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Opinião|Partido Republicano de Trump é uma confederação de farsantes

Com a nova rejeição de projeto que buscava reforma migratória e ajuda para Ucrânia e Israel, republicanos do Senado americano deixam claras suas prioridades

Tenho uma sugestão para o próximo esquema de arrecadação de fundos de Donald Trump e do Partido Republicano. Sabe como as lojas de raridades esportivas às vezes oferecem bolas de basquete autografadas por um time inteiro da NBA? Bem, imaginei que Donald Trump poderia vender bandeiras brancas por US$ 1.000 a unidade, com os dizeres “Entregamos a Ucrânia à Rússia” e autografadas por ele e os bajuladores na câmara e no senado que ele reuniu para negar aos ucranianos as armas de que necessitam para resistir à ofensiva de Vladimir Putin.

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Por outros US$ 500, poderia-se adquirir uma bandeira branca autografada apenas por Trump e J.D. Vance, gravada com as imortais palavras deste último, “Não me importo com o que acontecer com a Ucrânia”. Ou uma bandeira assinada pelo líder da maioria na câmara, Mike Johnson, grande o suficiente para resumir sua visão de mundo: defendi o auxílio à Ucrânia até ser contra o auxílio, mas posso voltar a defendê-lo se Trump não for contra. Para mim, é uma questão de princípios. E seja como for, é tudo culpa do Biden.

E haveria também o definitivo artigo de colecionador. Por mais US$ 1.000, uma gigantesca bandeira branca de rendição feita do algodão mais macio, autografada por Lindsey Graham, com os dizeres: “Abri mão dos princípios de John McCain e da liberdade da Ucrânia porque Trump mandou. Mas pude jogar uma partida de golfe no campo de Trump em West Palm Beach. Posso continuar participando das entrevistas?”

O candidato republicano à presidência, Donald Trump, fala em uma coletiva com o tênis dourado de sua marca de calçados em destaque  Foto: Manuel Balce Ceneta/AP Photo

O último presente é acompanhado por um par dos novos tênis da marca Trump, garantidos pelo ex-presidente e pessoalmente testados por Graham, anunciados como o calçado mais veloz do mercado para fugir de um aliado ou inimigo, ou de qualquer declaração imbuída de princípios que você já tenha feito.

As possibilidades são infinitas, porque o Partido Republicano de Trump virou um alçapão sem fundo. Agora a organização demonstra uma disposição infinita para se envolver em qualquer forma de canibalismo, bajulação, desdita ou traição para se manter ao lado dele, independente do quanto sua demanda seja absurda, egoísta ou antiamericana. Trump decide simplesmente abandonar a Ucrânia? Tchauzinho, Zelenski. Trump decide abandonar meses de trabalho bipartidário para se chegar a um grande acordo para a reforma da imigração? Fim de papo, e ninguém questiona nada.

Nunca vi tantos membros de um partido se comportarem com tão pouco respeito por si mesmos e pelos interesses do país de uma só vez.

O Presidente da Câmara Mike Johnson (Republicano-LA) fala com repórteres no Capitólio dos Estados Unidos, em Washington, em 26 de outubro de 2023. Foto: Damon Winter / NYT

Vamos olhar o caso da Ucrânia. Não defendo uma guerra sem fim na Ucrânia. Devemos estar sempre buscando a possibilidade de um acordo entre Kiev e Moscou. Este ano mostrou duas coisas aos Estados Unidos e à Europa: o Ocidente não pode simplesmente despejar dinheiro na Ucrânia para financiar um impasse, e não pretende fazê-lo; e uma vitória clara da Ucrânia ou da Rússia parece agora uma possibilidade mais remota do que nunca.

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Mas o caminho para a negociação de um acordo não é interromper o auxílio a Kiev de uma hora para a outra, abordagem essencialmente defendida por muitos republicanos na câmara e por alguns de seus colegas no senado. Além de vergonhoso, isso seria uma insanidade estratégica. A única forma de abrir caminho para um acordo futuro, acordo que é do interesse da Ucrânia e do Ocidente, é reafirmar nossa assistência militar e econômica a Kiev ao mesmo tempo em que dobramos a aposta na diplomacia para encerrar a guerra.

Sim, trata-se de uma tarefa complicada; negociar o fim de uma guerra sempre é complicado. Concessões difíceis terão de ser feitas de ambos os lados. Para mim, isso significa, no mínimo, que a Ucrânia tenha o caminho desimpedido para ingressar na União Europeia. Se a Ucrânia, com seu exército avançado, seu imenso potencial agrícola e próspero setor de tecnologia, puder um dia ser admitida na UE, isso aproximaria a ideia de uma Europa inteira e livre da realidade, e a UE seria muito fortalecida no âmbito global, promovendo a democracia, os livres mercados, o pluralismo e o estado de direito. Isso é bom para os americanos.

E se o preço disso for a cessão por parte da Ucrânia de algumas de suas províncias orientais de fala russa, dependendo temporariamente de garantias informais de segurança e do envio de armas por parte dos EUA e da Europa, nós lidaremos com isso. Afinal, uma Ucrânia na União Europeia seria uma verdadeira potência, mesmo sem algumas de suas províncias orientais.

Já a Rússia de Putin não teria tanto a ganhar. Talvez Putin pense em colocar uma arma nuclear no espaço e em gastar mais de US$ 100 bilhões na guerra da Ucrânia, mas conforme sua infraestrutura desmorona, cada vez mais russos estão congelando em casa nesse inverno.

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“As cidades estão congelando. De quem é a culpa?” disse Boris Nadezhdin, candidato à presidência que tentou disputar o cargo contra Putin, apesar de atrair poucos eleitores. Recentemente, o Financial Times publicou uma declaração dele segundo a qual “As imensas somas gastas e planejadas para a operação militar especial poderiam ter sido investidas na melhoria da qualidade de vida dos meus concidadãos”.

Nenhum acordo decente envolvendo a Ucrânia será possível se deixarmos Trump e seu partido simplesmente tirar da tomada o auxílio para Kiev agora. Como informaram meus colegas do New York Times na Ucrânia semana passada, o exército ucraniano está agora “envolvido em uma luta desesperada para conter a ofensiva russa. …Ao longo de toda a linha de frente de mil quilômetros, a Ucrânia ficará sem munição sem nova assistência militar americana, e há dificuldade de reposição do efetivo após dois anos de combates brutais”.

O Líder da Minoria no Senado, Mitch McConnell (Republicano-KY), caminha para uma votação nas Câmaras do Senado no Capitólio dos Estados Unidos em 07 de fevereiro de 2024 em Washington, DC. Foto: ANNA MONEYMAKER / AFP

E que ninguém tenha dúvida: se simplesmente entregarmos a Ucrânia, o próximo destino de Putin pode ser um dos Países Bálticos ou a Polônia. Mas estes são membros da Otan, o que significa que, de acordo com o Artigo 5 do tratado da Otan, os americanos são obrigados a defendê-los com seus próprios soldados e recursos. Assim sendo, entregar a Ucrânia agora pode ser um dos gestos mais caros possíveis.

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Como observou recentemente Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center, falando a respeito de Putin ao Financial Times: “Na falta de freios à sua capacidade de cometer erros fatais, um governante russo cada vez mais velho e cercado por bajuladores pode embarcar em jogadas cada vez mais irresponsáveis nos próximos anos, superando qualquer coisa que tenhamos visto até o momento. Se o Kremlin acreditar que nenhuma grande potência ocidental possui os recursos e a disposição de lutar por aliados menores como os Países Bálticos, eles podem se sentir tentados a testar o compromisso com a defesa coletiva enunciado no Artigo 5 da Otan”. Especialmente quando a retórica de Trump “cria uma perigosa ilusão de que os EUA não interviriam se Putin recorrer à força militar para dividir a Otan”, acrescentou ele.

Estamos assistindo a um embate entre duas escolas da política externa americana no caso da Ucrânia. Uma delas é a clássica abordagem dos EUA como grande potência, liderada por um presidente que cresceu durante a Guerra Fria e erguida sobre um alicerce de valores e interesses americanos que nos serviram bem desde que entramos na 2ª Guerra: nós e nossos aliados vamos negociar com Putin, mas somente a partir de uma posição fortalecida, e não enfraquecida. E nossa força emana não somente do dinheiro e das armas, mas também do fato de Biden ter conseguido reunir uma coalizão ocidental em defesa da Ucrânia que decuplica nossa força e a de nossos aliados.

Trump, em comparação, costuma se comportar como se tivesse aprendido a respeito dos assuntos globais assistindo luta livre, e não em Wharton. Muita coisa do que ele faz é simplesmente performance; a ideia é parecer forte, falar duro e encenar golpes duros, enganando a todos, exceto nossos rivais.

Por exemplo, Trump acabou com o acordo nuclear iraniano em maio de 2018, alegando que os termos tinham sido um presente de Barack Obama. Mas ele fez isso sem ter um plano diplomático para estabelecer um acordo melhor, nem aliados para confrontar o Irã caso o país explorasse a jogada de Trump e avançasse na fabricação de uma bomba nuclear. Com isso o Irã, que durante o governo Obama foi mantido a cerca de um ano do acúmulo de material físsil suficiente para a fabricação de uma bomba nuclear, encontra-se agora a poucas semanas deste objetivo. Eis o resultado da diplomacia performática.

E isso foi antes de nossos aliados se darem conta do quanto Trump desconhece ou despreza a aliança ocidental. Em um segundo mandato, ninguém confiaria nele, o que faria a estratégia de Trump de manter os “EUA em primeiro lugar” resultar quase certamente em uma estratégia dos “EUA sozinhos”. Quem acha atualmente que ajudar a Ucrânia sai caro deveria pensar no custo de defender os EUA contra a Rússia, a China e o Irã, com os americanos sozinhos.

Caros americanos, tenho medo do que esse futuro reserva, pois Trump é um falso, Lindsey Graham é um falso, e o Partido Republicano se converteu em um culto sem nenhuma plataforma coerente além de seguir os humores de Trump, o que significa que se tornou um partido falso. Nenhum deles está disposto a lutar por qualquer coisa, a não ser pela aprovação de Trump, repetindo o que ele mandar.

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Estão todos aprisionados em um ciclo desastroso e performático que nada tem a ver com a defesa dos nossos interesses reais. Tudo que importa é a performance para obter a aprovação de Trump, os cliques de sua base eleitoral, as doações, os votos, e uma vez eleitos, repete-se a performance na busca por cliques. Lavar, enxaguar e repetir, e o mundo real que se dane.

Tudo isso é falso, mas nossos inimigos não são. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Opinião por Thomas Friedman

É ganhador do Pullitzer e colunista do NYT. Especialista em relações internacionais, escreveu 'De Beirute a Jerusalém'

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