Pobreza passa de 57% na Argentina após medidas de Milei, maior taxa em 20 anos, diz estudo

Projeção da Universidade Católica Argentina também indica que 15% dos argentinos passaram fome após salto da inflação e forte desvalorização da moeda

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Por Carolina Marins

A taxa de pobreza na Argentina chegou a 57,4% em janeiro, maior patamar dos últimos 20 anos, segundo projeções da Universidade Católica Argentina (UCA). O mesmo estudo estima que cerca de 15% da população passa fome. O dado é um salto em relação à taxa do trimestre anterior que foi de 44,7%, muito em consequência da forte desvalorização da moeda promovida pelo novo governo de Javier Milei.

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Os dados são do Observatório da Dívida Social Argentina (ODSAUCA), que faz monitoramento de pobreza e assistenciais sociais há 20 anos. Os número oficiais do último semestre serão publicados apenas em 27 de março pelo Indec, o instituto de estatísticas do país. Um aumento do número de pobres no país já era esperado diante da inflação galopante, as desvalorizações da moeda e, principalmente, um ajuste econômico recessivo.

O observatório fez duas simulações com base em dados do 3º trimestre do ano anterior para projetar as taxas de dezembro e janeiro, os dois meses sob o governo Milei - embora dezembro tenha sido compartilhado com os antecessores Alberto Fernández e Cristina Kirchner até o dia 10.

Pessoas esperam na fila do lado de fora de um refeitório para receber uma sopa, no bairro operário Villa Fiorito, nos arredores de Buenos Aires Foto: Martin Cossarini/Reuters

Foram calculados os níveis de pobreza e indigência (quem não acessa o mínimo da cesta básica e passa fome) com base no aumento do preço da cesta básica em comparação com os salários, que por sua vez foram ajustados aos valores reais e os aumentos dos programas de transferência de renda.

Dos 44,7% de pobres que o observatório estimava no terceiro trimestre do ano passado, o número saltou para 49,5% em dezembro e 57,4% em janeiro. “O maior aumento foi observado nos lares da classe trabalhadora ou média que não recebem programas sociais”, indicou o departamento. Já a indigência, saiu de 9,6% no terceiro trimestre de 2023 para 14,2% em dezembro e 15% em janeiro.

“Depois de mais de duas décadas de um regime inflacionário, de empobrecimento e de aumento dos programas sociais, aos quais se acrescenta um novo programa ortodoxo de ajuste econômico, a pobreza continua a aumentar apesar da assistência pública”, escreveu o observatório ao divulgar os dados nas redes sociais.

Os números monitorados pelo ODSAUCA são levemente mais altos que os divulgados pelo Indec porque considera a chamada pobreza multidimensional, que leva em consideração não apenas a renda, mas o acesso a serviços básicos de saúde, educação e moradia.

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O dado deste mês é o mais alto já registrado desde que o observatório começou os seus trabalhos em 2004. Até então, o recorde era justamente de 2004, com 54,8%, durante o governo de Néstor Kirchner. O dado mais baixo registrado e é de 2011, com 25,9%, durante o governo de Cristina Kirchner. Desde então, o número vem em uma crescente.

O salto em janeiro ocorre por causa da desvalorização de mais de 50% do valor do peso que Milei promoveu em 12 de dezembro, dois dias após assumir a presidência. A medida se traduziu quase automaticamente em aumento de preços, como foi observada na taxa de inflação de dezembro de 25,5%.

“Grande parte desse salto na pobreza de dezembro e de janeiro se explica fundamentalmente pela desvalorização. Porque o que a desvalorização faz é aumentar os preços”, explica o economista Juan Manuel Telechea.

”Repare que a maneira de medir a pobreza é por meio de uma medida padrão, que é a cesta básica, que representa o consumo mínimo de vida. Quando ocorre um salto de inflação, o valor se acelera, enquanto os salários correm atrás, ou praticamente não aumentam em dois meses, como aconteceu na Argentina, e então isso leva a um aumento muito forte da pobreza”, completa.

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Junto com a desvalorização veio um congelamento de salários que tem como objetivo frear o consumo, como parte do plano recessivo do novo presente para evitar a temida hiperinflação. O custo da estratégia, porém, é o aumento da pobreza, o que faz desta medida um tiro de muito curto prazo.

Segundo Telechea, a expectativa é que esse número se estabilize nos próximos meses ou até abaixe um pouco.

O estudo chama atenção para o fato de o aumento ter sido mais expressivo nas famílias que não recebem programas de transferência de renda. Na Argentina, os dois auxílios mais conhecidos são a Asignación Universal por Hijo (Benefício Universal por Filho), semelhante ao Bolsa Família brasileiro, e o Tarjeta Alimentar (Cartão alimentação). Sem eles, a pobreza seria 5 pontos acima, segundo projetou o observatório em estudos anteriores.

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Nos lares que não recebem programas de assistência, a taxa de pobreza foi de 43,9%, contra 34,7% em dezembro e 26,9% no trimestre anterior. Já nas casas com acesso aos auxílios, o dado de janeiro foi de 85,5%, contra 81,9% em dezembro e 76,5% no terceiro trimestre de 2023.

Já a quantidade de pessoas que passam fome nos lares sem programas sociais foi de 10,8% em janeiro, 7,1% em dezembro e 3,9% no trimestre anterior. Contra 23,8% em janeiro, 28,8% em dezembro e 19,7% no trimestre das casas com acesso aos benefícios.

Segundo o observatório, tanto o salto nas famílias sem auxílios sociais quanto a queda observada de dezembro pra janeiro nas famílias com auxílio exemplificam que os programas serviram para amenizar o impacto. “Neste período, o aumento das transferências nas políticas sociais ‘amorteceu’ o aumento da indigência estimada para dezembro”, diz o estudo.

Entre as suas primeiras 10 medidas econômicas, em que estava prevista a desvalorização da moeda, Milei incluiu um aumento de 100% na Asignación Universal por Hijo e 50% na Tarjeta Alimentar, como forma de amenizar o impacto do salto nos preços que se esperava ver nas próximas semanas.

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