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IA na acessibilidade pode dificultar navegação de pessoas cegas na internet

Pessoas com deficiência se queixam de problemas com serviços de sobreposição de acessibilidade automatizada, que vem crescendo graças a avanços na tecnologia

Por Amanda Morris
Atualização:
Patrick Perdue relata problemas com ferramentas de sobreposição de acessibilidade na internet, que têm ficado cada vez mais comuns com avanços na inteligência artificial Foto: Don Brodie/The New York Times - 22/6/2022

Patrick Perdue, um fã de rádio amador que é cego, costumava comprar equipamentos pelo site da Ham Radio Outlet. O código da página permitia que ele transitasse com facilidade entre as seções do site usando o teclado, com seu leitor de tela falando em voz alta o texto.

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Tudo isso mudou quando a loja começou a usar uma ferramenta de acessibilidade automatizada, muitas vezes chamada de sobreposição de acessibilidade, criada e vendida pela empresa AccessiBe.

De repente, a navegação no site ficou muito difícil para Perdue. A sobreposição da AccessiBe inseriu um código que deveria corrigir quaisquer erros de programação no código original e adicionar recursos para melhorar a acessibilidade. Mas isso acabou formatando a página, e alguns widgets – como os botões de finalização de compra e carrinho de compras – deixaram de ser visíveis para o leitor de tela de Perdue. As identificações de imagens e botões foram codificadas de forma incorreta. Ele não consegue mais encontrar a caixa de pesquisa do site ou os cabeçalhos de que precisa para navegar em cada seção da página, disse.

Perdue é uma das centenas de pessoas com deficiência que se queixaram de problemas com serviços de acessibilidade automatizados para a internet, cuja popularidade aumentou bastante nos últimos anos por conta dos avanços na inteligência artificial e das novas pressões legais sobre as empresas para tornar seus sites acessíveis.

Mais de uma dúzia de empresas oferecem essas ferramentas. Duas das maiores, a AudioEye e a UserWay, são negociadas na Bolsa e divulgaram receitas na casa dos milhões em relatórios financeiros recentes. Algumas cobram taxas mensais que vão de US$ 50 a US$ 1 mil, de acordo com seus sites, enquanto outras cobram taxas anuais de algumas centenas ou milhares de dólares. (O preço costuma ser apresentado em categorias e depende de quantas páginas um site possui.) Essas empresas têm grandes corporações como Hulu, eBay e Uniqlo, assim como hospitais e governos locais entre seus clientes.

No discurso delas, muitas vezes está presente uma garantia de que seus serviços não só vão ajudar os internautas cegos ou com baixa visão a usar a internet com mais facilidade, como também evitarão que as empresas enfrentem possíveis processos judiciais por não tornarem seus sites acessíveis.

Mas não é isso que está acontecendo. Internautas como Perdue dizem que o software pouco ajuda, e alguns dos clientes que usam as ferramentas da AudioEye, da AccessiBe e da UserWay estão enfrentando ações legais de todo jeito. No ano passado, mais de 400 empresas com um widget de acessibilidade ou sobreposição em seus sites foram processadas por questões de acessibilidade, de acordo com dados reunidos por um fornecedor de acessibilidade digital.

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“Ainda não encontrei pelo menos uma que torne minha vida melhor”, disse Perdue, 38, que mora no Queens, em Nova York. “Passo mais tempo tentando contornar essas sobreposições do que realmente navegando no site.”

Petição

No ano passado, mais de 700 defensores da acessibilidade e desenvolvedores da web assinaram uma carta aberta pedindo às organizações para parar de usar essas ferramentas, escrevendo que o valor prático dos novos recursos era “bastante exagerado” e que as “próprias sobreposições talvez tivessem problemas de acessibilidade”. A carta também observou que, como Perdue, muitos internautas cegos já tinham leitores de tela ou outro software para ajudá-los enquanto navegavam pela internet.

AudioEye, UserWay e AccessiBe disseram que compartilhavam o objetivo de tornar os sites mais acessíveis, reconhecendo até certo ponto que seus produtos não são perfeitos.

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Lionel Wolberger, diretor de operações da UserWay, disse que a empresa pediu desculpas pelos problemas com suas ferramentas e tem trabalhado para corrigi-los, prometendo fazer o mesmo para qualquer outra pessoa que aponte falhas. A AccessiBe se recusou a responder as perguntas relacionadas às críticas específicas ao seu produto, mas Josh Basile, porta-voz da empresa, criticou a carta aberta contra as sobreposições, dizendo que ela estava “levando a conversa para a direção errada”. Ele acrescentou, porém, que a empresa estava disposta a aprender com os comentários.

Todas as três empresas afirmaram que seus produtos seriam aprimorados com o tempo, e tanto a AudioEye quanto a UserWay disseram que estavam investindo em pesquisa e desenvolvimento para melhorar as habilidades da inteligência artificial.

David Moradi, CEO da AudioEye, disse que o serviço automatizado da empresa e outros semelhantes eram a única maneira de consertar os milhões de sites ativos da internet – a grande maioria dos quais não é acessível para pessoas que são cegas ou têm baixa visão.  “A automação tem que entrar em cena. Caso contrário, nunca vamos solucionar esse problema, e esse é um problema enorme”, disse ele.

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No entanto, especialistas em acessibilidade prefeririam que as empresas não usassem sobreposições de acessibilidade automatizadas. Idealmente, dizem eles, as organizações deveriam contratar e treinar funcionários para supervisionar essas iniciativas em tempo integral. Mas fazer isso pode ser difícil.

“Sem dúvida existe uma demanda por profissionais com experiência em acessibilidade e as vagas estão por aí”, disse Adrian Roselli, que trabalhou como consultor de acessibilidade digital por duas décadas. “As referências ainda não estão disponíveis para atender a essa demanda porque tem sido uma indústria de nicho há muito tempo.”

Essa lacuna, ele disse, deu às empresas que vendem ferramentas de acessibilidade automatizadas a chance de se multiplicar, oferecendo soluções aparentemente rápidas para os problemas de acessibilidade dos sites, ao mesmo tempo em que às vezes dificultam a navegação pela web para pessoas cegas.

No site da AccessiBe, por exemplo, a empresa afirma que em “até 48 horas” após a instalação de seu código JavaScript, a página do cliente estará “acessível e em conformidade” com a Lei dos Americanos com Deficiência (ADA, na sigla em inglês), que o Departamento de Justiça do país deixou claro em orientação recente ser aplicável a todos os bens e serviços online oferecidos por empresas e organizações públicas.

Moradi, da AudioEye, disse que a empresa aconselha seus clientes a recorrer, além de a uma ferramenta automatizada, a especialistas em acessibilidade para corrigir manualmente quaisquer erros. Mas não está nas mãos da AudioEye se os clientes seguem seus conselhos, afirmou. Ele defende uma solução híbrida que combine automação e correções manuais e disse esperar que as habilidades de automação melhorem aos poucos.

“Tentamos ser muito transparentes em relação a isso e dizemos: ‘a automação vai dar um jeito em muita coisa, mas não em tudo. Ela vai ficar cada vez melhor com o tempo’”, disse ele.

Pessoas cegas e com baixa visão dizem que é descabido pedir que elas aguardem enquanto os produtos automatizados melhoram, pois recorrer a sites é cada vez mais necessário nas tarefas do dia a dia. Problemas comuns, como botões e imagens que não são identificados, apesar do uso de uma sobreposição, podem impedir Brian Moore, 55, que é cego e mora em Toronto, de pedir uma pizza, ele disse.

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Além de imagens, botões e formulários mal identificados, internautas cegos registraram problemas com sobreposições que incluem não conseguirem usar seus teclados para navegar pela web, porque os títulos das páginas não estão indicados corretamente ou porque certas partes do site não são pesquisáveis ou selecionáveis. Em outros casos, ferramentas automatizadas transformaram cada pedaço de texto de uma página em um título, impedindo que os usuários pulem facilmente para a seção de um site que desejam ler.

Moore disse que teve problemas para concluir tarefas como comprar um laptop, solicitar os benefícios de seus funcionários, reservar passagens e finalizar transações bancárias em sites que tinham sobreposições.

“Se o objetivo é tornar o site mais acessível e você não consegue corrigir os problemas básicos, o que você está oferecendo?”, questionou.

Mundo corporativo

Problemas com a acessibilidade também podem ser um obstáculo para as pessoas trabalharem.

A LightHouse for the Blind and Visually Impaired, organização sem fins lucrativos de ativismo e educação em São Francisco, recentemente processou a empresa de software de Recursos Humanos Automatic Data Processing (ADP), que vinha usando uma ferramenta de acessibilidade automatizada da AudioEye. Apesar da sobreposição, houve “muitos, muitos casos em que funcionários cegos não conseguiam fazer seu trabalho”, disse Bryan Bashin, CEO da organização. O processo foi resolvido por meio de um acordo no qual a ADP concordou em melhorar sua acessibilidade e não recorrer apenas às sobreposições.

A ADP não respondeu as perguntas relacionadas ao processo, mas disse que “valoriza muito a inclusão digital”.

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“Estamos em uma situação de Velho Oeste agora”, disse Bashin, referindo-se à variedade de softwares de acessibilidade, cuja qualidade, segundo ele, pode variar bastante.

Entretanto, ele disse que a LightHouse for the Blind and Visually Impaired não era contra esse tipo de ferramentas. Ele consegue imaginar um futuro no qual o software automatizado melhore radicalmente as experiências online para pessoas cegas; essa apenas não é a realidade no momento.

“Acho que a inteligência artificial vai fazer isso bem, mesmo ela sendo agora essa mistura de coisas boas e ruins – assim como ela vai nos proporcionar os veículos autônomos”, disse ele. “Mas, caso não tenha percebido, não estou dirigindo um deles agora.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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