Descontos e novas coleções: como a C&A usa inteligência artificial na moda

Uso de IA deve ser implementado em diversas etapas da companhia, inclusive em contratação

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Por Guilherme Guerra
6 min de leitura

Seguindo a grande tendência de 2023, a C&A Brasil vai dobrar a aposta na adoção de inteligência artificial (IA) em diversos processos do negócio, revela a empresa em entrevista ao Estadão — e pode ser que o tão sonhado desconto em peças de roupa fiquem ainda mais ao alcance dos consumidores com ajuda da tecnologia

O plano da gigante é aumentar o seu processo de digitalização, o que vai incluir a criação de peças e coleções com a ajuda de algoritmos, contratação remota de funcionários nas lojas, planejamento de estoques nos galpões e ofertas de descontos mais assertivos aos clientes no site — tudo com a ajuda da IA.

A chegada da inteligência artificial na C&A Brasil vem para reforçar o lema de “reinvenção” da companhia, presente no País desde 1976 e hoje com 330 lojas nas ruas. Em 2019, a empresa foi listada na B3 e utilizou o capital para impulsionar sua transformação digital com uma série de planos estratégicos para alavancar o negócio. Mas tudo isso foi suspenso em 2020, quando a pandemia de covid-19 chacoalhou o mundo.

“A pandemia foi aquela coisa louca que fez com que todo o nosso plano estratégico ficasse emperrado, enquanto a gente ia se defendendo daquela realidade de todas as lojas fechadas”, lembra o presidente executivo da C&A no Brasil, Paulo Correa, ao Estadão. “Mesmo assim, vimos que havia um lugar que não estava fechado: nossa loja online. E aí a gente fez uma evolução muito grande nas nossas jornadas online.”

Paulo Correa é o presidente executivo da C&A há oito anos Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 30/11/2023

De 2020 até hoje, a C&A Brasil desembolsou R$ 600 milhões em investimentos em tecnologia. Na prática, a companhia digitalizou os galpões de produtos, inserindo robôs, adotando sistema de rádiofrequência para fazer controle digital dos itens e cuidando da logística com a utilização de aprendizado de máquina, isto é, inteligência artificial. Isso permitiu otimizar estoques, reduzir desperdícios, aumentar a margem do negócio e realizar entregas mais rápidas ao cliente.

“Parece meio básico, mas, quando se fala em milhões de peças, não é uma coisa tão óbvia”, explica o CEO. “Conseguimos entender qual é o ritmo de vendas de cada item em cada loja, o que me deu uma condição de fazer modelos de reposição de estoque desses produtos de uma maneira muito mais assertiva. Isso deu a condição de fazer uma gestão de precificação dessas peças em cada loja.”

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Na prática, a C&A começou a entender quais descontos funcionavam melhor tanto para a empresa (que precisa se livrar de itens), quanto para o consumidor (que busca o melhor custo-benefício). A tecnologia aqui é relativamente simples: algoritmos de inteligência artificial preveem demanda, elasticidade e otimização de performance. Com isso, a companhia diz que registrou aumento nas vendas de produtos em estoque.

Acabávamos tendo que dar muitos descontos e isso penalizava a margem bruta da empresa

Paulo Correa, CEO da C&A

Para o cliente, além do preço mais afinado, há uma vantagem clara desse uso de tecnologia: diminuiu a falta de peças nas lojas. Segundo a C&A, na era “pré-digitalização”, cerca de 20% dos consumidores entravam em uma loja e não encontravam o tamanho ou estilo desejado. Hoje, esse número é de 5%.

“Determinadas lojas têm um perfil em que as pessoas são mais altas e, por isso, vendemos tamanhos grandes. Antes, existiam sobras de tamanhos pequenos nessas lojas, e aí não adiantava fazer remarcação desse preço, porque não tem tanto volume de consumo e o perfil do cliente não tem tanto interesse naquele produto”, diz Correa. “Acabávamos tendo que dar muitos descontos e isso penalizava a margem bruta da empresa.”

C&A aposta em inteligência artificial para alavancar negócio da marca no Brasil Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 30/11/2023

Todo esse movimento, além de impulsinar a C&A, também é uma forma de se defender da chegada de pesos-pesados do varejo de moda, como a Shein. A marca chinesa chegou ao País em maio de 2022, com negócio altamente turbinado por tecnologia e sem lojas físicas, o que reduz custos da operação. Em julho, a firma chinesa foi acusada de roubo de propriedade intelectual ao utilizar um algoritmo secreto (leia mais aqui) — à época, ao Estadão, a empresa disse que iria se defender da acusação.

ChatGPT da C&A

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Um ano após o lançamento do ChatGPT, é quase impossível falar do campo da inteligência artificial generativa, que inclui os robôs de bate-papo e geradores de imagem. O mercado todo está atento a como utilizar essas ferramentas, de campanhas de marketing a serviço de atendimento ao consumidor, por exemplo.

A C&A não é exceção, mas Correa pontua que a adoção de uma ferramenta está em testes e que nada foi definido — até “para não dar a dica” aos concorrentes, diz.

A empresa afirma que vai utilizar ferramentas das principais empresas do mercado, o que inclui Microsoft, Google e Amazon, quem têm plataformas que ofertam algoritmos. Ainda, vai fazer estudos com universidades do País para entender como aplicar essa tecnologia no ramo da moda e utilizar a tecnologia para desenvolver peças e coleções com modelagem digital.

“A inteligência artificial generativa é mais do que o hype em si. A gente está na aplicação relevante (dessa tecnologia), do quanto conseguimos fazer coisas que possam nos trazer retorno concreto”, afirma Correa.

Após adoção de transformação digital, C&A apresentou melhora no balanço financeiro no último trimestre de 2023 Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 30/11/2023

Bons frutos

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Esses investimentos, com objetivo de otimizar as pontas do negócio e agradar a um cliente mais educado quanto às plataformas digitais, parecem estar rendendo bons frutos.

Segundo balanço da C&A referente ao terceiro trimestre de 2023, a varejista registrou prejuízo de R$ 44,2 bilhões, queda de 28% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a receita líquida cresceu 9,6% na mesma comparação e registrou R$ 1,54 bilhão.

Ou seja, as coisas vêm melhorando para a C&A Brasil, mesmo esteja causando dor de cabeça no setor a entrada de nomes internacionais de peso no varejo de moda, como a Shein e a chegada da H&M em 2025.

“Nesses últimos trimestres, mostramos que estamos entre as empresas mais fortes nessa competição. Conseguimos ganhar market share e aumentamos a rentabilidade da empresa, independentemente dessas mudanças na entrada de novos competidores”, relata Correa, há mais de 20 anos na empresa, dos quais oito são como CEO. “A capacitação da companhia na dinâmica de foco no cliente usando a tecnologia para construir essas soluções, é, para mim, o maior e melhor investimento.”