O que esperar da guerra na Ucrânia em 2026? Veja o vídeo
Conversas sobre um possível acordo de paz estão em andamento, mas a UE busca maneiras de enviar ajuda militar e econômica para Kiev em 2026. Crédito: Gabriella Lodi
Gerando resumo
Enquanto famílias passeavam por um calçadão na cidade portuária ucraniana de Odessa recentemente, um navio cargueiro solitário navegava ao longe. De repente, um drone caiu do céu azul e atingiu a embarcação, lançando uma nuvem de fumaça no horizonte.
O ataque, que testemunhei no final de julho, fez parte de uma campanha russa contra navios de carga que paralisou quase toda a navegação de entrada e saída de Odessa, o elo mais crucial da Ucrânia com a economia mundial.
A campanha russa na Ucrânia, um dos principais produtores de grãos como trigo, milho e cevada, que ocorre no início da temporada de colheita, pode desestabilizar as cadeias globais de abastecimento alimentar. Em 2022, durante os primeiros meses da guerra em grande escala, a Rússia impôs um bloqueio aos portos ucranianos, causando um aumento acentuado nos preços globais dos alimentos e colocando cerca de 70 milhões de pessoas em maior risco de insegurança alimentar aguda.

“A Rússia está à caça dessas embarcações”, disse Dmytro Barinov, presidente da Associação de Portos da Ucrânia, em entrevista. “É uma caçada profissional a embarcações civis.”
Os ataques russos representam o capítulo mais recente de uma longa batalha pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov adjacente. Novas armas que permitem atingir alvos com precisão a grandes distâncias tornaram os navios de carga, de movimento lento, alvos fáceis. Em junho e julho, as forças russas atacaram pelo menos 50 navios de carga, segundo autoridades ucranianas, matando mais de 30 civis.
A Ucrânia também tem atacado sistematicamente petroleiros e navios de carga ligados à Rússia. A campanha marítima de Moscou parece ser uma resposta à dizimação, por parte da Ucrânia, da frota russa de petroleiros fluviais e marítimos no Mar de Azov e aos contínuos ataques de Kiev a navios que transportam mercadorias russas, o que deixou a Crimeia ocupada isolada e com escassez de combustível.
O mais recente grande ataque da Ucrânia ocorreu antes do amanhecer de quarta-feira, quando as forças do país atacaram o porto russo de Novorossiysk, no Mar Negro, com drones a jato, mísseis e sistemas navais não tripulados, afirmou o presidente Volodmir Zelenski. Posições de defesa aérea, cais e infraestrutura portuária foram atingidos, disse ele.
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Três pessoas morreram, incluindo uma criança de 8 anos, e cerca de 60 prédios residenciais foram danificados, informou Veniamin Kondratyev, governador da região de Krasnodar, que inclui Novorossiysk, nas redes sociais. Andrei Kravchenko, prefeito da cidade, importante centro de exportação de grãos, declarou estado de emergência. Ele afirmou que o abastecimento de água da cidade foi interrompido após o rompimento de duas tubulações principais.
A escalada do conflito entre a Rússia e a Ucrânia é um ponto crítico em um fenômeno global mais amplo que ameaça um dos princípios fundamentais da ordem internacional: a liberdade de navegação.
Esse sistema marítimo, que sustenta o comércio global moderno, está sob pressão, uma vez que atores estatais e não estatais utilizam cada vez mais drones, mísseis antinavio e minas para interromper rotas, particularmente em locais como o Mar Vermelho e o Estreito de Ormuz. O estreito, uma importante via de escoamento para petróleo e gás, está efetivamente fechado desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro.
No porto de Odessa e em outros dois portos próximos, o bloqueio russo pode reter milhões de toneladas de grãos. Os três portos representam cerca de 60% da receita total mensal de exportação da Ucrânia, que é de US$ 3,5 bilhões. O Conselho Agrícola Ucraniano, uma associação comercial, alertou para uma possível onda de falências e solicitou empréstimos emergenciais e garantias estatais.

A situação lembra o bloqueio russo aos portos ucranianos em 2022. Em julho daquele ano, as Nações Unidas e a Turquia intermediaram a Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que permitiu a retomada da navegação. O acordo fracassou um ano depois. Mas, a essa altura, a Ucrânia já havia expulsado os navios de guerra russos da parte noroeste do Mar Negro e estava em grande parte apta a continuar navegando.
Com a intensificação dos ataques russos nas últimas semanas, entre as dezenas de navios atingidos estava um cargueiro chamado Golden Leo.
Blesson Sebastian, um segundo oficial de 28 anos a bordo do Golden Leo, cresceu em Chennai, na Índia, sonhando com o mar, contou. Ele já havia estado na Ucrânia diversas vezes nos últimos oito meses, mas quando seu navio chegou no mês passado, disse que o ritmo dos ataques russos era muito mais intenso do que qualquer coisa que ele tivesse presenciado em viagens anteriores.
A tripulação evitou o porto principal de Odessa, atracando na vizinha Chornomorsk. O porto não ofereceu nenhum refúgio. Um navio vizinho foi bombardeado por drones, matando um oficial e um guarda de segurança, disse Sebastian. A tripulação do Golden Leo dormia em bunkers de aço.
No dia 19 de julho, o navio estava totalmente carregado de grãos e partiu. Sebastian disse ter visto famílias aproveitando uma tarde tranquila na praia enquanto o barco se afastava. Ele disse aos tripulantes mais jovens e nervosos que tudo ficaria bem.
Às 16h30, o capitão sírio do navio foi para sua cabine rezar, enquanto Sebastian ficou sentado na ponte lendo a Bíblia.

Assim que o barco estava a quatro milhas do porto, disse Sebastian, um alarme aéreo soou.
Volodmir Mykhailov, um ucraniano que estava a bordo para pilotar o barco para fora do porto, aconselhou a deixar a ponte de comando porque os drones russos costumam ter como alvo o convés de navegação, disse Sebastian.
Enquanto Mykhailov e Sebastian desciam as escadas, um míssil russo atingiu o casco do navio.
“Choveu fogo”, Sebastian me contou em uma entrevista perto do porto. “É isso”, ele se lembrou de ter pensado. “É o fim.”
Mykhailov foi arremessado contra Sebastian, e ambos caíram no chão. Ensurdecido pela explosão, Sebastian sacudiu Mykhailov, mas ele não reagiu. Morreu nos braços de Sebastian.
Cambaleando entre os destroços de aço, Sebastian encontrou o capitão gravemente queimado e o contramestre inconsciente. Uma fumaça densa saía da casa de máquinas. Os poucos sobreviventes se amontoaram em um pequeno barco que deveria levar Mykhailov de volta ao porto após suas funções de piloto.
Enquanto os sobreviventes escapavam, eles observaram o Golden Leo queimar “como uma fornalha”, disse Sebastian.

Nove tripulantes e Mykhailov morreram no ataque. O barco afundou uma semana depois.
Elisabeth Braw, especialista em ameaças marítimas que trabalha no Atlantic Council, um centro de estudos, afirmou que a Rússia está conduzindo uma campanha sistemática e indiscriminada contra navios mercantes que transportam produtos agrícolas e outras cargas não militares que entram e saem de portos ucranianos.
Ela afirmou que tais ataques violam tratados como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Embora os petroleiros e navios de carga ligados à Rússia que a Ucrânia tem como alvo sejam tecnicamente embarcações civis, especialistas marítimos afirmam que Kiev os ataca porque são usados para burlar as sanções e exportar energia que financia o esforço de guerra do Kremlin.
Nações ocidentais já interceptaram, em algumas ocasiões, esses navios, que fazem parte da chamada frota paralela da Rússia. Na quarta-feira, durante uma visita a bordo de um navio de guerra russo no Pacífico, o presidente Vladimir Putin classificou essas ações como “pirataria e roubo” e prometeu “responder na mesma moeda”.




