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Como a falsificação da História ganhou as eleições na Polônia

Por menos de 2%, a Polônia elegeu Karol Nawrocki como presidente, o líder de um instituto que busca falsificar a história em busca da construção de uma narrativa favorável a direita conservadora e nacionalista

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Foto do autor Filipe Figueiredo

A Polônia é provavelmente o país europeu onde a produção e preservação de conhecimento de História é mais monopolizada pelo Estado. Não apenas em um sentido de investimento ou de manutenção de uma estrutura, mas de controle sobre o que se pesquisa, o que se publica e, em última instância, o que se diz.

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Algo nem um pouco salutar em um país com instituições democráticas. Esse monopólio é exercido pelo Instituto da Memória Nacional e Karol Nawrocki, seu atual presidente, acaba de ser eleito presidente da Polônia, em uma plataforma de direita nacionalista e anti-União Europeia. E essas coisas não são coincidência.

O diagnóstico sobre a produção de conhecimento histórico polonês exposto acima não é fruto da cabeça do colunista, mas conclusão de Georges Mink, intelectual francês de origem polonesa e um dos principais pesquisadores sobre a Polônia e outros países do que se convencionou chamar de Leste Europeu. O Instituto da Memória Nacional, conhecido em polonês pela sigla IPN, exerce seu monopólio via o controle do orçamento, liberando verbas apenas para abordagens que atendam aos seus interesses políticos e narrativos, com metodologias muita vezes criticadas por especialistas no ramo, como o citado Mink.

O presidente eleito da Polônia, Karol Nawrocki, se encontra com o atual presidente do país, Andrzej Duda, no Palácio Presidencial, em Varsóvia, Polônia  Foto: Wojtek Radwanski/AFP

O IPN foi fundado em 1998, no contexto da entrada do país na OTAN, como guardião dos arquivos da Comissão Principal para a Investigação de Crimes contra a Nação Polonesa, fundada em 1991, que investigou e pesquisou violações de direitos humanos realizadas pelo Estado polonês durante o período socialista, de 1947 a 1989, e incorporou as investigações e pesquisas realizadas nesse mesmo período sobre violações de direitos humanos realizadas pela ocupação nazista e por colaboracionistas fascistas poloneses.

A proposta inicial do IPN era incorporar investigar crimes realizados pela ocupação soviética do país, já que alemães e soviéticos realizaram uma “quarta partição” da Polônia em 1939. Esse propósito necessário e intelectualmente honesto se deu em um momento de oportunismo político, já que, repete-se, o IPN foi fundado no contexto da entrada da Polônia na Otan, quando torna-se conveniente posicionar os canhões da História mais na direção da Rússia do que na direção da Alemanha ou dos próprios poloneses, ao contrário dos anos anteriores. História e política andam de mãos dadas, mesmo em momentos de oportunismo.

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Apoiadores do presidente eleito da Polônia, Karol Nawrocki, celebram a sua vitória em Varsóvia  Foto: Wojtek Radwanski/AFP

Progressivamente, foi ficando clara que a proposta do IPN não é de pesquisa e de construção de conhecimento, mas apenas consolidar uma narrativa que atenda à política polonesa, especialmente à direita conservadora e nacionalista.

No caso, uma narrativa que ignora a agência de atores poloneses, varre para debaixo do tapete crimes e atrocidades cometidas por poloneses e transforma o país em um mártir permanente de seus vizinhos, uma espécie de “vítima perfeita” dos crimes e atrocidades que foram de fato cometidos por seus vizinhos. Mink chama o IPN de “especializado em martirologia”.

Sim, a Polônia foi particionada, ocupada e colonizada por seus vizinhos desde o século XVIII, com repetidas tentativas de apagamento de sua identidade nacional. Isso não justifica apagar fatos como poloneses que cometeram atos de violência, o antissemitismo ou que a Segunda República Polonesa não fosse atuante no jogo diplomático europeu do entreguerras, governada pelo ditador autoritário e expansionista Józef Piłsudski e naquele momento potência ocupante de partes da Lituânia. Também não quer dizer que as Histórias de Polônia, Alemanha e Rússia não estejam interligadas de maneiras mais complexas e profundas do que o tradicional jogo de “mocinhos e bandidos” permita. Esse legado pode ser visto até hoje no mapa eleitoral do país.

O presidente eleito da Polonia, Karol Nawrocki, participa de um comício do partido da direita radical Lei e Justiça, em Varsóvia  Foto: Wojtek Radwanski/AFP

O nome completo do IPN é “Instituto da Memória Nacional — Comissão para o julgamento de crimes contra a Nação polonesa”. Note o leitor que o termo “investigação” da comissão original foi substituído por “julgamento”, um veredito sem propósito histórico que define heróis e vilões em busca da construção dessa narrativa da direita conservadora e nacionalista. A principal plataforma desse setor da sociedade e da política polonesa é o partido Lei e Justiça, conhecido como PIS em polonês, que ocupou a presidência polonesa em quinze dos últimos vinte anos e teve o primeiro-ministro em metade do período.

Sob os governos do PIS foram promulgadas duas leis que reformaram o IPN, em 2016 e em 2018, oficializando seu papel de megafone de narrativas nacionalistas. Tais leis criaram crises diplomáticas entre a Polônia e Ucrânia, Hungria e Israel, já que praticamente criminaliza a mera constatação do fato histórico e empírico de que poloneses colaboraram ou agiram contra pessoas dessas nacionalidades. O pogrom de Jedwabne, em 1941, bem documentado, tornou-se alvo de negacionismo histórico, por exemplo. Tais falsificações e negações da História são parte de um projeto político, não de incompetência intelectual. E, por menos de 2% de diferença, o líder dos falsificadores acaba de ser eleito presidente.

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Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história