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IA com capacidade humana vai chegar gradualmente, diz cientista-chefe do Google

Um dos principais nomes da história da inteligência artificial e fundador da DeepMind, Demis Hassabis falou sobre impacto e evolução da tecnologia em evento em Barcelona

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Por Guilherme Guerra

ENVIADO ESPECIAL A BARCELONA - O desenvolvimento de uma inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês), capaz de performar as mesmas tarefas que um cérebro humano, tornou-se o Santo Graal da tecnologia. Nos últimos anos, empresas do setor deixaram de questionar se isso deve acontecer, e sim quando deve surgir essa máquina sabe-tudo. Para elas, é uma questão de tempo – e, portanto, de quem deve liderar a descoberta.

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“A chegada da inteligência artificial geral vai ser um processo gradual, e não uma ruptura repentina”, afirma um dos maiores especialistas no assunto no mundo, o cientista Demis Hassabis, fundador e presidente executivo da startup americana DeepMind, comprada pelo Google em 2014 (o valor do negócio não foi confirmado, mas especula-se que tenha sido de US$ 400 milhões).

A declaração de Hassabis ocorreu nesta segunda-feira, 26, no principal palco da conferência Mobile World Congress (MWC) 2024, tradicional feira de telecomunicações e telefonia móvel que acontece em Barcelona, na Espanha. Como todo o mercado de tecnologia no último ano, a feira foi “contaminada” com o tema da inteligência artificial, que dominou o mercado e tornou-se a obsessão das empresas.

Hassabis é um dos principais nomes da IA no mundo não apenas na atualidade, mas também na história do campo. Hoje, o cientista lidera toda a estratégia de IA do Google, que se esforça para fazer frente com a rival OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT.

Demis Hassabis é o cofundador e presidente executivo da DeepMind, startup de IA comprada pelo Google em 2014 Foto: Enric Fontcuberta/EFE - 26/2/2024

A OpenAI também afirma que o foco da startup é desenvolver uma AGI. Para o fundador e presidente executivo Sam Altman, trata-se do objetivo maior da empresa, que busca atingi-lo em até dez anos. Recentemente, rumores internos afirmam que a companhia conseguiu desenvolver um modelo de IA (batizado de Q*) que soluciona problemas matemáticos, avanço importante rumo à inteligência geral da máquina.

Ou seja, a disputa pelo domínio da AGI já é uma realidade. Até lá, no entanto, há muito chão pela frente e muitos avanços menores, mas importantes, devem surgir.

“Nós não devemos esperar a AGI (ficar pronta) para provar que essa tecnologia pode ser útil e valiosa em nossas vidas”, diz Hassabis, otimista sobre o potencial de a IA “comum” impactar o cotidiano da sociedade, com fins específicos em diversas indústrias.

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A indústria farmacêutica pode ser uma das maiores beneficiadas pelos avanços em IA. Esse segmento foi altamente beneficiado pelo sistema AlphaFold, criado pela Deep Mind e capaz de prever a estrutura proteica. Hassabis afirma que, em até dez anos, drogas e remédios podem ser criadas inteiramente por máquinas de inteligência, cumprindo em meses uma tarefa que, hoje, leva anos por humanos.

“Estamos somente na superfície do que podemos ver nos próximos anos”, diz ele.

Pegos de surpresa

Se a inteligência artificial deve caminhar a pequenos passos até se tornar “geral”, a popularização da IA surpreendeu todo o mercado de tecnologia – inclusive o próprio Google, que era tido como o líder invicto nessa área até a ascensão meteórica da OpenAI, que conta com um aporte de US$ 13 bilhões da Microsoft.

Lançado em novembro de 2022, o ChatGPT inovou ao colocar para o grande público as capacidades conversacionais de um robô de bate-papo. Ao contrário de chatbots anteriores, a versão da startup permite fazer perguntas à máquina com uma interface simples, sobretudo de texto. Já as respostas variam de curtas a até a criação de textos grandes, em estilos variados. O “talento” do robô deu resultado: o ChatGPT tornou-se o serviço com mais rápida adoção da história da internet, conquistando 100 milhões de usuários em 60 dias.

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O movimento da rival forçou o Google a lançar uma solução similar, o Bard (cujo nome foi alterado para Gemini recentemente). A decisão contrariava os executivos da empresa, que ainda encaravam que o produto não estava pronto para ir ao mercado devido a erros nas respostas, segundo testes internos.

“Quando o ChatGPT saiu, o público geral estava aberto a usá-lo, mesmo com suas falhas, como a alucinação”, diz Hassabis, referindo-se à prática de o chatbot criar conteúdo falso ou enganoso quando não tem uma resposta correta para uma pergunta. “Milhões de pessoas encontraram valor nele. Isso foi surpreendente para toda a indústria, porque o público geral estava pronto.”

Demis Hassabis (dir.) é um dos nomes que subiram ao palco principal da MWC 2024, em Barcelona, na Espanha Foto: Guilherme Guerra/Estadão

A OpenAI, é claro, chacoalhou tudo com o ChatGPT. A ironia é que a startup criou seu produto a partir de uma tecnologia desenvolvida pelo Google em 2017: o Transformer, conhecido como a base da inteligência artificial moderna e empresta o “T” da sigla GPT.

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Para o cientista da DeepMind, o grande mérito da rival OpenAI foi usar essas invenções criadas no Google e “aplicá-las à mentalidade do Vale do Silício”, isto é, de criar um modelo de negócio e turbiná-lo para crescer a qualquer custo. O movimento contrata com o histórico dessa área, que, até 2022, se preocupava em fomentar pesquisas acadêmicas robustas, definir padrões éticos e demonstrar avanços modestos para o usuário final, como em ferramentas de sugestão de escrita e de tradução.

A inovação da OpenAI ainda não foi ultrapassada pelo Google.

Na semana passada, o Gemini gerou imagens historicamente incorretas, como ilustrações de soldados negros com uniformes da Alemanha Nazista. O caso gerou um escândalo, levando o Google a retirar a geração de imagens do ar.

Na MWC 2024, Hassabis pediu desculpas. “O serviço não estava funcionando da maneira que esperávamos ao gerar imagens”, declarou. “Esperamos retomá-lo online nas próximas semanas.”

*O repórter viajou a convite da Intel

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