Uma compreensão visual e analítica do que está acontecendo no mundo

Uma compreensão visual e analítica do que está acontecendo no mundo

Como as tarifas expõem as contradições mais profundas de Donald Trump

Trump associa o passado grandioso dos EUA a William McKinley, mas grande parte da concepção de Trump sobre esse período é grosseiramente equivocada

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Foto do autor Rodrigo da Silva
Atualização:

Trump coloca tarifas de 50% sobre parte dos produtos brasileiros. E agora?

Ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral analisa impacto do tarifaço de Trump.

Make America Great Again é certamente o slogan político mais conhecido da nossa geração. Quando Donald Trump ecoa essas palavras, não abraça uma nostalgia genérica de um passado de glória inventado. Trump é muito específico sobre qual período histórico gostaria de devolver os Estados Unidos. Mais do que isso: associa esse passado grandioso a um nome – o de William McKinley.

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McKinley foi o 25º presidente americano e governou os Estados Unidos de 1897 a 1901. Ele foi o único presidente citado nominalmente como uma inspiração no discurso de posse do segundo mandato de Trump, em janeiro:

“Os Estados Unidos irão recuperar o seu lugar de direito como a nação mais grandiosa, mais poderosa e mais respeitada da Terra, inspirando o temor e a admiração do mundo inteiro. Em pouco tempo, vamos mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América. E vamos restaurar o nome do grande presidente William McKinley ao Monte McKinley, onde ele deveria estar e onde pertence. O presidente McKinley tornou o nosso país muito rico por meio de tarifas e de talento. Ele era um empresário nato e deu a Teddy Roosevelt o dinheiro para muitas das grandes coisas que ele fez”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia uma série de tarifas americanas em Washington, Estados Unidos Foto: Brendan Smialowski/AFP

No mesmo discurso, Trump anunciou que “a era de ouro da América” estava começando. McKinley foi um dos últimos artífices de um período histórico americano conhecido como “Gilded Age” – a Era Dourada, termo cunhado por Mark Twain no romance The Gilded Age: A Tale of Today como uma crítica à corrupção e hipocrisia da época (“gilded” significa folheado a ouro – algo que brilha por fora, mas esconde rachaduras profundas por dentro).

Trump nunca escondeu o fascínio pelo período.

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“O nosso país foi o mais rico de todos os tempos de 1870 a 1913. Foi nessa época que fomos realmente os mais ricos e um país com tarifas plenas”, disse em fevereiro.

Ele reforçou o ponto dias depois:

“A palavra ‘tarifa’ é a minha palavra favorita no dicionário. Sabe, nós fomos os mais ricos, os mais ricos, relativamente, de, pense nisso, de 1870 a 1913. Esse foi o nosso período mais rico porque cobramos tarifas de países estrangeiros que vieram e nos roubaram os empregos, o dinheiro, tudo o que tínhamos, mas eles cobraram tarifas.”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, em Kananaskis, Canadá Foto: Brendan Smialowski/AFP

“Fomos mais ricos de 1870 a 1913. Foi quando éramos um país com tarifas. E então eles adotaram o imposto de renda.”

Grande parte da concepção de Trump sobre esse período é grosseiramente equivocada. A começar que os Estados Unidos não atingiram o seu pico de riqueza na Era Dourada. Na verdade, em 2025, os americanos são 6 vezes mais ricos, em paridade de poder de compra, que em 1913.

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É verdade que, durante o período, os Estados Unidos experimentaram um crescimento acentuado. A riqueza americana mais que dobrou nesses 43 anos.

Nesse tempo, impérios foram forjados por grandes capitalistas e bilhões de dólares trocaram de mãos. Mas enquanto magnatas como Rockefeller, Carnegie, Vanderbilt e Morgan acumulavam fortunas, a maioria dos americanos vivia em cortiços, trabalhando 12 horas por dia, seis dias da semana, convivendo com a tuberculose, a cólera e a febre tifoide, sob a recompensa de um salário frequentemente insuficiente para sustentar uma família.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarca em Allentown, Pensilvânia Foto: Anna Moneymaker/AFP

A produção industrial e o PIB dispararam. A infraestrutura urbana se expandiu. Mas para muitos trabalhadores das grandes cidades, os padrões de vida despencaram.

Em 1890, o então congressista William McKinley liderou a aprovação da Tarifa McKinley no parlamento americano. A legislação aumentou o imposto médio sobre as importações para quase 50%, com a justificativa de proteger as indústrias da concorrência estrangeira.

Trump defende que, por causa da política tarifária do período, os Estados Unidos tinham “tanto dinheiro” que “não sabíamos o que fazer”.

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Mas a verdade é que, na Era Dourada, o milagre econômico aconteceu apesar das tarifas, e não por causa delas. A maior parte do crescimento econômico pós-1870 foi extensivo – ou seja, impulsionado pelo aumento da população e a expansão do capital, e não por um crescimento expressivo da produtividade industrial. Na verdade, o crescimento da produtividade americana no período foi modesto em comparação a outros países.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com jornalistas em Allentown, Pensilvânia  Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP

Crescimento

Os Estados Unidos cresceram rápido na Era Dourada porque ficaram maiores (com mais trabalhadores e mais investimento), não necessariamente porque ficaram mais eficientes em decorrência da proteção das tarifas.

E crescimento da população, nesse contexto, tem um nome quase proibido para Trump: imigração.

A Era Dourada testemunhou uma das maiores ondas migratórias da história da humanidade. Entre 1870 e 1914, os Estados Unidos receberam algo próximo de 25 milhões de imigrantes. No período, o país absorveu 61,6% dos fluxos migratórios no mundo.

Os Estados Unidos saíram de 39 milhões de habitantes, em 1870, para 94 milhões, em 1913.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega a Casa Branca no dia 3 de agosto Foto: Mandel Ngan/AFP

Esses novos imigrantes eram predominantemente jovens, pobres e com pouca ou nenhuma escolarização formal – como hoje, parte de uma rede familiar que os auxiliavam com passagens, alojamento e emprego. Muitos migravam acreditando que as ruas da América eram pavimentadas com ouro.

Quando finalmente alcançavam o país, a maioria se aglomerava em bairros étnicos, em cortiços mal ventilados, lotados e insalubres, muitas vezes preenchidos com até dez moradores por cômodo.

A chegada de tantos imigrantes provocou um sentimento generalizado anti-imigração. Esses novos habitantes passaram a ser acusados de roubar empregos, trazer doenças e corromper os valores americanos. Também foram associados à violência.

Como narra um relatório do governo americano publicado em 1931:

“A teoria de que a imigração é responsável pelo crime, que a mais recente ‘onda de imigração’, qualquer que seja a nacionalidade, é menos desejável do que as antigas, que todos os recém-chegados devem ser encarados com uma atitude de suspeita, é uma teoria quase tão antiga quanto as colônias plantadas pelos ingleses na costa da Nova Inglaterra.”

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Não se engane: esses imigrantes foram a espinha dorsal do crescimento urbano e industrial da Era Dourada. Os Estados Unidos estavam no ápice da sua transformação de uma economia agrária para uma potência industrial, em busca de mão de obra resiliente, barata e em abundância. Foi o casamento perfeito.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com jornalistas no Air Force One Foto: Jacquelyn Martin/AP

Em 1900, quase a metade dos trabalhadores industriais de cidades como Nova York e Chicago eram estrangeiros. Eslavos, italianos e poloneses, irlandeses, judeus e chineses dominavam a siderurgia, a indústria têxtil, a construção civil e a mineração.

Na Era Dourada, foi o volume de trabalho imigrante que permitiu aos Estados Unidos produzir mais, mais barato e mais rápido que os seus concorrentes europeus.

É verdade que nem todos eram trabalhadores braçais. Muitos trouxeram conhecimento técnico e espírito empreendedor.

Foi o caso do imigrante sérvio Nikola Tesla – fonte de inspiração do imigrante sul-africano Elon Musk. Tesla migrou para os Estados Unidos em 1884, aos 28 anos.

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Também foi o caso do imigrante russo Irving Berlin, autor de “God Bless America”, canção celebrada nos comícios de Donald Trump. O compositor migrou para os Estados Unidos em 1893.

E isso para não falar dos filhos dos imigrantes que alcançaram os Estados Unidos no período – figuras que revolucionariam a cultura americana, como Walt Disney, Ralph Lauren, Estée Lauder e George Gershwin.

Nessa leva de imigrantes da Era Dourada também estava um certo Friedrich Trump, nascido no Reino da Baviera. Friedrich chegou aos Estados Unidos em 1885, aos 16 anos, onde virou Frederick. Ele enriqueceu na corrida do ouro (não só com o ouro, mas com um bordel que montou para os mineiros) e investiu a fortuna em imóveis no Queens, em Nova York.

Frederick teve três filhos com a imigrante bávara Elizabeth Trump – fundadora, junto com o filho, Fred, da empresa de desenvolvimento imobiliário Elizabeth Trump & Son – hoje chamada The Trump Organization, administrada pelo neto, Donald, e os bisnetos. Donald é fruto do casamento de Fred com a imigrante escocesa Mary Anne Trump. Ironicamente, a sua própria empresa foi fundada por uma imigrante. E foi essa imigração que fez a América grande – não as tarifas.

Como revela esse estudo, a partir de um exame dos impostos de importação por setor industrial, tarifas mais altas estavam associadas a uma menor produtividade na indústria americana da Era Dourada. Setores com maior proteção tarifária eram menos eficientes, e não o contrário.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com jornalistas antes de embarcar no Marine One, em Washington Foto: Jacquelyn Martin/AP

Há um consenso entre economistas que se os Estados Unidos tivessem tarifas menores no período, o país teria crescido tanto ou mais do que cresceu. Nesse tempo, o comércio exterior era uma parte relativamente pequena do PIB americano – e por isso, tarifas nunca explicariam o crescimento acentuado do período. Além disso, a grande transformação industrial dos Estados Unidos já estava em curso antes da Era Dourada.

Longe de “tornar a América grande”, a Tarifa McKinley contribuiu para uma desaceleração da economia. Por esse motivo, os republicanos perderam 93 cadeiras na Câmara, nas eleições de 1890 – uma das maiores derrotas da história legislativa dos Estados Unidos. O próprio McKinley perdeu o seu assento.

Em 1892, os republicanos também perderiam a eleição presidencial para os democratas. E no ano seguinte, os Estados Unidos enfrentariam a pior depressão econômica da sua história até aquele momento.

Em setembro de 1901, o próprio William McKinley advogaria contra a política de proteção tarifária, num discurso público no estado de Nova York:

“A era das barreiras comerciais ficou para trás. Expandir o nosso comércio e as nossas trocas internacionais é o desafio mais urgente. Guerras comerciais não são lucrativas.”

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McKinley foi assassinado pelo anarquista Leon Czolgosz no dia seguinte ao discurso – o terceiro e penúltimo presidente americano assassinado no cargo.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acena antes de embarcar no Air Force One  Foto: Brendan Smialowski/AFP

Trump está certo em uma coisa: a economia americana cresceu de forma acentuada na Era Dourada. Mas não pelas razões que ele acredita. Cresceu, em grande medida, porque atraiu milhões de imigrantes, de diferentes partes do mundo – incluindo os seus próprios ancestrais – que viabilizaram um crescimento econômico sem precedentes.

Por isso, quando promete tornar os Estados Unidos grande novamente, olhando para esse período, Trump revela as contradições mais profundas da sua visão sobre o país. Se almeja recriar a América da Era Dourada, o presidente americano deveria reconhecer que a verdadeira grandeza dos Estados Unidos não veio do isolamento e do protecionismo – veio da abertura e da diversidade.

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Opinião por Rodrigo da Silva

É jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.