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Lula vai se opor a tom duro contra a Rússia em declaração negociada pelo Brasil no G-7

Países do bloco, aliados da Ucrânia, articulam um documento conjunto com as nações convidadas sobre a segurança alimentar, que deve citar a guerra provocada por Vladimir Putin

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Por Felipe Frazão
Atualização:

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai se opor, em reunião do G-7 no Japão, a tentativas dos países do bloco de endurecerem o tom contra a Rússia em uma declaração final, que será assinada por países convidados como o Brasil. O Itamaraty já negocia para que o texto conjunto, que tem como tema de fundo a segurança alimentar e deve ser adotado de forma consensual, não seja usado como plataforma para atacar Moscou por causa da guerra na Ucrânia.

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A guerra necessariamente será citada nesse documento por causa de seus efeitos negativos, em escala global, sobre a cadeia produtiva e de distribuição de suprimentos e alimentos. Mas, segundo o embaixador Maurício Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros, o Brasil atua para adequar a linguagem, de forma que ela esteja em sintonia com a posição brasileira. O governo Lula tenta se equilibrar no conflito e apresentar-se como neutro.

“Como é uma declaração sobre segurança alimentar e há efeitos do conflito na Ucrânia sobre acesso a alimentos e nós sabemos disso, uma referência inicial deverá ser feita ao conflito na Ucrânia. E, naturalmente, o governo brasileiro negocia essa linguagem para que seja compatível com a linguagem que o Brasil tem usado sobre o tema, inclusive tem defendido na negociação de resoluções em diversas instâncias internacionais, como a própria ONU”, afirmou Lyrio, nesta segunda-feira, dia 15, ao apresentar os compromissos do presidente no G-7. “Nossa visão é que a ênfase desse documento deve ser de fato a segurança alimentar, já que esse é o tema principal.”

Antes do segmento com países convidados, do qual Lula participará, o grupo do G-7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) emitirá um comunicado próprio oficial. Trata-se de outra declaração conjunta, de cuja negociação o Brasil não participa. Todos são aliados declarados de Kiev. “O documento do G-7 propriamente dito e o do G-7 mais países convidados são bastante diferentes”, explicou o embaixador.

O chanceler Mauro Vieira durante encontro com o ministro de Exterior da Rússia, Sergei Lavrov, em abril 

Sem ‘lado’ no conflito

Na quinta-feira passada, dia 11, o chanceler Mauro Vieira afirmou que o Brasil não iria isolar a Rússia em fóruns multilaterais, como é o caso do G-7. Além disso, segundo ele, o Brasil não tem interesse em tomar lado no conflito. Embora condene a violação do território da Ucrânia pela Rússia, o chanceler disse que o Brasil não aceita sanções unilaterais e rejeita articulações para isolar Vladimir Putin nos fóruns multilaterais. A Rússia não faz mais parte do bloco, antigo G-8, tendo sido expulsa após a tomada da Crimeia, em 2014.

A expectativa nos bastidores do G-7 é que as potencias ocidentais e europeias forcem a mão para endurecer o tom contra a Rússia. Nesse cenário, a diplomacia brasileira atua nos bastidores para amenizar os termos.

O Brasil vai participar da cúpula como convidado do Japão, país anfitrião. Foram chamados ainda os líderes políticos de Austrália, Índia, Indonésia, Coreia do Sul, Vietnã, Comores e Ilhas Cook.

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Em março, por exemplo, Brasil deixou de assinar uma declaração com menção contra a Rússia, numa Cúpula da Democracia organizada pelo governo Joe Biden. A justificativa da diplomacia brasileira era que o tema não era pertinente ao encontro, e deveria ser tratado no âmbito das Nações Unidas.

É improvável a repetição desse cenário - o Brasil deixar de assinar o documento sobre segurança alimentar -, mas o País conta nos bastidores com a oposição de outros chefes de Estado e de governo convidados, não totalmente alinhados ao Ocidente na questão da Ucrânia, como o premiê indiano Narendra Modi. A Índia faz parte dos BRICS, assim como o Brasil, e optou por se abster em algumas votações contrárias aos interesses de Moscou nas Nações Unidas.

10/05/2023 NACIONAL / CELSO AMORIM / ZELENSKY - Reunião entre o assessor internacional da Presidência da República, Celso Amorim, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, nesta quarta-feira (10), em Kiev. NA FOTO Celso Amorim, assessor internacional da Presidência, se encontra com o vice-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrij Melnyk, antes de reunião com Volodymyr Zelensky Foto: Twitter/@Andrij Melnyk 

Reuniões bilaterais

Lula terá sua primeira reunião bilateral com Modi, à margem do G-7 em Hiroshima, além de um encontro com o anfitrião, o primeiro-ministro japonês Fumio Kishida, e com o presidente da Indonésia, Joko Widodo.

Os países, três das maiores economias em desenvolvimento, estão à frente do G-20 nos últimos anos. A Indonésia presidiu em 2022, a Índia preside neste ano, e o Brasil assumirá a organização em 2024.

Prioridades

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O presidente decola de Brasília na quarta-feira, dia 17, e chega ao Japão na sexta-feira, dia 19, pela manhã. O presidente participará de duas sessões ampliadas de debate no sábado, dia 20, e uma no domingo, 21, com uma declaração conjunta ao fim. Na manhã de domingo, dia 21, Lula e os chefes de Estado vão ao Memorial da Paz em Hiroshima, onde prestam homenagem às vítimas da guerra com uma cerimônia de deposição de flores. A comitiva presidencial ainda está em definição, segundo o Itamaraty.

Lula vai levar ao G-7 sua proposta de mediação, por parte de países amigos, de um acordo de paz entre Ucrânia e Rússia, além de abordar a sustentabilidade, uma pauta da política externa brasileira. O governo tem cobrado reiteradamente a ajuda financeira para proteção ambiental, uma promessa de U$ 100 bilhões ainda não cumprida. Também é esperado que ele aborde a situação de países endividados, como a Argentina, que prometeu socorrer.

Entre as prioridades do governo japonês para o G-7 estão avaliações sobre conjuntura econômica, transição energética, saúde pública, financiamento prometido pelos países desenvolvidos para os demais afetados pelas mudanças climáticas e o enfrentamento da crise pelos países muito endividados, num cenário mundial de inflação alta e elevação de taxas de juros.

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