Pressão migratória levou a Europa a votar na direita, diz candidato à presidência de Portugal
Em entrevista ao Estadão, o almirante Henrique Gouveia e Melo comenta a ascensão da extrema direita em Portugal e na Europa e sugere um caminho para lidar com e. Crédito: Daniel Gateno/Estadão
Afirmar que a União Europeia (UE) está em crise se tornou quase uma obviedade em 2025, já que o declínio e a instabilidade do bloco europeu podem ser vistos em diversas searas, sem precisar de lupa. Os europeus têm dificuldades econômicas, demográficas, geopolíticas e de segurança e estão espremidos entre China, Estados Unidos e Rússia, com cada vez menos poder. A receita para sair do lamaçal é incerta e demorada, apesar da necessidade de agir com pressa.
O bloco criado em novembro de 1993 após o Tratado de Maastricht enfrenta uma ameaça russa cada vez mais crescente e não conta mais com a consistência da parceria transatlântica com os Estados Unidos, que solidificou Bruxelas, para ajudar a Ucrânia. A lógica de um mundo mais pacífico, previsível e marcado pelo multilateralismo se tornou obsoleta e o poder bruto está em alta.
A dura realidade levanta uma dúvida crescente entre os europeus: como sobreviver em um mundo dominado por líderes como Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin?

“A União Europeia foi criada em um mundo em que se imaginava que teríamos a superação do sistema de Estados nacionais, com a política comercial de uma série de países sendo decidida em Bruxelas”, aponta Vinicius Rodrigues Vieira, professor de relações internacionais da FGV-SP. “O problema é que isso gera muito desacordo entre os países, muita demora na tomada de decisões”.
Para o analista, o bloco demonstra fragilidade e dependência em relação a Washington e Pequim e tem um sistema político marcado por divisões internas e burocracia. “A Europa precisa de inovação tecnológica, aumentar os gastos militares e captar mais imigrantes, já que o continente está envelhecido e precisa de novidade”.
Governo Trump
A necessidade de mudança dentro da União Europeia se tornou escancarada no primeiro mandato do presidente americano Donald Trump, que chegou a ameaçar a retirada de Washington da Otan e colocou os EUA em uma crise comercial com o bloco europeu. Trump disse que a UE havia sido criada para “tirar proveito dos EUA” e que considera a Europa um inimigo “pior que a China, só que menor”.
No primeiro ano do segundo mandato do republicano a relação continuou tensa, apesar das bajulações dos líderes europeus e do secretário da Otan, Mark Rutte. Trump exigiu que os países europeus pagassem mais pela própria defesa, contribuindo para que a nova meta da aliança militar chegasse a 5% do PIB. O governo Trump também negociou um acordo comercial com os europeus que é considerado uma capitulação para muitos analistas.

“A estratégia da UE nesse primeiro mandato de Trump foi de não provocá-lo e de tentar se reafirmar como um aliado”, aponta Carolina Pavese, doutora em relações internacionais pela London School of Economics, professora do Instituto Mauá de Tecnologia. “A UE se comportou de uma forma até humilhante em prol desse objetivo e não rendeu muitos frutos”.
A posição de Trump em relação aos europeus ficou evidente em uma entrevista do republicano ao site americano Político no começo de dezembro. Na entrevista, o presidente americano disse que alguns líderes do velho continente eram “verdadeiros estúpidos” e afirmou que, por conta da imigração, “muitos desses países deixarão de ser viáveis”.
A analista aponta que o bloco europeu deve se comportar de maneira mais assertiva em 2026. “A UE passou por muita instabilidade em 2025 porque é muito difícil prever as ações de Trump, tanto na agenda comercial, quanto na questão de segurança”.

Guerra na Ucrânia
O principal desafio em relação à segurança está relacionado à guerra na Ucrânia. Os europeus se preocupam com a possibilidade de Trump obrigar Kiev e aceitar um acordo de paz pró-Rússia e temem não ter nenhum protagonismo em decisões estratégicas que irão impactar o continente.
Um plano de paz formulado por oficiais de Washington e Moscou foi rechaçado por aliados europeus em novembro e os líderes da UE se apressaram a mover o pêndulo das negociações para termos mais favoráveis ao presidente ucraniano Volodmir Zelenski.
As conversas seguem em andamento e existem dúvidas sobre as garantias de segurança que os EUA podem oferecer a Kiev, além de divergências sobre a cessão de território. Independente do que acontecer, Bruxelas está se preparando para que a Europa banque os esforços de defesa da Ucrânia, que sofre com escassez de dinheiro e soldados.
A intenção dos europeus é mostrar a Moscou e Washington que eles conseguem financiar a Ucrânia e merecem um lugar de influência na mesa de negociação.

A ideia inicial era usar os cerca de US$ 245 bilhões em ativos russos congelados na Europa para financiar a Ucrânia. As estimativas são de que Kiev precisa de US$ 200 bilhões para se manter na luta pelos próximos dois anos.
Mas divisões internas dentro do continente fizeram o bloco se afastar da iniciativa. A maior parte desses ativos está em uma empresa belga e o governo da Bélgica teme retaliações de Moscou caso esse montante seja enviado a Kiev. O Banco Central Europeu (BCE) também expressou preocupação com o fato de a credibilidade da Europa e do próprio euro como um repositório seguro poder estar em risco.
A Rússia tenta inviabilizar a proposta nos tribunais. O Banco Central do país entrou um uma ação judicial em Moscou contra uma empresa belga que detém grande parte dos ativos russos.
A solução de Bruxelas foi fornecer um empréstimo de US$ 105 bilhões a Kiev para os próximos dois anos. O montante será repassado diretamente do orçamento da UE para a Ucrânia.
Segundo o professor de relações internacionais da FGV, Vinicius Rodrigues Vieira, a Europa precisa ser realista em relação à guerra na Ucrânia e deve focar em melhorar o seu próprio arsenal. “Talvez seja melhor para a Europa que Kiev ceda territórios e os europeus possam focar em se armar para uma eventual futura guerra com a Rússia”.

Defesa Europeia
O risco de uma guerra direta entre a Rússia e países da Europa aumenta a cada dia. Em junho, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse que a Rússia estaria preparada para uma guerra contra a Otan em cinco anos. Já o líder russo Vladimir Putin foi mais alarmista e afirmou em dezembro que, se a Europa quiser guerra, a Rússia está pronta.
De acordo com um relatório divulgado pela Comissão Europeia em outubro, o continente precisa “de uma postura de defesa suficientemente forte para dissuadir eficazmente os seus adversários, bem como para responder às agressões até 2030”. O documento aponta que Moscou “apresenta uma ameaça persistente à segurança europeia”.
Mas os comandantes da Otan temem que Moscou possa testar a aliança militar antes disso. Países como Polônia e Alemanha pretendem aumentar os gastos militares e o número de soldados, com novas formas de recrutamento obrigatório. O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, aponta que ele quer construir o “maior Exército convencional da Europa”.

No primeiro semestre, a Comissão Europeia lançou um programa chamado SAFE (Security Action for Europe), um fundo de € 150 bilhões (US$ 174 bilhões) que concede aos membros da UE empréstimos a juros baixos para investimentos em segurança. O objetivo é melhorar a capacidade da Europa e aumentar o poderio industrial do bloco europeu.
Além dessa iniciativa, a UE também permite que os países aumentem seu investimento em defesa sem violar as regras de déficit da UE por meio da Cláusula de Escape Nacional (NEC).
“O nosso setor de defesa é muito fragmentado e cada país compra armamentos de seus fornecedores nacionais. É preciso uma perspectiva europeia sobre isso para produzir mais, com mais orçamento”, avalia Hans-Dieter Holtzmann, diretor de projetos da Fundação Friedrich Naumann, instituição alemã de perfil liberal que promove cursos no campo da educação civil.
Apesar das iniciativas europeias, o apoio americano seguirá sendo essencial, mesmo que mais tímido. Segundo entrevistas de oficiais da Otan, capacidades militares essenciais como inteligência por satélite, defesa aérea, mísseis de longo alcance e comando e controle não devem ser repostas na Europa até 2030.

Desafios econômicos e burocracia
Além dos obstáculos na área de segurança, a UE também enfrenta desafios econômicos e de burocracia. O bloco europeu depende muito dos insumos chineses e precisa de mais investimentos em tecnologia de ponta e na transição energética para reduzir a dependência de Pequim e Washington.
“Existe uma perda de competitividade dos produtos europeus em relação aos produtos chineses no mercado internacional e doméstico e isso tem sido preocupante”, avalia Carolina Pavese, do Instituto Mauá de Tecnologia. De acordo com a analista, os europeus sentem mais o problema no setor automotivo e na área de tecnologia.
Para Holtzmann, da Fundação Friedrich Naumann, o atual modus operandi da União Europeia não condiz mais com o mundo atual. “O modelo do passado, em que os Estados Unidos garantiam a segurança da Europa, os chineses compravam nossos carros e a Rússia fornecia gás barato, obviamente não se aplica mais”.
Uma possibilidade de reduzir a dependência chinesa e americana é o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. Segundo Holtzmann, o acordo seria benéfico em diversas áreas, como o fortalecimento da democracia e do multilateralismo e um aumento do comércio no setor energético e de recursos naturais.
Mas o bloco tem dificuldade em desenvolver uma estratégia uniforme para os problemas que enfrenta. A França e a Itália se opõem ao acordo do jeito que está por alegar que faltam salvaguardas necessárias para o setor agrícola. A decisão de aprovar ou não o acordo deve ser decidida apenas em janeiro.
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Extrema direita
A dificuldade de avançar em bloco e a ineficiência de líderes centristas em resolver problemas domésticos como o alto custo de vida, uma crise habitacional e a questão migratória levaram muitos europeus a se voltarem a políticos de extrema direita, que tem uma posição mais eurocética e desejam que os países tenham mais autonomia na tomada de decisões.
A insatisfação dos eleitores pode modificar completamente a UE nos próximos anos. Na França e Alemanha, os partidos de extrema direita lideram as pesquisas. Emmanuel Macron encerra seu mandato em maio de 2027 e o chanceler alemão Friedrich Merz pode sair do poder no ano que vem, já que ele ainda não conseguiu entregar as reformas e a desburocratização que prometeu.

Um bloco europeu tomado pela extrema direita tiraria muitas decisões de Bruxelas e agradaria Trump, que acusou os europeus de subverterem a democracia e promover o “apagamento da civilização” em seu documento de estratégia de segurança nacional. No relatório, o governo Trump aponta que Washington irá “cultivar a resistência” na Europa, trabalhando com partidos de extrema direita de todo o continente, como o Reagrupamento Nacional, na França, o Alternativa para a Alemanha (AfD), e o Reform UK, no Reino Unido.
“A União Europeia não iria acabar com a extrema direita no poder, mas poderia se desidratar e ficar mais fechada”, avalia Rodrigues Vieira. “Mais poderes seriam atribuídos aos Estados nacionais para conter a imigração, mas a questão de segurança e comércio poderiam unir os países, já que a extrema direita europeia não é protecionista como a base de Trump”.






