Como a Índia chegou à ‘primeira divisão’ da exploração espacial e pode faturar até US$ 1 trilhão

Especialistas ouvidos pelo ‘Estadão’ contam detalhes da estratégia indiana, como a abertura de uma nova base para lançar foguetes privados, em 2024, e os movimentos e reações de China, Rússia e EUA

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Por Felipe Frazão
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ENVIADO ESPECIAL A NOVA DÉLHI E HYDERABAD - O inédito pouso na face oculta da Lua com a missão Chandrayann 3, em agosto, consolidou a Índia como uma potência global no setor, ampliou a exposição de seu programa espacial e a ambição dos atores privados em ganhar espaço no mercado. Empresários estimam que, até 2040, a economia mundial relacionada à exploração espacial alcance o valor de US$ 1 trilhão - o equivalente a cerca de R$ 5 trilhões.

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Para descobrir como o país se situa na geopolítica e no mercado espacial, o Estadão conversou com três especialistas indianos, diretamente envolvidos com análises e pesquisas do tema e no efervescente mercado de startups espaciais. Eles comentaram como o país mais populoso do mundo pretende ampliar sua participação no setor, para além das atividades da Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO).

Depois de ser o primeiro país a pousar no hemisfério Sul da Lua, o plano oficial do premiê Narendra Modi inclui: operar uma Estação Espacial própria - Bharatiya Antariksha Station -, até 2035, enviar à Lua uma missão tripulada por um astronauta indiano, até 2040, além de pousar um robô em Marte e colocar um satélite de observação na órbita de Vênus.

“O mundo deve prestar atenção às próximas missões da ISRO, incluindo a sua missão espacial tripulada, Gaganyaan, e a colaborações como o desenvolvimento conjunto do satélite NASA-ISRO SAR (NISAR). Estas missões e colaborações têm o potencial de fazer avançar a ciência espacial, a investigação e a cooperação internacional”, afirma a CEO e fundadora da SpaceKidz India, Dr. Srimathy Kesan, embaixadora da Nasa (EUA), do CGTC (Rússia) e da ESA (Europa). “O papel da ISRO na construção de infra-estruturas lunares e a participação em estações internacionais de investigação lunar também são áreas-chave de interesse.”

Uma das conclusões compartilhadas pelos especialistas é que, 60 anos depois de inaugurar seu programa espacial, a Índia conseguiu se estabelecer no que chamam de first league - a primeira divisão -, uma classificação informal para designar os países detentores de tecnologia e com mais capacidades espaciais. Ao lado da Índia, estão os Estados Unidos, a Rússia, a China e a União Europeia.

“A Índia está à frente da Europa quando se trata de pouso suave na superfície lunar e de acesso a outros sistemas interplanetários. Também deu um salto em frente na política de utilização dos recursos espaciais”, afirma Namrata Goswami, escritora e especialista em Política Espacial e Política de Grandes Potências.

No entanto, ela lembra que a Índia não domina ainda todos os conhecimentos do espaço. Além disso, os planos de Modi já sofreram atrasos. A estação espacial própria, por exemplo, era antes prevista para 2030.

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“Os EUA, a China e a Rússia estão à frente no que diz respeito a sistemas de lançamento, constelações de satélites e capacidade espacial militar. A Índia não possui foguetes de carga pesada ou foguetes reutilizáveis. Isso limita o que pode fazer em relação às atividades espaciais. A Índia também não lançou uma missão humana independente para LEO (órbita baixa da Terra), um feito realizado pelos EUA, China e Rússia. Gerenciar uma estação espacial na órbita terrestre baixa é uma tarefa difícil. A Índia também não atingiu essa capacidade e planeja lançar a sua própria estação espacial independente até 2035″, diz Goswami, que trabalhou por 10 anos no Instituto de Estudos e Análises de Defesa, think tank do Ministério da Defesa da Índia e foi pesquisadora visitante no Instituto da Paz dos Estados Unidos e no Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Oslo (PRIO).

Brics no espaço?

Com a futura desativação da Estação Espacial Internacional, os países estão buscando ativamente parceiros para formar redes próprias de exploração, a exemplo da China com sua estação Tiangong, e da Rússia, que pretende lançar o primeiro módulo da estação ROS em 2027.

O primeiro-ministro Narendra Modi lançou a ideia de um consórcio do BRICS - bloco do qual também fazem parte originalmente Rússia e China. Em julho, no entanto, autorizou o ingresso nos Acordos Artemis, dos Estados Unidos, em clara oposição a Pequim, seu principal maior rival na região, com o qual tem disputas territoriais.

Rússia e China planejam estabelecer a Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS) e convidaram outro inimigo fronteiriço da Índia, o Paquistão. Rússia, China, EUA, Paquistão e Índia são potências nucleares.

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“A Índia está mudando rapidamente seu ecossistema espacial. O setor espacial de defesa é agora um componente crítico da política espacial da Índia, com o primeiro-ministro Narendra Modi criando a Missão Espacial de Defesa em 2022. Os sistemas a serem desenvolvidos incluem sistemas de lançamento, sistemas de satélite, sistemas de software e sistemas terrestres. A Índia agora reconhece a importância do espaço para operações em vários domínios e estabeleceu uma Agência Espacial de Defesa e testou uma arma ASAT em 2019″, diz Goswami. “A Chandrayaan 3 exigiu algumas tecnologias precisas, como mapeamento do terreno lunar, pouso preciso, propulsão avançada e um sistema de lançamento, todos desenvolvidos localmente. Embora seja uma missão civil, sucesso como este contribui para o setor de inovação em Defesa.”

Namrata Goswami é co-autora do livro Corrida pelos Céus: A competição das grandes potências para controlar os recursos do espaço exterior. Lançada em 2022, a obra aborda as ambições dos países na nova corrida espacial e apresenta cenários diferentes de domínio. A previsão do livro é que, em 2060, a China lidere o setor, com os Estados Unidos em segundo-lugar, e a Índia, em terceiro.

Disputa entre Índia e China

Ao Estadão, Goswami diz que a Chandrayaan 3 “melhorou a posição negocial da Índia face aos EUA, que se preocupam muito com a capacidade espacial real de uma nação quando se trata de construir relações bilaterais”. Ela também enxergou sinais de que a missão lunar indiana “abalou a China”, afirma.

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“Muito diferentemente da sabedoria estratégica central da China de praticar a contenção estratégica em relação a um vizinho nuclear, alguns dos principais cientistas da China deram entrevistas à mídia chinesa dizendo que a missão da Índia era simples e não pousou no Pólo Sul, e que a China irá pousar no Pólo Sul no próximo ano. O próprio fato de estes importantes cientistas chineses terem dado estas entrevistas, numa tentativa de minar a missão da Índia no hemisfério sul da Lua, revelou uma profunda ansiedade e insegurança com a realização lunar da Índia. Esta reação ‘amável’ dá uma ideia do fato de que a Chandrayaan 3 transformou a Índia num líder mundial no que diz respeito à capacidade espacial”, analisa a especialista.

Além da agência espacial de fins civis e do novo programa voltado à fins militares e de Defesa, o mercado privado de serviços e produtos é outro foco indiano. Em 2020, o governo estabeleceu uma política pública voltada para o fomento do setor, o que destravou investimentos privados, permitiu a empresas firmarem parcerias e aproveitarem a experiência e as instalações da ISRO. Foram mais de três anos de discussões.

Ecossistema espacial

Engenheiro mecânico formado no Instituto Indiano de Tecnologia, Pawan Kumar Chandana foi cientista da ISRO até co-fundar em 2018 a Skyroot Aerospace, da qual é CEO. A startup foi pioneira ao fazer um lançamento de foguete próprio, no ano passado, com sucesso. Arrecadoou US$ 95 milhões de investidores, tem um orçamento anual de cerca de US$ 20 milhões e planeja começar a gerar lucro num prazo de quatro anos.

Para ele, a pré-existência de 60 anos de experimentos e de infraestrutura da agência espacial favoreceu a rápida evolução do ecossistema de startups indianas, que já reúne 217 empresas no setor aeroespacial.

“Não fazemos intercâmbio de tecnologia em si, mas usamos as instalações da ISRO, então não precisamos construir as mesmas estrutura de novo, não precisamos reinventar nada. As instalações estão disponíveis ao longo do ano, porque nem sempre são utilizadas”, afirma Chandana.

Atualmente, todos os lançamentos são feitos da base espacial na ilha de Sriharikota, perto de Chennai. Não há instalações privadas. O governo planeja abrir no ano que vem uma nova base, também no Estado de Tamil Nadu, mas na faixa do extremo Sul indiano, que permitirá operações mais arrojadas e em diferentes rotas, por causa da posição geográfica.

Os lançamentos poderão ocorrer sem restrições, a mais direções, e sem por em risco a relação e o território do Sri Lanka, país vizinho. Após o lançamento, os veículos (foguetes) são programados para cair no oceano.

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Na Índia, todos os centros de lançamento são geridos pelo governo, mas eles podem ser aproveitados pelas empresas, sem a necessidade de que invistam ainda mais na construção dessas estruturas.

Ainda assim, está nos planos das empresas abrirem suas próprias plataformas de lançamento, dentro de uma nova base governamental em construção a ser mantida pela ISRO. Ela ficará numa localidade conhecida como Kulasekarapattinam. As empresas poderão construir suas próprias plataformas de lançamento lá dentro.

“Hoje não podemos fazer lançamentos em direção ao Sul da Terra, porque passamos pelo Sri Lanka. Os foguetes tem que ser direcionados para órbitas a Leste. Gastamos mais tempo e energia, temos menos capacidade de carga útil”, diz Pawan Chandana. “Com duas bases, poderemos cobrir todas as órbitas.”

Segundo a Invest India, a Agência Nacional de Promoção de Investimentos e Facilitação, as atividades econômicas ligadas ao espaço exterior na Índia devem representar um valor de US$ 13 bilhões até 2025. O setor espacial indiano foi estimado em US$ 9,6 bilhões em 2020, cerca de 2% da economia espacial global. O objetivo do país é expandir sua participação para 10%, no prazo de cinco a dez anos.

As atividades incluem o setor de serviços aeroespaciais, que engloba o desenvolvimento de satélites e foguetes, bem como o lançamento em órbita e operação dos equipamentos. O foco da Índia é ser o hub para pequenos satélites, até cerca de 500 kg. Chandana estima que 30 mil serão lançados nos próximos dez anos, em todo o mundo, sobretudo para observação e monitoramento da Terra, além de comunicação, para estabelecer a internet das coisas.

A ISRO, por exemplo, já recebeu US$ 279 milhões ao lançar satélites para clientes globais. Foram 424 satélites, de 34 países, incluindo o Amazônia-1, do Brasil, em 2021.

Especialistas no setor estimam que o mercado da economia espacial seja atualmente de US$ 546 bilhões, conforme o mais recente relatório, de 2023, da Space Foundation, organização sem fins lucrativos que emite estudos anuais desde 2005, com base em análises de gastos civis e militares de 51 governos e organismos de cooperação multilaterais. O valor é referente a 2022.

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“O governo tem promovido ativamente parcerias público-privadas no setor espacial. Isso inclui fabricação de satélites, serviços de lançamento e serviços baseados em satélite. O governo lançou programas de apoio a startups espaciais e ao empreendedorismo no país, iniciativas como a ‘Atal Innovation Mission’ e ‘Make in India’ têm incentivado o desenvolvimento de tecnologias e soluções espaciais inovadoras por parte de startups”, afirma Srimathy Kesan. Segundo ela, a empresa voltada ao desenvolvimento de satélites, inclusive com estudantes, recebeu suporte do governo para lançamento de satélites construídos por 750 crianças de escolas públicas rurais.

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