiu o lugar de seu pai no fim de 2011, com apenas 27 anos, alguns analistas — e muitos norte-coreanos — esperavam que o líder millennial ocasionasse aberturas no Estado mais fechado do mundo. Alguns até pensaram que ele poderia seguir o exemplo da China e inaugurar reformas orientadas para a economia de mercado que dariam às pessoas maior liberdade econômica.
Kim desmentiu tais esperanças. No 14.º ano de seu governo, agora ele tem se projetado como um líder confiante e assertivo, aparentemente se sentindo mais forte do que nunca graças aos controles da era da pandemia que ele manteve em vigor e à sua aliança estratégica com Vladimir Putin, da Rússia.
Kim poderá receber outro impulso com o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em seu primeiro mandato como presidente, Trump reuniu-se com Kim em três ocasiões, chamando-o de “muito talentoso”. Embora essas conversas não tenham resultado em nada, o presidente sinalizou que estaria disposto a “entrar em contato” com o ditador norte-coreano novamente.
Mas Kim e a Coreia do Norte estão em uma posição muito diferente em relação à outra vez que Trump foi presidente.
Agora, entrar em contato com norte-coreanos é mais difícil do que em qualquer outro momento nos últimos 33 anos, disse Jiro Ishimaru, fundador da Asia Press. Mas o que Ishimaru ouviu de seus contatos dentro da Coreia do Norte nos últimos quatro anos é consistente: a vida ficou muito mais difícil. E isso parece ser proposital, disse ele, e ter o objetivo de aumentar a dependência dos moradores do regime de Kim.
“Quanto mais percebiam que podiam se sustentar sozinhas, menos as pessoas começaram a se importar com o que o líder-supremo, Kim Jong-un, tinha a dizer”, disse Ishimaru. “Acredito que foi por esse motivo que Kim adotou medidas drásticas antimercado para controlar tudo.”
Kim se concentra na fronteira
O povo de Hyesan costumava dizer que um comerciante clandestino conseguia alimentar 13 pessoas graças aos enormes lucros do comércio transfronteiriço posterior à crise de fome, que faziam a cidade vibrar.
Parte disso ocorria à margem do comércio oficial realizado do outro lado da fronteira. Mais de 98% do comércio da Coreia do Norte é destinado à China ou passa pelo país. A Coreia do Norte exporta de tudo, de carvão a perucas.
Autoridades do regime firmavam acordos extraoficiais e embolsavam os lucros, o que criou uma abastada classe de empreendedores ligados ao regime, conhecida como donju, ou “mestres do dinheiro”, que se tornaram cada vez mais — visivelmente — ricos e poderosos.

“Os ricos vivem inimaginavelmente bem e não tratam pessoas comuns como seres humanos, muito menos falam com elas”, disse uma mulher que mora em Hyesan, com idade na faixa dos 30 anos, que também foi contatada pela Asia Press.
Mas também havia muitos norte-coreanos batalhadores que pagavam subornos para atravessar o rio e retornavam da China com mercadorias — roupas de segunda mão, eletrônicos baratos, filmes de ação em DVD — que podiam vender nos mercados. Isso transformou Hyesan em um refúgio capitalista em uma nação socialista que os havia decepcionado.

Lee Suk-jeong era uma dessas comerciantes clandestinas cujo zelo empreendedor sustentava muita gente. Ela pagava fornecedores pelo ouro que eles extraíam, pelas ervas medicinais que colhiam e pela soja que cultivavam. Lee vendia essas mercadorias para compradores chineses do outro lado do rio Yalu, pagando motoristas para entregas e subornando guardas de fronteira para fazer vista grossa.
“Todas essas pessoas me trataram muito bem. Era assim que elas ganhavam a vida também”, disse Lee, que saiu em 2019, oito anos depois que Kim assumiu o poder.
Nos primeiros anos de seu governo, o jovem líder permitiu que os mercados continuassem e até encorajou empreendedores ricos a investir neles para que se expandissem em relação aos dias de seu pai. Isso permitiu a uma pequena empreendedora como Lee um grau limitado, mas crescente, de liberdade econômica.
Mas em 2017, Kim estava aparentemente se sentindo mais confiante em sua função: ele chamava a atenção mundialmente para os mísseis cada vez mais avançados tecnologicamente que seu regime vinha disparando, inclusive a da Casa Branca. Naquele ano, Trump oscilou entre ameaçar “fogo e fúria” sobre Kim e dizer que ficaria “honrado” em conhecer o líder norte-coreano.

Mas os avanços dos mísseis e seu sétimo e mais poderoso teste nuclear ocasionaram sanções internacionais que prejudicaram a já limitada capacidade da Coreia do Norte de negociar.
Isso pode ter levado Kim a prestar mais atenção à fronteira. O jovem líder começou a enrijecer o controle reprimindo o comércio clandestino, de acordo com relatos de moradores, fugitivos e economistas na Coreia do Sul.
Isso também permitiu que ele direcionasse mais dinheiro para suas prioridades, afirmou o pesquisador Peter Ward, do Instituto Sejong, em Seul, especializado em economia norte-coreana.
Essas medidas “prejudicaram muitas famílias que antes tinham uma boa renda”, disse Ward. “O governo não apenas ganhou mais dinheiro, como também pôde controlar a vida das pessoas de forma muito mais direta.”
Mecanismos de controle dos tempos da pandemia permanecem
A Coreia do Norte começou a abrir gradualmente suas fronteiras em 2023, mais de três anos após o início da pandemia, e permitiu que parte do comércio com a China fosse retomado — mas sob novas regras, de acordo com os moradores.
“Pessoas comuns não conseguem mais ganhar dinheiro por conta própria”, disse a moradora de Hyesan na faixa dos 30 anos. “Comparado aos negócios que podíamos fazer no passado, é completamente diferente.”
Agora, quase todas as vendas internacionais são regulamentadas por meio de alfândega, inspeções, autoridades comerciais e guardas de fronteira, afirmou uma terceira moradora de Hyesan, também com idade na faixa dos 40 anos: “Não é mais o que era quando os negócios corriam livres. (…) Não podemos fazer nenhuma transação direta sem avisar o governo com antecedência.”

Embora parte do comércio clandestino tenha sido retomada, apenas atividades aprovadas pelo regime são toleradas, de acordo com três fugitivos que mantêm contato com pessoas na cidade. Isso significa que carros e motores usados são permitidos, mas roupas chinesas que possam ser vendidas nos mercados, não.
Esse comércio clandestino ocorre em escala significativamente menor do que anteriormente à pandemia, disseram as fontes.
Como resultado, os moradores atuais disseram que o fluxo de mercadorias nos mercados se tornou irregular e o que está à venda ficou mais caro.

Lee Young-bin, que fugiu em 2019, disse que não consegue entender como a economia da cidade consegue sobreviver sem seu comércio clandestino anteriormente movimentado: “Se não fosse pelo Rio Yalu, não haveria outra opção para ganhar dinheiro. (…) Se o contrabando para, a vida das pessoas se deteriora.”
Antes, muitas pessoas fartas das privações da vida na Coreia do Norte tentavam escapar. Os fugitivos pagavam intermediários e subornavam guardas ao longo da fronteira e, quando o rio congelava no inverno, era possível atravessar rapidamente à noite.
Antes de 2020, mais de mil norte-coreanos chegaram à Coreia do Sul anualmente durante duas décadas. No ano passado, porém, menos de 200 norte-coreanos chegaram ao Sul, e a grande maioria já vivia na China ou na Rússia antes do surgimento da covid.
Essa situação, da mesma forma que o comércio, mudou bastante. Agora é quase impossível atravessar a fronteira furtivamente, em razão do aumento da fortificação e da vigilância desde o início da pandemia.
O regime norte-coreano instalou novas cercas e torres de guarda ao longo da fronteira e em certas áreas acrescentou uma segunda camada de cercas, de acordo com uma análise da ONG Human Rights Watch. A organização descobriu que entre 2020 e 2023 o Norte construiu pelo menos 480 quilômetros de novas cercas ao longo das cidades fronteiriças e adicionou novas estruturas a outros 260 quilômetros de cercas já existentes.
Imagens de satélite capturadas pela Maxar Technologies entre 2019 e o verão de 2024 (Hemisfério Norte) mostram cercas na área de Hyesan que não existiam em 2019. Em uma área próxima à Torre da Vitória na Batalha de Pochonbo, a cerca de 1,6 quilômetro das estátuas do pai e do avô de Kim no centro da cidade, havia três fileiras de cercas visíveis no ano passado que não estavam lá cinco anos antes.
Como era muito difícil e perigoso escapar da Coreia do Norte, os intermediários — muitos deles fugitivos — coordenavam quando e onde as pessoas podem cruzar a fronteira, quem subornar e com quem se encontrar depois de atravessar. Seus preços foram aumentando conforme o trabalho ficou mais difícil, mas agora nenhuma quantia de dinheiro é capaz de comprar a liberdade.
“Tenho perguntado por aí a respeito de pessoas que possam organizar uma rota de fuga”, disse um homem que escapou de Hyesan em 2015. “Mas me dizem simplesmente que não há como sair da Coreia do Norte.”
Esses mesmos intermediários costumavam enviar dinheiro de pessoas que tinham escapado para a Coreia do Sul, geralmente pequenas quantias que faziam uma enorme diferença na vida dos destinatários norte-coreanos.
Essa atividade era repleta de riscos mesmo antes da covid. Mas agora ficou tão perigoso enviar dinheiro para a Coreia do Norte que os intermediários estão cobrando taxas excessivas, dificultando que os fugitivos ajudem suas famílias ou amigos, afirmaram as fontes que vivem fora do país.
Alguns intermediários que transferem dinheiro passaram a exigir comissões de até 70%, um grande aumento em relação aos cerca de 30% anteriores à covid, disseram os fugitivos.
“A maioria dos fugitivos não consegue mais nem enviar dinheiro” por causa das taxas, disse a norte-coreana Woo Young-bok, que fugiu em 2019 e conversa com seu tio na Coreia do Norte pelo menos uma vez por ano. “Ele me diz que a vida ficou difícil, que é muito difícil. (…) Isso parte meu coração.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO







