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Modern Love: O preço do sonho americano? Nossos momentos mais íntimos

O contato físico era quase impossível para um taxista de Bangladesh e a esposa, que sentiam falta um do outro

Por Abdullah Zahid

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE — Certas manhãs são excepcionalmente lindas, sem motivo aparente. Muitos anos atrás, um ano e meio depois de minha esposa e eu nos mudarmos de Dhaka, Bangladesh, para Nova York, meu coração estava leve. O sol tinha nascido brilhante, dissipando a escuridão que nublara o céu por dias. Talvez fosse por isso que eu estava me sentindo bem.

Da cama, espiei pela janela do nosso apartamento no Queens as árvores do Captain Tilly Park e notei um pássaro empoleirado no galho, com as penas agitadas pelo vento. Depois de alguns instantes, ele voou para longe.

Embora acordar cedo seja um hábito meu, naquela manhã tive vontade de ficar mais um pouco na cama. Minha esposa, Fancy, se levantou, provavelmente para ir ao banheiro. Desde nosso casamento, quando estávamos juntos na cama, havia uma conexão invisível entre nós, mesmo que não nos tocássemos. Quando um de nós saía da cama, o outro percebia.

Contra a minha vontade, eu levantava cedo, dava um beijo rápido na bochecha de Fancy e ia ao banheiro. Dez minutos depois, já estava pronto para sair e pegar o táxi amarelo com meu parceiro do turno da noite Foto: SeanPavonePhoto/Adobe Stock

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Fancy voltou para seu lugar, muito lentamente, como um gato. Quando ela ia ao banheiro, não costumava demorar tanto, mas naquele dia ela devia estar fazendo suas orações matinais.

Com ela mais uma vez ao meu lado, virei para ela, peguei sua mão e disse: “Oh! Você está gelada!”. Com o rosto enterrado no meu peito, ela disse: “Oh! Você está tão quentinho”.

Agarrei-a pela cintura com as duas mãos e ela ficou excitada, sua transformação foi instantânea. Eu já tinha visto aquilo. Eu queria aproveitar a oportunidade. Nada planejado. Mas Fancy quis se afastar. “Não, não, agora não”, disse ela. “Já estamos atrasados. Você precisa ir”.

Eu tinha que pegar o táxi. Dirigia um táxi três dias por semana. Nos outros dias, tinha aulas no Queens College. Naquela tarde, haveria uma reunião de grupo para um projeto, então precisava passar umas horas na universidade.

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Fancy ganhou uma vaga na loteria de vistos de diversidade, e foi assim que viemos para os Estados Unidos. Mas não conseguíamos esquecer Dhaka. Sentíamos muita falta. Na América, sonhávamos que, assim que eu terminasse os estudos, encontraria um bom emprego. Trabalharia duro por uns anos, economizaria dinheiro. Depois voltaríamos para Dhaka, compraríamos um pequeno apartamento e talvez começássemos um negócio. Quem sabe?

Minha terra natal é Mymensingh, um distrito central de Bangladesh. Depois de concluir o mestrado na Universidade de Dhaka, consegui um emprego de nível médio numa empresa farmacêutica. Fancy era filha do vizinho, com um rosto encantador em tons de marrom.

Quando voltava para a casa da minha família, muitas vezes via Fancy na rua, de uniforme, esperando um riquixá para ir à escola. Tempos depois, quando fui visitar minha casa, de repente vi que ela tinha trocado de roupa e agora usava um salwar-kameez branco e um lenço vermelho.

Dava para presumir que ela tinha acabado a escola e ido para uma faculdade onde a roupa branca era o uniforme. Quando ela tinha crescido daquele jeito? Nunca havia olhado para ela com pensamentos especiais. Mesmo assim, eu, o filho mais velho da casa, casei-me com ela por vontade de minha mãe. Foi um casamento arranjado. Nós dois tínhamos vinte e poucos anos. Para Fancy e para mim, não havia amor antes do casamento.

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Na nossa lua de mel, fomos para Bazar de Cox, cidade litorânea na costa sudeste de Bangladesh. Meu amigo trabalhava lá como oficial do departamento de pesca. Eles organizaram tudo para ficarmos no quarto VIP da pousada do departamento. Junto ao quarto havia uma pequena varanda de onde dava para ver o mar.

Impossível imaginar um lugar tão lindo, tão livre de problemas. A noite toda ficávamos na varanda, ouvindo o barulho do mar e contando histórias. Sentia o cheiro do corpo de Fancy e de seu xampu. Tudo me inebriava.

Precisávamos de um lugar onde não houvesse mais ninguém além de nós. Em Bazar de Cox, pela primeira vez, nos conhecemos em cada átomo e molécula de nossos corpos. Eu ficava olhando para ela com olhos arregalados de admiração, pensando em como o corpo de uma mulher pode ser único e extraordinário. Quão perto uma pessoa pode chegar de outra?

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No nosso primeiro encontro, pensei que, se morresse de repente, tudo bem. Essa felicidade nunca teria fim.

Ficamos lá por sete dias. Durante esse período, às vezes íamos à praia e ao mercado birmanês. Fancy se adornava lindamente. Arrumava o cabelo bem devagar. Passava batom com muito cuidado. Vestia o sári com elegância. Cada sári com uma blusa para combinar. Como uma personagem de novela, ela me chamava e dizia: “Você poderia, por favor, fechar o sutiã para mim?”.

Eu ria comigo mesmo, me perguntando quem fazia esse trabalho antes de nos casarmos. Esses poucos dias de lua de mel passaram num piscar de olhos.

Depois do casamento, Fancy se mudou para Dhaka comigo. Saí do albergue onde morava com outros solteiros para morar com ela. Alugamos uma casinha em Shanti Nagar. Era uma casa minúscula, apenas um cômodo, rodeada por uma varandinha que fazia as vezes de sala de estar. Tínhamos duas cadeiras de plástico na varanda. Fancy fez uma decoração linda com plantas e outros utensílios.

Depois do trabalho, passeávamos pela Bailey Road e por outros mercados. Gostávamos de assistir a peças no auditório da Associação de Mulheres. Nunca perdíamos nenhum evento no Centro Mundial de Literatura. Às vezes, de manhã cedo, íamos passear no Parque Ramna. Era um passeio tranquilo, com as ruas livres da agitação. Aqui e ali víamos grupos caminhando, correndo e fazendo exercícios.

Essa maravilhosa caminhada matinal em Shanti Nagar era uma alegria para nós. Apesar de muitos problemas regionais – inundações, congestionamentos, barulho – desfrutávamos desses pequenos prazeres.

Quando eu ia para o escritório, Fancy ficava sozinha em casa o dia todo, então sua mãe mandou uma garota para ajudá-la nas tarefas domésticas. Isso era um incômodo para mim. Quando voltava do trabalho, Fancy abria a porta e eu a carregava nos braços até a cama, depois a beijava com delicadeza e carinho – mas não podia continuar por causa da presença da jovem empregada na casinha.

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Para tirar a jovem de casa, eu lhe dava um dinheiro e dizia para ela comprar uma caixa de fósforos no supermercado, embora eu não fumasse. Então, depois que ela ia embora, eu cobria Fancy de carinhos.

Eu abria a porta do carro e olhava na direção de Fancy, imaginando que nós dois estávamos criando sonhos em silêncio Foto: Brian Rea/The New York Times

Nos Estados Unidos, a jovem empregada já não estava disponível nem era acessível – e nosso modo de vida mecanizado tirou grande parte da nossa felicidade. Nós dois queríamos dormir juntos, mas não tinha como. Eu precisava sair com o táxi e ela precisava trabalhar no restaurante: era trabalho o tempo todo.

Então, contra a minha vontade, eu levantava cedo, dava um beijo rápido na bochecha de Fancy e ia ao banheiro. Dez minutos depois, já estava pronto para sair e pegar o táxi amarelo com meu parceiro do turno da noite.

Eu abria a porta do carro e olhava na direção de Fancy, imaginando que nós dois estávamos criando sonhos em silêncio, sonhos de estar de volta a Dhaka. Sonhos de ter um apartamentinho em Shanti Nagar e um carro próprio. As pequenas alegrias de Dhaka voltariam a nos acolher. Eu tinha certeza.

Tudo isso aconteceu há muito tempo. Nunca voltamos para Dhaka. Mas construímos uma vida aqui no Queens. Enquanto nosso amor crescia, nossos sonhos mudavam. Tivemos uma filha, que hoje é médica.

Faz muito tempo que não dirijo táxi, mas aquele táxi foi o nosso começo. Acho que dá para chamar isso de sonho americano.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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