Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

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Ao contrário do que Trump tenta vender, a verdadeira paz está muito distante de Gaza

Fragilidade do que foi combinado e ausências nos pontos anunciados levam a um cenário instável para o cessar-fogo definitivo no conflito

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Foto do autor Filipe Figueiredo

Reféns da faixa de Gaza retornam a Israel e reencontram familiares

Libertação é parte do acordo de cessar-fogo entre o governo israelense e o grupo terrorista Hamas, mediado pelos Estados Unidos. Crédito: Zangauker Family Handout/IRF/AP

Paz não é a mera ausência de conflito ou de combates. Não é porque não ocorreram escaramuças ou mortes durante a última semana na zona desmilitarizada entre as duas repúblicas coreanas que esses dois Estado estão em paz. Paz é o estabelecimento e consolidação de relações e condições que solucionam, corrigem e previnem os conflitos. E essa verdadeira paz ainda está muito distante para Gaza, ao contrário do que Donald Trump e outras pessoas tentam vender para o público.

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No dia 29 de setembro, o governo Trump anunciou um plano de vinte pontos para a paz em Gaza. No dia treze de outubro, declarações endossando os vinte pontos foram assinadas pelas lideranças de EUA, Israel, Catar, Egito e Turquia, com o aceite do Hamas feito via negociações. Donald Trump, em sua busca por um Nobel da Paz que o iguale ao seu nêmesis Barack Obama, vendeu as assinaturas como uma paz e um fim da guerra, um suposto ponto final dois anos depois do 7 de outubro de 2023.

Os pontos anunciados e os acordos assinados são, sem dúvidas, um avanço, especialmente para os familiares de israelenses e de palestinos que puderam se reencontrar com seus entes queridos ou poderão, ao menos, dar um sepultamento digno aos seus mortos. As assinaturas também estabelecem a entrada de grandes quantidades de ajuda humanitária em Gaza, cuja população sofreu com fome e escassez causados pelo bloqueio da mesma ajuda humanitária, com diversos relatórios sobre esse cenário amplamente disponíveis para o público.

Fumaça sobe após um ataque militar israelense na Cidade de Gaza, visto do centro da Faixa de Gaza, quarta-feira, 1º de outubro de 2025 Foto: Jehad Alshrafi/ AP

Os vinte pontos anunciados também preveem iniciativas interessantes e que certamente serão discutidas mais à fundo no futuro, como o desarmamento do Hamas; a criação de uma Força Internacional de Estabilização antes da entrega do território à polícia palestina; e o estabelecimento de uma Autoridade Internacional de Transição de Gaza, conduzida por tecnocratas palestinos, sem envolvimento do Hamas, com apoio internacional. Tal aspecto muito se assemelha ao plano do governo Biden, de maio de 2024.

A mudança de Biden para Trump se deu nas diferenças de personalidades entre os dois líderes mas também no fato de que os países árabes passaram a impor mais pressão no governo dos EUA por uma solução, especialmente após a ameaça israelense de anexação da Cisjordânia e do ataque israelense à Doha, no Catar. Os Emirados Árabes Unidos teriam ameaçado o rompimento com Israel, saindo dos Acordos de Abraão, o que ligou um alerta na Casa Branca para um golpe de imagem e econômico desse porte.

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Nada do que aconteceu nessas semanas ocorreu por alguma radical mudança de espírito de Trump, mas por pressões políticas e econômicas que afetariam diretamente os interesses dos EUA na região, vindas especialmente dos países árabes, mas também da Turquia. Outro ator de destaque nas últimas semanas foi a Indonésia, país de maior população muçulmana do mundo e que aderiu à histórica proposta saudita: caso Israel reconheça um Estado palestino, em troca, receberá reconhecimento, garantias e investimentos econômicos.

Se existem pontos que merecem valor e destaque, e existe também uma conjuntura de pressão internacional por uma solução para o Estado palestino, a reconstrução de Gaza e o desarmamento de Hamas, qual o motivo da coluna afirmar que a paz ainda está distante? Pela fragilidade do que foi combinado e pelas ausências nos pontos anunciados. A fragilidade do que foi assinado ficou visível no próprio dia treze de outubro, quando foram necessárias duas cerimônias de assinatura.

Uma em Jerusalém, entre Trump e Binyamin Netanyahu. Trump, inclusive, pediu abertamente por um indulto para o premiê israelense em seus casos de corrupção. Depois, Trump foi até o Egito, se encontrar com duas dezenas de lideranças internacionais, para a assinatura com os mediadores árabes e a Turquia. Sequer houve um encontro entre todos os signatários, com boicotes mútuos. Não é exatamente um bom começo.

Além disso, muitos dos aspectos dos vinte pontos são meras declarações de princípios ou de objetivos sem um cronograma claro, com muito à ser debatido posteriormente, abrindo janelas para acusações de violações do acordo, como já ocorrem, ou para fracassos e falta de concórdia. Principalmente, nenhum documento afirma claramente a futura existência de um Estado palestino, apenas o reconhecimento de que essa é a “aspiração do povo palestino”.

Finalmente, a grande ausência dos documentos é a Justiça, em maiúsculas. Nada se fala de reparações, de investigações de crimes de guerra ou de crimes contra a humanidade, de responsabilização de pessoas e de lideranças por seus atos. Os casos na Corte Internacional de Justiça e no Tribunal Penal Internacional, que acusa lideranças tanto do Hamas quanto israelenses, sequer são mencionados. Sem Justiça não há paz, apenas ausência de conflito, esperando por mais um ciclo de violência, e a oportunidade perdida retorna ao status quo, cobrando um preço muito caro no futuro.

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Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história