Documentos secretos do Kremlin traçam plano para enfraquecer os EUA e forjar nova ordem global

Moscou aposta em campanhas de desinformação para minar apoio à Ucrânia e se aproxima de países como China, Irã e Coreia do Norte para mudar equilíbrio de forças

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Por Redação

MOSCOU - O Ministério de Relações Exteriores da Rússia tem desenvolvido um plano com campanhas de desinformação para enfraquecer os seus adversários, sobretudo os Estados Unidos, e usar a guerra na Ucrânia para forjar uma nova ordem global, revelam documentos secretos obtidos pelo The Washington Post.

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A ideia de nova ordem livre do que considera o domínio americano consta no adendo secreto ao programa de política externa, este público e em tom bem mais brando. Enquanto a Rússia diz, oficialmente, que defende a “democratização das relações internacionais” e não se considera inimiga do Ocidente, o anexo que veio à público agora prega medidas contra a “coalizão de países hostis”, liderada pelos EUA.

“Precisamos continuar ajustando nossa abordagem às relações com os países hostis”, afirma o documento de 2023. “É importante criar um mecanismo para encontrar os pontos vulneráveis de suas políticas externas e internas com o objetivo de desenvolver medidas práticas para enfraquecer os adversários da Rússia”, acrescenta.

Sede do ministério de Relações Exteriores da Rússia, Moscou, 8 de abril de 2024. Foto: Alexander Nemenov/AFP

Isso inclui ostensivas campanhas de desinformação, mas não só. O texto fala também em medidas que abranjam as esferas político-militar, econômica, comercial e até psicológica dos países que considera hostis.

Embora a doutrina oficial acuse os Estados Unidos de usar a guerra na Ucrânia para escalar uma política anti-Rússia, o adendo secreto traz a primeira confirmação do que muitos em Moscou veem como uma guerra híbrida contra o Ocidente.

Este último afirma que os Estados Unidos lideram uma coalizão com o objetivo de enfraquecer a Rússia, que seria vista como uma “ameaça à hegemonia global do Ocidente”. E que o resultado da guerra na Ucrânia vai determinar os contornos de uma nova ordem.

Para isso, a Rússia tenta minar o apoio a Kiev e perturbar a política doméstica nos Estados Unidos e Europa, com campanhas de desinformação que disseminam o isolacionismo e o extremismo, como já havia sido revelado anteriormente.

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Em Washington, a ajuda de US$ 60 bilhões para Ucrânia está travada no Congresso há dois meses por resistência da ala mais radical do Partido Republicano. O presidente da Câmara, Mike Johnson, pretende votar o pacote de segurança, que também inclui Israel e Taiwan no sábado, apesar da oposição do próprio partido e ainda não está claro se o complexo plano para aprovação será bem sucedido.

Ucrânia sofre com bombardeios russos enquanto pacote de ajuda dos EUA segue travado no Congresso.  Foto: Francisco Seco/Associated Press

Além de tentar minar o apoio à Ucrânia, a Rússia também busca remodelar a geopolítica ao se aproximar de países como China, Irã e Coreia do Norte com o objetivo de mudar a balança de poder.

O recente veto da Rússia encerrando o painel da ONU que monitorava as sanções contra a Coreia do Norte pelo seu programas de armas nucleares e mísseis balísticos foi um “sinal claro” de que o plano está em andamento, segundo um acadêmico russo, que tem relações próximas com diplomatas de Moscou.

“A Rússia pode criar dificuldades para os EUA em muitas regiões diferentes do mundo. Isso se refere ao Oriente Médio, ao nordeste da Ásia, ao continente africano e até mesmo à América Latina”, disse o pesquisador que falou sob condição de anonimato.

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Outros pontos da proposta de política, também obtidos pelo The Washington Post, sugerem que a Rússia estimule o conflito entre os Estados Unidos e a China em relação a Taiwan para aproximar Moscou de Pequim, bem como “escalar a situação no Oriente Médio em torno de Israel, Irã e Síria para distrair os EUA com os problemas da região”.

“Para Putin, é absolutamente natural que ele tente criar o máximo de problemas para os EUA”, disse o crítico Mikhail Khodorkovsky, que já foi considerado o homem mais rico da Rússia até que um confronto com o Kremlin lhe rendeu 10 anos de prisão.

“A tarefa é tirar os EUA do jogo e depois destruir a Otan. Isto não significa dissolvê-la, mas sim criar entre as pessoas o sentimento de que a Otan não as defende mais”, explicou.

Em nota o ministérios das Relações Exteriores da Rússia não confirma nem nega a existência do documento secreto. “Como afirmamos várias vezes em diferentes níveis, podemos confirmar que o sentimento é de combater decisivamente as medidas agressivas tomadas coletivamente pelo Ocidente como parte da guerra híbrida lançada contra a Rússia”, disse o ministério./W. Post

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