Região vive momento de transição

Segundo analistas, acontecimentos das últimas semanas são cruciais para questão palestina e ascensão do Irã

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Por Gustavo Chacra e BEIRUTE
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Em menos de dez dias, cinco episódios determinaram as diretrizes do Oriente Médio para os próximos meses, quando dois temas devem dominar a agenda da região: a criação de um Estado palestino e o que Israel e regimes árabes descrevem como a "ameaça iraniana". O processo começou com o esperado discurso do presidente dos EUA, Barack Obama, para o mundo islâmico, dia 4, no Cairo. E culminou com o premiê de Israel, Binyamin Bibi Netanyahu, delineando seu "plano de paz". No meio do caminho, libaneses elegeram uma coalizão pró-EUA, Mahmoud Ahmadinejad conseguiu se manter no poder em Teerã e os americanos abriram o diálogo direto com a Síria. "Em mais de 40 anos de vida, nunca presenciei um momento em que um presidente dos EUA tenha estendido a mão desta forma para todo o Oriente Médio - para israelenses, palestinos e árabes. E acredito que, nos 40 anos que devo ter pela frente, não presenciarei uma ação amistosa como esta novamente", escreveu Hady Amr, diretor da Brookings Institution no Catar, ecoando análises similares de especialistas ao redor do Oriente Médio que veem uma janela única para a paz que não pode ser desperdiçada. Segundo disse ao Estado Wayne White, ex-diretor de Inteligência para o Oriente Médio do Departamento de Estado dos EUA, se Obama conseguir mesmo "alterar o comportamento do Irã por meio de suas iniciativas diplomáticas, a chance para a paz cresceria porque os iranianos exercem influência sobre o Hamas e o Hezbollah". Além de seu pronunciamento, dois dos outros acontecimentos no Oriente Médio podem ser considerados favoráveis a Obama. A eleição libanesa e a retomada do diálogo com a Síria. "Os resultados da votação no Líbano foram uma excelente notícia para Obama, que temia um golpe logo depois de seu discurso no Cairo", afirmou na semana passada Paul Salem, do Carnegie Endowment for Peace, em palestra em Beirute. Com o regime do presidente sírio, Bashar Assad, conforme relata a jornalista Helena Cobban, autora de dois livros sobre a Síria, o avanço se deu mais na questão iraquiana. Segunda a escritora, o líder sírio diverge do Irã sobre o futuro do Iraque, com uma posição mais próxima dos americanos. "Damasco quer ver um Iraque árabe e secular, enquanto Teerã defende um país semelhante ao seu Estado islâmico xiita, mais fechado e não tão integrado com o restante do mundo árabe", afirmou. EQUILÍBRIO "Peça-chave" para a paz, de acordo com descrição de George Mitchell, enviado de Obama ao Oriente Médio, feita depois de encontro com Assad no sábado, a Síria tenta se equilibrar entre as principais forças regionais. Busca acabar com o isolamento no mundo árabe e no Ocidente e negociar a paz com Israel, sem deixar de lado a suas antigas alianças com o Irã, Hamas e Hezbollah. Em entrevista para a revista a revista Foreign Policy, o chanceler sírio, Walid Moallem, questionou o "por quê de os EUA insistirem em tentar mobilizar uma coalizão árabe-israelense contra o Irã? ". De uma certa forma, a Síria posiciona-se no centro de um velho ditado israelense, segundo o qual "não há guerra envolvendo países árabes e Israel se houver paz com o Egito. Mas não haverá estabilidade na região se não tivermos paz com a Síria". Sem os sírios, os israelenses enfrentaram o Hamas e o Hezbollah, aliados de Damasco. Mas há ainda o risco de confronto com o Irã, que não é árabe. Dessa forma, Damasco busca conquistar seu espaço na solução das questões palestina e iraniana e, como brinde, ainda ajuda na estabilidade do Iraque. O preço a ser pago pela paz, como dizem em Beirute, são as Colinas do Golan e maior influência no Líbano. FRASES Hady Amr Brookings Institution "Em mais de 40 anos de vida, nunca presenciei um momento em que um presidente dos EUA tenha estendido a mão desta forma. E acredito que não verei uma ação assim novamente" Helena Cobban Jornalista "A Síria quer um Iraque árabe. O Irã, uma República Islâmica xiita"

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