Norte-coreanos trabalham em troca de dinheiro para Kim Jong-un em barcos chineses de pesca de atum

A milhares de quilômetros de seu país, os norte-coreanos trabalham em embarcações pesqueiras da China no Oceano Índico por salários que vão para o bolso de seu líder, afirma um novo estudo

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Por Choe Sang-Hun (The New York Times) e Muktita Suhartono (The New York Times)
Atualização:

Eles passam até 10 anos no mar, trabalhando arduamente em algumas das condições mais severas que equipes de pesca em águas distantes podem enfrentar. Muitos nunca pisam em terra porque seus capitães chineses não querem que eles sejam vistos por autoridades portuárias. Quase todo seu salário vai direto para o seu governo, e parte do que eles pescam provavelmente acaba em mesas de jantar na Europa e na Ásia.

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Esses norte-coreanos são designados por seu governo para trabalhar a bordo de atuneiros chineses que operam no Oceano Índico, de acordo com um relatório publicado na segunda-feira pela Environmental Justice Foundation, sediada em Londres. Por meio desses trabalhadores, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, estabeleceu uma nova fonte de receita para seu regime falido.

As Nações Unidas proíbem Estados-membros de contratar profissionais norte-coreanos porque, segundo o Conselho de Segurança, Pyongyang os usa para levantar fundos para seu programa de armas nucleares. Mas Kim envia dezenas de milhares de norte-coreanos para o exterior com o intuito de obter dinheiro e outros benefícios para o seu regime.

Barcos chineses de pesca navegam no Mar do Sul da China.  Foto: Wang Cunfu/Associated Press

Os norte-coreanos trabalham em fábricas e restaurantes na China, em campos de extração madeireira e canteiros de obras na Rússia e em fazendas e estaleiros na Europa Oriental. Eles trabalharam em construções no Oriente Médio e ergueram monumentos para ditadores na África. Estima-se que 11 mil norte-coreanos foram enviados para lutar pela Rússia em sua guerra contra a Ucrânia.

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Até agora, o destino dos pescadores norte-coreanos atraiu pouca atenção global, porque eles ficam em vastos oceanos, isolados do restante do mundo e até mesmo de suas próprias famílias por anos a fio.

As condições que eles enfrentam “constitui trabalho forçado numa magnitude que supera muito o que já foi testemunhado numa indústria pesqueira global já repleta de abusos”, disse a fundação em seu relatório, a que o New York Times teve acesso anteriormente à publicação.

Trabalho quase escravo

Dados regulatórios e outras informações sugerem que a produção desses navios pode estar entrando nos mercados europeu, britânico e asiático, segundo a fundação. O grupo descobriu pelo menos 12 navios de pesca de atum com bandeira chinesa que usam mão de obra norte-coreana entre 2019 e o ano passado, e constatou que quatro deles foram autorizados a exportar peixe para a Europa e o Reino Unido. Navios de carga suspeitos de coletar peixe desses navios chineses no mar aportaram em mercados na Ásia, incluindo no Japão, em Taiwan e na Coreia do Sul, de acordo com a entidade.

“Se fosse seu marido, irmão, pai ou filho que estivesse sendo mantido em um navio por meses ou anos no mar sem opção de sair acho que você conseguiria entender o que isso significa e como esse produto está sendo produzido e por que não deveríamos comê-lo”, disse Steve Trent, CEO da fundação. “Esses trabalhadores não são livres para escolher como e quando trabalham. Eles estão sendo coagidos a embarcar nesses navios e ficam retidos.”

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A fundação, que faz campanhas sobre questões ambientais e defesa de direitos humanos, baseou suas constatações em evidências que incluíram entrevistas com 19 pescadores indonésios e filipinos que disseram ter trabalhado com norte-coreanos. Os investigadores também obtiveram videoclipes que mencionaram norte-coreanos a bordo e mostraram tripulantes falando em coreano. Três marinheiros indonésios também conversaram separadamente com o New York Times. O Times não revela suas identidades porque eles podem voltar a trabalhar em navios de pesca chineses.

Os tripulantes disseram que se comunicavam com os norte-coreanos usando linguagem corporal e expressões em mandarim e nas línguas uns dos outros, que todos foram aprendendo enquanto trabalharam juntos.

Os indonésios contaram que os pescadores norte-coreanos geralmente eram transferidos para embarcações-irmãs, no mar, antes de seus navios atracarem e depois voltavam para o barco pesqueiro. Tripulantes que desembarcavam podiam usar seus telefones para ligar para suas famílias, mas os norte-coreanos nem tinham celular.

Um trabalho secreto

Se fosse descoberta por autoridades portuárias estrangeiras, sua presença poderia criar problemas jurídicos para seu capitão chinês. Em dezembro de 2022, os meios de imprensa das Ilhas Maurício noticiaram a prisão de seis trabalhadores norte-coreanos e o capitão de um navio de pesca chinês.

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“Atraquei na Somália, nas Ilhas Maurício, na Austrália, em Madagascar e na Somália novamente, e os norte-coreanos sempre eram transferidos”, afirmou um ex-pescador indonésio que disse ter trabalhado com seis norte-coreanos entre o fim de 2022 e junho do ano passado. “Um deles me disse que era casado e nunca pôde entrar em contato com sua mulher nos sete anos fora.”

Nesses navios chineses, a maioria dos tripulantes teve seus passaportes confiscados para não poder fugir. Eles dormem apenas de cinco a seis horas por dia. Os norte-coreanos eram frequentemente os trabalhadores mais qualificados a bordo, devido ao tempo que passavam no mar. O segundo ex-pescador indonésio lembrou como os norte-coreanos em seu navio incentivavam os outros a trabalhar com mais rapidez, gritando a expressão norte-coreana para “acelere”: ppallihara.

A pandemia estendeu o tempo no mar para alguns norte-coreanos, pois seu país manteve as fronteiras fechadas até o fim de 2023. Eles trabalharam durante a pandemia, alguns se transferindo para outros navios chineses no meio do oceano após o término de seus contratos de três ou quatro anos.

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“Suas famílias não têm ideia se eles estão vivos ou não”, disse o terceiro pescador indonésio, que afirmou ter trabalhado com três norte-coreanos. “Eles nunca diziam como se sentiam. Mas não consigo imaginar como é não pôr os pés em terra firme por oito anos.”

Os tripulantes indonésios ganhavam cerca de US$ 330 por mês, mas não sabiam quanto os norte-coreanos ganhavam. Os norte-coreanos lhes disseram que seus salários iam direto para o governo. Um tripulante indonésio disse que os norte-coreanos viviam apenas de bônus que ganhavam. Outro disse que eles tinham permissão para ficar com US$ 50 de seu salário.

“Eles economizam todo o dinheiro, realmente”, disse um dos pescadores indonésios. “Eles me mostravam todos os centavos que coletaram.”

A frota chinesa em águas distantes é de longe a maior do mundo. A fundação disse que não consegue estimar quantos norte-coreanos trabalham em embarcações pesqueiras chinesas ao redor do mundo até que um estudo mais amplo seja feito.

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Questionado sobre o relatório na segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que o governo chinês sempre exige que suas atividades de pesca offshore cumpram leis locais e internacionais relevantes.

“A cooperação entre a China e a Coreia do Norte ocorre em acordo com a estrutura do direito internacional”, disse Lin Jian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

A Coreia do Norte envia trabalhadores para o exterior há mais de três décadas, obtendo ganhos que alcançam até bilhões de dólares por ano, de acordo com estimativas da Coreia do Sul.

Em 2017, o Conselho de Segurança da ONU adotou uma resolução exigindo que os países-membros das Nações Unidas expulsassem trabalhadores norte-coreanos até o fim de 2019. Mas mais de 100 mil norte-coreanos ainda trabalhavam em 40 países no ano passado, informou um painel de especialistas da ONU.

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Líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un em cerimônia do ramo da construção na Coreia do Norte. Foto: AFP/KCNA VIA KNS

Os trabalhadores norte-coreanos são obrigados a vigiar uns aos outros quando vão para o exterior e a manter uma vida de doutrinação.

Os ex-companheiros de navio dos norte-coreanos lembram-se deles mostrando vídeos de desfiles militares e de seu líder, Kim, discursando. Os norte-coreanos frequentemente vestiam suas melhores roupas, hasteavam sua bandeira e cantavam de pé.

Mas seus ex-companheiros de navio sabiam o quanto os norte-coreanos sentiam saudades de casa. Um dos ex-colegas indonésios se lembrou de uma época em que um norte-coreano finalmente teve permissão para retornar.

“Ele ficou tão animado e ansioso que, quando dissemos para ele descansar um pouco, dormir, ele se recusou”, disse o indonésio. “Ele ficou sentado no convés observando as outras equipes trabalhando.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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