Após 600 dias de guerra na Faixa de Gaza, Binyamin Netanyahu decidiu falar em voz alta o que ministros e outros membros do seu governo vêm repetindo desde 7 de outubro de 2023. O objetivo de Israel no conflito com o grupo terrorista Hamas é encurralar a população palestina no sul do território e forçar sua expulsão para outro lugar.
“Estamos derrubando cada vez mais casas e eles (os palestinos) não têm para onde voltar. O único resultado óbvio será o desejo dos moradores de Gaza de emigrar para fora da Faixa de Gaza. Nosso principal problema é encontrar um país que os acolha”, disse em uma reunião do comitê de Defesa e Relações Exteriores do Parlamento em meados de maio.
A reunião ocorreu uma semana depois de o premiê israelense ordenar ao Exército o deslocamento forçado de grande parte da população de Gaza para a região de Khan Younis, no centro do território palestino, enquanto as forças armadas israelenses expandiram a ocupação da faixa para cerca de 70% de seu território.

A operação, batizada de ‘Carruagens de Gideão’, começou dois meses depois de Netanyahu romper um cessar-fogo com os radicais palestinos negociado pelo presidente americano, Donald Trump, que previa a libertação dos reféns e o fim da guerra.
Entre março e maio, Netanyahu também impediu a entrada de ajuda humanitária em Gaza, o que levou a população palestina à beira da inanição, segundo a ONU e outras entidades humanitárias como os Médicos Sem Fronteira e a Cruz Vermelha.
O objetivo da operação, segundo o governo, é pressionar o Hamas a libertar os 58 reféns que seguem em Gaza e derrotá-lo militarmente.
Não é uma meta nova. Israel fala em derrotar o Hamas e libertar os reféns desde outubro de 2023.
Como as comunidades próximas de Gaza vivem um ano e meio após início da guerra
Estadão esteve na região e visitou locais como o kibutz de Ni Roz; acompanhe série de reportagens.
Uma série de ofensivas
A guerra começou pelo norte do território, com o cerco à Cidade de Gaza, ainda em novembro daquele ano. Na ocasião, o Exército israelense determinou à população da região que se retirasse para garantir sua segurança. Em janeiro de 2024, Israel declarou que a infraestrutura do Hamas no norte de Gaza estava destruída.
O foco passou para a parte central da Faixa. Mais uma vez, os palestinos foram orientados a se deslocar de Khan Younis, o novo alvo, para Rafah, ao sul. Em fevereiro, Israel declarou vitória sobre as brigadas do Hamas na região.
Netanyahu então ordenou que os refugiados saíssem de Rafah, que seria totalmente controlada apenas em setembro, com a derrota do último batalhão do Hamas, de volta para o centro de Gaza.
Em consequência desta dinâmica, desde o início da guerra 1,9 milhão de palestinos foram deslocados pelo conflito, o equivalente a 82% da população total de Gaza, segundo a ONU. Ainda de acordo com as Nações Unidas, 92% dos edifícios do território palestino foram destruídos na guerra.
Os alvos seguintes foram os líderes do Hamas. Israel conseguiu matar o mentor dos atentados, Yahya Sinwar, em outubro, além de outros do alto comando, como Mohamed Deif, Marwan Issa e Ismail Hanyeh.

Compromisso com os radicais
Então vieram as eleições americanas, a vitória de Trump e a necessidade do republicano de patrocinar um cessar-fogo no começo do mandato.
Mesmo com todos esses sucessos militares e diplomáticos, Netanyahu jamais teve a intenção de levar a trégua a fases mais definitivas, que levariam ao fim do conflito.
Isso aconteceu porque os maiores defensores da expulsão dos palestinos de Gaza e da colonização da Faixa por colonos judeus estão dentro do governo: Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir. Sem eles, Netanyahu cai. E por causa deles, essa opção sempre esteve à mão de do premiê.
Apenas seis dias depois do tenebroso atentado do Hamas contra o sul de Israel, ainda em outubro de 2023, a imprensa israelense noticiou que o governo determinou a elaboração de um documento sobre os cenários do pós-guerra. O mais provável, que “renderia resultados estratégicos positivos e de longo prazo para Israel”, seria expulsar 2,3 milhões de pessoas da Faixa de Gaza.
O plano de expulsão dos palestinos de Gaza, bem como o tratamento dado por Israel aos civis até aqui, desafiam o artigo 49 da Convenção de Genebra, que trata da movimentação de populações civis em área de guerra. Essa legislação, criada após a 2ª Guerra, também proíbe a deportação de civis por parte de um dos atores do conflito, independente do motivo.
Em outras palavras, limpeza étnica.
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A moralidade da guerra
Durante uma viagem de uma delegação de jornalistas brasileiros a Israel, ainda no começo da guerra , em março de 2024, perguntei a um representante da chancelaria israelense se havia alguma legalidade nos ataques a hospitais na Faixa de Gaza que abrigavam bebês prematuros em incubadoras, na falta de ajuda humanitária e no deslocamento frequente de civis.
Ele disse que sim. Àquela altura, como agora, o governo israelense justificava os bombardeios a alvos civis em Gaza com a presença de militantes do Hamas em hospitais, escolas e outras infraestruturas civis.
Claro que os terroristas do Hamas usam a população civil como escudo e se escondem atrás dos inocentes. Mas é válido matar o sequestrado para aniquilar o sequestrador, especialmente quando falamos de recém-nascidos?
Mas de qualquer forma, questões morais à parte, o desfecho que se avizinha em Gaza traz problemas geopolíticos graves e evidentes, não só para Israel, como todo o Oriente Médio.
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As acusações frequentes de Lula provocaram rusgas diplomáticas entre Brasil e Israel. Crédito: TV Brasil
O retorno do terrorismo
Como o próprio Netayahu reconheceu a seus pares, “o principal problema é encontrar um país que acolha os palestinos”. Um êxodo em massa ao Egito provavelmente colocaria fim à pedra fundamental da paz entre Israel e seu principal vizinho, o Egito. O Acordo de Camp David, em 1978, devolveu a Península do Sinai aos egípcios e fez com que o Cairo reconhecesse Israel.
A ditadura do marechal Al-Sissi dificilmente reagiria bem a centenas de milhares de refugiados em seu território, muitos dos quais simpáticos ao islamismo radical da Irmandade Muçulmana — uma espécie de ‘irmã mais velha do Hamas’, que há muito custo o último regime secular do Oriente Médio luta para debelar.
Nos bastidores diplomáticos do Cairo, a avaliação é a de que a decisão israelense está tomada e Netanyahu conduz a guerra de uma maneira a ganhar tempo para executar o plano de expulsão dos palestinos de Gaza, e, talvez, da Cisjordânia. O principal temor do governo Sissi é que o plano de Netanyahu consista em tornar os palestinos uma questão a ser resolvida por egípcios e jordanianos.
Como o impacto disso seria desastroso para a estabilidade do Oriente Médio, a Casa Branca chegou a sondar ainda em março se alguns países da África Oriental, como Sudão e Somália, aceitariam os palestinos.
Ninguém topou. Mas mesmo que americanos e israelenses consigam deportar os palestinos para a África, três cenários são prováveis.
O primeiro deles é que todo o Oriente Médio romperá relações com Israel, do Egito e a Jordânia às preciosas monarquias do Golfo que são cortejadas tanto por Trump quanto por Netanyahu.
Com a expulsão dos palestinos, não haverá Acordo de Abraão, Israel pode dar adeus às normalizações com a Arábia Saudita e talvez Trump tenha que devolver o avião que ganhou do Catar.
Em segundo lugar, o deslocamento forçado de palestinos poderia provocar novas pressões migratórias da África para a Europa, assim como ocorreu durante a Guerra Civil Síria no Oriente Médio há uma década. Talvez por isso, Tel-Aviv venha enfrentando pressões recentes de líderes europeus em Londres, Berlim e Paris.
O terceiro ponto é que a praga do terrorismo sunita pode ressurgir com mais força, anos após a derrota do Estado Islâmico e da Al-Qaeda. A questão palestina, com centenas de milhares de pessoas expulsas de Gaza, poderia radicalizar ainda mais, não só os palestinos seduzidos pelo Hamas, mas também jovens no Magreb, na Península Arábica e até mesmo em capitais europeias.
E mesmo com Gaza sob total controle israelense, convém a Netanyahu não se esquecer que, do outro lado do Golan, não é mais com Bashar Assad que ele tem de lidar.
A Síria pós-guerra civil é hoje liderada por um ex-comandante da Frente al-Nusra, uma das dissidências da Al-Qaeda, que hoje tenta se apresentar como “moderado” aos olhos do Ocidente, mas que foi forjado nos mesmos ideais radicais sunitas que inspiraram o Hamas no 7 de outubro.









