Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de Relações Internacionais da FGV-SP. Escreve quinzenalmente.

Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de Relações Internacionais da FGV-SP. Escreve quinzenalmente.

Por que a Europa está numa encruzilhada histórica?

O modelo europeu mostra-se inadequado para um mundo marcado por rivalidades geopolíticas

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Foto do autor Oliver  Stuenkel

Depois de séculos exercendo um papel central na ordem internacional e projetando poder para além de suas fronteiras, a Europa encontra-se na defensiva, tentando administrar e conter o peso de China, Estados Unidos e Rússia dentro e ao redor de seu território. Esse fenômeno, apelidado de “corrida pela Europa” por analistas como Gideon Rachman, no Financial Times, reflete o novo cenário em que atores de fora disputam influência no continente. A dificuldade europeia de responder à altura à invasão russa à Ucrânia, à concorrência tecnológica chinesa e às tarifas dos EUA são reflexo de sua atual fragilidade e divisão interna.

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As negociações intermináveis sobre o acordo comercial da União Europeia com o Mercosul são mais uma das consequências dessa desarticulação. Enquanto a Alemanha lidera o grupo a favor da ratificação, a França se mobiliza contra. O resultado é evidente: há décadas, a Europa vem perdendo espaço político e econômico na América do Sul, onde EUA e China são hoje os protagonistas. Dinâmicas semelhantes são claramente perceptíveis no continente africano e no Oriente Médio.

Em grande parte do Sul Global, a imagem da Europa se desgastou ao longo dos últimos anos. Muitos países emergentes veem o bloco como um ator em declínio e o acusam de hipocrisia por exigir solidariedade na Ucrânia enquanto não se mobiliza com a mesma intensidade diante de outros conflitos marcados por graves violações de direitos humanos, como em Gaza.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, participa de uma sessão do Parlamento europeu em Estrasburgo, na França Foto: Frederick Florin/AFP

Mas os desafios da Europa vão muito além de perder influência no mundo: sua dependência do comércio e dos insumos chineses é uma vulnerabilidade estratégica construída em grande parte pelas próprias elites europeias. Como observa o analista alemão Thorsten Benner, arrogância, interesses de lucro de curto prazo e o “não entendimento da estratégia de longo prazo da China nos colocaram nessa situação dramática”.

O avanço chinês em setores de alta tecnologia e em manufaturas de alto valor agregado torna obsoleta a crença de que a Europa sempre encontraria nichos de excelência para compensar a concorrência asiática. Robin Harding, também no Financial Times, resume cruamente a situação ao argumentar que a China caminha para um modelo em que quer vender de tudo para o resto do mundo, mas comprar o mínimo possível. Nessa lógica, “torna-se cada vez mais difícil imaginar como a Europa, em particular, poderá evitar um protecionismo em larga escala se quiser preservar qualquer setor industrial.”

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Em paralelo, a Rússia promove campanhas de desinformação para coagir e influenciar a opinião pública europeia e aposta que divisões internas farão a UE vacilar no apoio à Ucrânia. Os Estados Unidos, embora em teoria aliados, também intervém abertamente no cenário político europeu, seja apoiando partidos e candidatos de direita na Alemanha, Polônia e Romênia — como bem simboliza o discurso chocante do vice-presidente J.D. Vance em Munique, no qual defendeu o AfD, partido alemão de extrema direita —, seja pressionando governos europeus a adotarem padrões tecnológicos ou de segurança americanos.

O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, participa de uma cúpula em Luanda, Angola  Foto: Michael Kappeler/AFP

Tudo isso levanta uma questão urgente: embora a União Europeia possa ter tido um desenho adequado para um mundo relativamente pacífico, previsível e marcado pelo multilateralismo, o bloco consegue operar em um cenário de rivalidade aberta entre grandes potências? Ao que tudo indica, em um ambiente dominado por líderes nacionalistas como Trump, Xi e Putin, a tradicional aposta europeia em soft power — atração cultural, valores e ajuda ao desenvolvimento — será insuficiente para firmar o continente como polo autônomo de poder.

Além disso, como o próprio Rachman lembra, a estrutura institucional da UE dificulta respostas rápidas: crises que exigem decisões em horas esbarram em um sistema que precisa conciliar 27 governos, muitas vezes com prioridades conflitantes. Divergências internas abrem ainda mais espaço para interferências externas: Pequim seduz governos com investimentos, Moscou encoraja líderes eurocéticos, Washington negocia diretamente com capitais europeias quando isso ajuda a contornar posições comuns do bloco.

Para evitar que a Europa se torne periférica no jogo das potências, seria necessário reforçar, com coerência, a autonomia estratégica do continente, com foco em quatro frentes: investimentos mais robustos em defesa, em tecnologia de ponta e na transição energética; redução da dependência em relação à China e aos Estados Unidos; simplificação dos processos de decisão política, para evitar que poucos países consigam paralisar novas estratégias; e desburocratização para impulsionar o crescimento. Em tempos normais, isso já seria um enorme desafio. Com o avanço de partidos eurocéticos nas duas maiores economias do bloco — Alemanha e França — talvez isso seja politicamente impossível. Cabe aos europeus decidir se serão autores do próprio destino ou espectadores das ambições alheias.

Opinião por Oliver Stuenkel

Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de Relações Internacionais da FGV-SP. Escreve quinzenalmente.