Dois anos de Guerra na Ucrânia: Quando começou, quem está ganhando e o que pode acontecer no futuro

Apesar de sinais de cansaço entre aliados ucranianos e poucos progressos na contraofensiva de Kiev, a luta para reconquistar o território ocupado pelos russos deve continuar de forma intensa

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Por Daniel Gateno
Atualização:

Falta de munição, Exército na defensiva e ajuda americana travada no Congresso. Este é o panorama da Ucrânia na véspera do aniversário do maior conflito visto na Europa desde a 2ª Guerra Mundial, que completa dois anos no sábado, 24.

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Apesar de sinais de cansaço entre aliados ucranianos e poucos progressos na contraofensiva de Kiev, a luta para reconquistar o território ocupado pelos russos deve continuar de forma intensa, pelo menos até as eleições americanas em novembro. Kiev se encontra em um momento menos favorável do que há um ano, quando comemorou vitórias no campo de batalha.

Antes do aniversário de dois anos de guerra, saiba mais sobre como o conflito começou, em fevereiro de 2022.

Quando a guerra começou?

Nas primeiras horas da manhã do dia 24 de fevereiro de 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin anunciou em um discurso televisionado que havia autorizado uma operação militar para proteger os separatistas ucranianos pró-Rússia que viviam no leste da Ucrânia. Três dias antes, no dia 21 de fevereiro de 2022, o presidente russo já havia anunciado o reconhecimento das auto proclamadas repúblicas rebeldes nas regiões de Donetsk e Luhansk como áreas independentes do país vizinho.

De acordo com o líder russo, a operação era necessária para combater o que chamou de genocídio contra russos naquelas áreas. Putin também queria desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia. Contudo, a invasão de Moscou não se limitou ao leste da Ucrânia e o Exército russo passou a bombardear as principais cidades ucranianas. A intenção de Putin era tomar a capital ucraniana, Kiev, mas as tropas russas foram repelidas pelas ucranianas.

Os Estados Unidos e a União Europeia (UE) passaram a apoiar incondicionalmente a Ucrânia, fornecendo apoio econômico, diplomático e militar a Kiev. Já a Rússia passou a ter uma parceria ainda maior com a China, além de contar com a colaboração de Irã e Coreia do Norte. Moscou também transformou sua economia para adaptá-la aos tempos de guerra, aumentando a sua produção militar.

Por que a guerra começou?

A história do conflito entre russos e ucranianos se remete a 2014, quando a Ucrânia destituiu o então presidente Viktor Ianukovich, que era pró-Rússia e apoiado pelo Kremlin. Naquele momento, existia uma divisão entre os ucranianos, que se dividiam entre quem queria uma relação mais forte com Moscou ou uma aproximação da Ucrânia com o Ocidente.

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No mesmo mês da deposição de Ianukovich, Putin passou a enviar tropas para bases que a Rússia tinha na Crimeia, península que fazia parte do território ucraniano. O Parlamento da Crimeia também organizou um referendo na qual as pessoas foram questionadas se a península queria se juntar à Rússia em março de 2014. Segundo as autoridades locais, 95,5% dos eleitores apoiaram a opção de se juntar a Moscou. Separatistas pró-Rússia apontavam que um novo governo ucraniano ameaçaria o direito de se falar o idioma russo e seria composto de “extremistas”.

Putin chancelou a anexação da Crimeia dois dias depois. A ocupação russa do território não é reconhecida pela comunidade internacional e a Ucrânia já afirmou que deseja que o território seja administrado pelo país.

Ucrânia e Rússia faziam parte da União Soviética, que foi dissolvida em 1991, e compartilham laços culturais , históricos e religiosos e linguísticos. A primeira língua do presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, por exemplo, é o russo, por ele ser da cidade ucraniana de Krivii Rih, que conta com uma população que fala russo.

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Após a anexação da Crimeia, o Kremlin passou a apoiar grupos ucranianos pró-Rússia no leste europeu, que participavam de um conflito congelado com as tropas ucranianas. Putin apontou que iniciou uma operação militar na Ucrânia em fevereiro de 2022 para proteger os separatistas russos no leste da Ucrânia. O presidente russo também afirmou que queria “desmilitarizar” e “desnazificar” os ucranianos, acusando o país de ter uma ideologia nazista.

A intenção ucraniana de se aproximar do Ocidente, que se tornou mais forte depois de 2014, não agradava Putin. Mesmo antes da guerra, Kiev já havia ressaltado que gostaria de se juntar a União Europeia (UE) e a Otan. A Rússia, que já compartilhava uma grande fronteira com países que faziam parte da aliança militar, como Polônia, os países bálticos e a Noruega, não queria que a fronteira com a Otan aumentasse, o que acabou acontecendo com a entrada da Finlândia.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, conversa com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, durante a reunião da Otan em Vilna, Lituânia  Foto: Doug Mills/ NYT

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A contraofensiva ucraniana deu errado?

Quando a guerra começou, as tropas russas invadiram a Ucrânia de quatro pontos: de Belarus, ao norte, com destino a Kiev; de Belgorod, a nordeste, na direção de Kharkiv; de Rostov, rumo a Donetsk e Luhansk; e pela Península da Crimeia, com direção a Kherson.

Por meses a Rússia enfileirou conquistas militares até que em agosto de 2022, a Ucrânia iniciou a sua primeira contraofensiva, com apoio militar e econômico do Ocidente, que foi bem sucedida, com conquistas nas regiões de Kharkiv. Em novembro de 2022, Moscou ordena a retirada das tropas de Kherson e da margem ocidental do Rio Dnieper.

Em junho de 2023, os ucranianos lançaram mais uma esperada contraofensiva, mas não tiveram o mesmo sucesso da primeira vez. Moscou fortificou bem os territórios conquistados na Ucrânia e as tropas de Kiev avançaram pouco no campo de batalha. Kiev terminou 2023 com dificuldades para obter financiamento militar e menos apoio entre os aliados europeus e nos Estados Unidos, principalmente dentro do Partido Republicano.

Soldados ucranianos disparam contra posições russas em Marinka, no sudeste da Ucrânia  Foto: Tyler Hicks/NYT

Com menos financiamento americano, a Ucrânia passou a lidar com problemas para repor as suas necessidades militares, e se encontra na defensiva neste momento, com falta de munições, defesas antiaéreas e antidrones. No começo do ano, o ex-embaixador dos Estados Unidos na Ucrânia e analista do Instituto Brookings, Steven Pifer, apontou em entrevista ao Estadão que os ucranianos precisavam reforçar as defesas.

“2024 será um ano difícil porque o Ocidente não vai conseguir replicar a quantidade de projéteis de artilharia fornecidos em 2023, mas acredito que Kiev se preparar defensivamente no campo de batalha”, apontou Pifer.

A Ucrânia segue com o apoio do Ocidente?

A Ucrânia contava com amplo apoio ocidental no inicio da guerra, mas as condições favoráveis a Kiev foram mudando ao longo do tempo. Nos EUA, os republicanos apoiaram o envio de ajuda econômica e militar e Kiev no primeiro ano de guerra, mas começaram a endurecer principalmente desde as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos em novembro do ano passado, que deram um ligeiro controle da Câmara dos Deputados ao partido.

Os poucos avanços da contraofensiva ucraniana e as altas cifras já enviadas por Washington fizeram com que o apoio dos republicanos a Kiev fosse reduzido. O provável candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, já se manifestou contra o apoio militar a Kiev e o presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Mike Johnson, republicano próximo do ex-presidente, ressaltou a necessidade de resolver os problemas internos dos EUA e aprovar leis mais duras contra a imigração antes de enviar mais dinheiro para a Ucrânia.

Segundo dados do Instituto Kiel para a Economia Mundial, baseado em Kiel, na Alemanha, Washington enviou US$75 bilhões em ajuda econômica e militar para a Ucrânia. Um pacote de ajuda a Ucrânia está travado no Congresso americano. Caso aprovado, o pacote deve ser o último que os EUA irão enviar a Kiev antes das eleições americanas em novembro, segundo analistas.

No começo de fevereiro, após dificuldades impostas pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que é considerado um aliado do presidente da Rússia, Vladimir Putin, a União Europeia (UE) conseguiu aprovar um pacote de ajuda de 50 bilhões de euros para Kiev.

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