PUBLICIDADE

Opinião|Vamos todos respirar fundo antes de falar da China

Ansiedade em relação a Pequim leva políticos americanos a reproduzir exclusão do sistema autoritário que procuram combater

PUBLICIDADE

Por Rory Truex (The New York Times)

A amígdala é um par de aglomerados neurais próximos à base do cérebro que avalia o perigo e pode ajudar a desencadear uma reação do tipo lutar ou fugir. Uma resposta prolongada ao estresse pode contribuir para a ansiedade, o que pode fazer com que as pessoas percebam perigo onde não existe nenhum e fiquem obcecadas com os piores cenários possíveis.

PUBLICIDADE

O órgão coletivo nacional dos Estados Unidos está sofrendo de um caso crônico de ansiedade em relação à China. Quase tudo que traz a palavra “chinês” a reboque desencadeia agora uma resposta de medo no nosso sistema político, confundindo a nossa capacidade de avaliar e contextualizar adequadamente as ameaças. Isto levou o governo dos EUA e os políticos americanos a seguirem políticas baseadas na repressão e na exclusão, espelhando o sistema autoritário que procuram combater.

O Congresso decidiu forçar a venda do TikTok, o aplicativo de rede social de propriedade chinesa; alguns estados buscaram restringir a posse de terras por indivíduos ou entidades chinesas nos EUA e o trabalho de pesquisadores chineses ligados a universidades americanas; e o governo federal proibiu certas empresas tecnológicas chinesas de concorrer nos mercados americanos. Todas estas medidas têm uma lógica de segurança nacional e não é minha intenção aqui pesar os méritos de cada uma delas. Mas, coletivamente, elas estão produzindo um país fundamentalmente mais fechado – e mais parecido com a China em aspectos significativos.

Apoiadores exibem bandeiras da China durante visita de Xi Jinping na Hungria, 8 de maio de 2024.  Foto: Attila Kisbenedek/AFP

Quando você está constantemente ansioso, nenhuma ameaça é pequena demais. Em janeiro, Rick Scott, senador da Flórida, apresentou uma proposta de lei que proibiria as importações de alho chinês, que ele sugeriu como sendo uma possível ameaça à segurança nacional dos EUA, citando relatos de que o alho é fertilizado com esgoto humano. Em 2017, cientistas da Universidade McGill escreveram que não há provas de que este seja o caso. Mesmo que assim fosse, é prática comum utilizar resíduos humanos, conhecidos como “biossólidos”, como fertilizante em muitos países, incluindo os EUA.

Mais recentemente, o senador Tom Cotton e a deputada Elise Stefanik apresentaram propostas proibindo o Departamento de Defesa de contratar a Tutor.com, uma empresa de tutoria sediada nos EUA, alegando que ela representa uma ameaça à segurança nacional porque foi comprada pelo Primavera Capital Group, uma firma de investimento com sede em Hong Kong. O argumento deles é que isso poderia dar ao governo chinês acesso secreto às sessões de tutoria e às informações pessoais dos militares americanos que utilizam os serviços da empresa.

A proposta de lei não menciona que os dados dos alunos do Tutor.com são armazenados nos EUA, que a empresa se ofereceu para uma análise de segurança pela Comissão Federal de Investimento Estrangeiro nos EUA e que criou níveis adicionais de proteção de segurança de dados em coordenação com o governo americano. O projeto de lei também não especifica como exatamente o governo chinês obteria acesso aos dados do Tutor.com ou que utilidade ele realmente teria para informações a respeito das sessões de tutoria dos militares dos EUA.

No verão passado, vários legisladores republicanos reclamaram do filme “Barbie” porque um mapa-múndi mostrado brevemente no fundo de uma cena incluía uma linha tracejada. Eles interpretaram isto como uma referência à “linha de nove tracejados” da China, que Pequim utiliza para reforçar as suas disputadas reivindicações territoriais no Mar do Sul da China. De acordo com o representante Jim Banks, isto está “colocando em risco a nossa segurança nacional”. O mapa do filme é claramente fantástico, tinha apenas oito traços e não tinha nenhuma semelhança com a linha da China. Até o governo filipino, que há anos está envolvido em disputas territoriais com a China no Mar do Sul da China, rejeitou a controvérsia e aprovou o lançamento nacional do filme.

Publicidade

É claro que os EUA deveriam confrontar ativamente o presidente Xi Jinping, da China, a respeito da sua repressão interna e da agressão no exterior. Como estudioso do sistema político da China, preocupo-me com a forma como Xi tornou o seu país ainda mais autoritário; com o aumento dos abusos dos direitos humanos na China, especialmente aqueles dirigidos à população uigur em Xinjiang; com a repressão de Pequim a Hong Kong, as suas ameaças a Taiwan, a sua relação cada vez mais estreita com a Rússia e o seu apoio à guerra na Ucrânia. Os EUA devem permanecer alertas às preocupações legítimas a respeito das atividades chinesas bem documentadas, como espionagem e ataques cibernéticos.

Mas será que os nossos tomadores de decisões na política deveriam realmente concentrar-se no Tutor.com, no alho chinês ou na “Barbie”? Ou deveriam concentrar-se nas ameaças mais sérias colocadas pelo sistema autoritário da China, ou nas muitas outras questões que afetam significativamente a vida quotidiana dos americanos?

Talvez o efeito mais preocupante seja o fato de a ansiedade em relação à China estar lentamente se aproximando da discriminação contra os sino-americanos, um novo “perigo amarelo”. Já vimos como uma iniciativa do governo Trump contra a espionagem chinesa levou a um escrutínio injusto de investigadores chineses e até de funcionários orientais do governo, levando ao encerramento do programa em 2022. E vimos como a xenofobia durante a pandemia desencadeou ameaças e ataques contra americanos orientais. Também houve numerosos relatos de agentes do policiamento interrogando estudantes e investigadores chineses que viajavam de e para a China, alegando que poderiam ser agentes do governo chinês. Mais uma vez, este tratamento – ser levado para interrogatório pela polícia ou por funcionários do governo – é algo que os acadêmicos estrangeiros vivenciam na China, onde a prática é conhecida pelo eufemismo “receber um convite para tomar chá”.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

No ano passado, os deputados estaduais do Texas propuseram um projeto de lei que inicialmente procurava impedir que cidadãos e entidades chineses (bem como iranianos, norte-coreanos e russos) comprassem terrenos, casas ou outros imóveis, citando preocupações com a segurança do abastecimento alimentar. Deixando de lado o fato de que os cidadãos chineses não são o governo chinês, a quantidade real de terras agrícolas americanas pertencentes a entidades chinesas é insignificante – nunca excedendo 1% das terras agrícolas em qualquer estado americano em 2021. O projeto acabou fracassando, mas somente depois de substancial resistência da comunidade sino-americana.

Este pânico em relação à China, também provocado pelos meios de comunicação social liberais e conservadores dos EUA, pode estar influenciando a forma como as pessoas comuns encaram os seus concidadãos americanos de origem chinesa. Michael Cerny, um colega pesquisador da China, e eu entrevistamos recentemente mais de 2.500 americanos a respeito da questão de saber se os sino-americanos que nasceram nos EUA deveriam ser autorizados a servir na comunidade de inteligência do país. Aproximadamente 27% disseram que o acesso dos sino-americanos a informações confidenciais deveria ser mais limitado do que o de outros cidadãos dos EUA, e 14% disseram que não deveria ser permitido qualquer tipo de acesso.

Presidente chinês Xi Jinping fala com secretário de Estado americano Antony Blinken.  Foto: Mark Schiefelbein/Associated Press

Isto é racismo evidente e, embora não seja a opinião da maioria, é preocupante que tantos americanos estejam confundindo a linha entre o governo chinês e as pessoas de etnia chinesa, espelhando a linguagem dos nossos políticos.

A China é um rival geopolítico formidável. Mas não existe nenhum mundo em que o alho, a “Barbie” ou um site de aulas particulares representem ameaças significativas à segurança nacional americana. Rotulá-los como tal revela uma certa falta de seriedade no nosso discurso político.

Publicidade

Se os EUA quiserem competir adequadamente com a China, será necessária uma formulação de políticas saudáveis e equilibradas que protejam a segurança nacional dos EUA sem comprometer os valores americanos fundamentais.

Vamos respirar fundo./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Opinião por Rory Truex

Rory Truex (@rorytruex) é professor assistente de política e assuntos internacionais da Universidade Princeton, onde leciona sobre a política chinesa e os regimes autoritários.

Tudo Sobre
Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.