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Elon Musk fecha a compra do Twitter por US$ 44 bilhões

Negócio foi aprovado por unanimidade pelo conselho da empresa e deve ser concluído até o final de 2022

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Por Bruno Romani , Bruna Arimathea e Guilherme Guerra
Atualização:
Elon Musk fecha acordo por compra do Twitter Foto: Andrew Harrer / Reuters

O passarinho azul está oficialmente na gaiola do homem mais rico do mundo. Twitter comunicou oficialmente nesta segunda, 25, que aceitou a oferta do bilionário Elon Musk de US$ 44 bilhões (R$ 215 bilhões na cotação atual), com cada ação avaliada a US$ 54,20. Segundo o comunicado, o conselho da empresa aprovou por unanimidade a compra, que será concluída ao longo de 2022. Ao final, a empresa terá o seu capital fechado, tornando-se uma empresa privada.

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O negócio é maior da história envolvendo redes sociais (o Facebook comprou Instagram e WhatsApp por, respectivamente, US$ 1 bilhão e US$ 19 bilhões) e um dos maiores da história da tecnologia (o recorde pertence à Microsoft, que comprou a Activision por US$ 69 bilhões).

Segundo Bret Taylor, presidente do conselho independente do Twitter, um dos pontos considerados para a venda da empresa foi o impacto nas ações para os acionistas. "O conselho do Twitter conduziu um processo cuidadoso e abrangente para avaliar a proposta de Elon com foco deliberado em valor, certeza e financiamento. A transação proposta proporcionará um prêmio em dinheiro substancial e acreditamos que é o melhor caminho a seguir para os acionistas do Twitter."

Com o anúncio do negócio, Musk se manifestou oficialmente e repetiu o refrão sobre liberdade de expressão."Liberdade de expressão é o seio de qualquer democracia funcional, e o Twitter é a praça digital em que tudo que importa para a humanidade é debatido", disse Musk. "Eu também quero transformar o Twitter em algo melhor do que nunca ao melhorar os produtos com novos recursos, tornando os algoritmos em código aberto para melhorar confiança, atacando robôs de spam e autenticando todos os humanos. O Twitter tem imenso potencial — e eu estou ansioso para trabalhar com a companhia e a comunidade usuários para destravar isso."

Musk foi ao Twitter falar sobre o assunto, repostando o trecho do comunicado. 

Nesta segunda, ela havia feito outra menção com a seguinte mensagem: "Espero que mesmo as minhas piores críticas continuem no Twitter, porque isso é o que liberdade de expressão significa". 

De acordo com David Nemer, professor da Universidade da Virgínia (EUA), os objetivos de Musk para a plataforma podem estar claros para ele, mas ignora que existem diferentes leis em países que também falam sobre o assunto. 

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A liberdade de expressão que ele fala faz parte de um imaginário que, por mais que ele tente implementar, volta na máxima do embate com regras locais. Ele está tentando uma coisa que a gente já sabe que não vai dar certo", explica Nemer.

Após o anúncio, ainda com a Bolsa de Valores americana aberta, as ações do Twitter deram um salto de cerca de 6,3%, chegando a custar US$ 52 cada. Na compra de Musk, cada papel foi negociado por US$ 54,20, valor que o Twitter não conseguia alcançar desde novembro de 2021. O negócio representa um premium de 38% nos papeis em relação ao dia 1 de abril, quando Musk revelou que havia comprado 9% da companhia. Ao fim do dia, as ações fecharam em alta de 5,6%.

Segundo o documento publicado pelo Twitter, a transação deve ser financiada por meio de empréstimos e dívidas, totalizando US$ 25,5 bilhões. Além disso, Musk deve bancar US$ 21 bilhões do próprio bolso. Segundo a Reuters, é o maior negócio já realizado por um única pessoa. 

Ainda na tarde desta segunda-feira, o presidente do Twitter, Parag Agrawal, afirmou que os funcionários terão uma sessão de perguntas e respostas. Agrawal vai se apresentar juntamente com Bret Taylor, membro do conselho da empresa para tirar dúvidas sobre a aquisição e os próximos passos do Twitter.

“Sei que esta é uma mudança significativa e vocês provavelmente estão processando o que isso significa para vocês e para o futuro do Twitter”, disse Agrawal em um e-mail para funcionários nesta segunda.

Avanço

O avanço das negociações aconteceu nos últimos dias, após Musk detalhar como ele irá pagar pela aquisição do Twitter. O plano do homem mais rico do mundo para comprar a rede social, de acordo com o jornal New York Times, envolveria o desembolso de aproximadamente US$ 21 bilhões da sua própria fortuna, cartas de compromisso do banco Morgan Stanley e de um grupo de credores avaliados em cerca de US$ 13 bilhões, além de outros US$ 12 bilhões provenientes de empréstimos a partir de ações do próprio Musk na Tesla, montadora de carros elétricos da qual ele é dono.

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Segundo especialistas, foi um ataque voraz do bilionário. "Não houve outros interessados nem cavaleiros brancos neste processo de aquisição. O conselho do Twitter foi colocado contra a parede quando Musk detalhou, na semana passada, como faria a compra", afirmou o Dan Ives, analista da consultoria Wedbush, em nota a investidores nesta terça, logo após a divulgação da notícia.

Porém, os investidores da Tesla, empresa de carros elétricos de Musk, mostraram preocupação com o negócio. Os papéis da montadora apontavam queda de quase 1,5% após o anúncio. 

Nas últimas semanas, quando Musk tuitou sobre possíveis mudanças na rede social, a Tesla também registrou perda nos papéis de 16%. Segundo especialistas, o valor pode continuar caindo com o aumento da desconfiança de investidores da montadora elétrica. Isso porque existe o temor em relação à como Musk vai lidar com o trabalho no Twitter e com a Tesla — o medo é que a empresa de carros não seja mais a prioridade do bilionário.

Primeiras medidas

No documento, Musk detalhou quais devem ser os primeiros passos da empresa sob seu comando. O bilionário quer transformar os algoritmos do Twitter em código aberto, tornando possível que a sociedade entenda como opera a rede social—a medida é defendida por especialistas como uma maneira de entender como operam as plataformas e, principalmente, como frear a desinformação, que é impulsionada pelos mecanismos de engajamento das redes.

Outra medida é acabar com todas as contas de robôs de spam, ou seja, que seguem padrões de postagem repetitivos e de importunamento. A promessa provavelmente ignora os ditos robôs autênticos, criados com o intuito de informar a sociedade — recentemente, o Twitter permitiu que esses perfis na plataforma, desde que se apresentassem como robôs.

Por fim, Musk pretende autenticar todas as contas de humanos no Twitter, onde hoje é permitido criar contas falsas. A mudança tornaria o Twitter mais similar ao Facebook, onde cada usuário é autenticado pela empresa.

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Repercussão

O futuro, porém, guarda muitas perguntas e proecupações de especialistas. "A depender da manutenção dos times e das políticas construídas na última década, podemos ter mudanças profundas no modo como a plataforma se regula e influencia nossas vidas", explica Rafael Zanatta, diretor executivo da Data Privacy Brasil. "Fazendo um paralelo simplificador, é como se um novo governo fosse eleito, com a possibilidade de mudança de todos os ministérios. Evidente que o Twitter é uma empresa privada e não um Estado, mas o paralelo nos ajuda a pensar o modo como empresas exercem grandes poderes e influência em nossa vida cívica", completa. 

"O Musk sabe do poder político do Twitter. Não dá para saber o que vai acontecer. O discurso de liberdade de expressão, que ele defende, é de deixar com a pulga atrás da orelha. No Brasil, a ideia é usada, por exemplo, para atacar Ministros do STF. Até que ponto irá a liberdade de expressão sob o comando do Musk?", questiona Alexandre Inagaki, consultor em redes sociais.

Novela do ‘passarinho azul’

No início de abril, o bilionário Elon Musk, dono da montadora de carros elétricos Tesla e da empresa de turismo especial SpaceX, anunciou a compra de 9% do Twitter, tornando-se o maior acionista da companhia, fundada em 2006 e famosa pela rede social de mensagens curtas e em tempo real.

Apesar de Musk ser conhecido como um feroz crítico da moderação de conteúdo, o movimento animou o mercado financeiro, que viu na entrada de Musk um jeito de tornar a plataforma monetizável – ao contrário do rival Facebook, que conseguiu construir um império desde 2005 e, hoje, é a maior companhia do ramo do mundo.

A notícia foi comemorada pelo atual presidente executivo da empresa, Parag Agrawal, e pelo fundador e CEO antecessor, Jack Dorsey. No dia seguinte, o conselho do Twitter convidou Elon Musk a integrar a mesa de decisões da plataforma para trabalhar em medidas para o futuro da empresa. 

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Uma semana depois, porém, Musk recusou o convite e formalizou uma proposta para comprar o Twitter por US$ 43 bilhões, ou US$ 54,20 por ação, e tornar a companhia privada. Atualmente, a companhia é avaliada em US$ 37 bilhões.

Desde então, a rede social precisa responder aos investidores se deve aceitar a proposta do bilionário, cujo patrimônio é de US$ 255 bilhões, ou recusar para vendê-lo a outro grupo. Nos últimos dias, porém, novos compradores não foram a público demonstrar interesse na plataforma, tornando a proposta do CEO da Tesla a mais atrativa.

Número mágico

Apesar da importância da operação, há quem considere que Musk não perdeu a oportunidade de brincar ao fazer a oferta para controlar 100% do Twitter. Isso porque o valor oferecido de US$ 54,20 por cada ação da rede social contém o número 420, frequentemente utilizado para fazer referência à maconha e à cultura canábica, e que já apareceu em outras operações do bilionário, um entusiata da erva.

Em 2018, Musk anunciou que considerava fechar o capital da Tesla assim que os valores das ações da empresa chegassem a US$ 420. Ele também já apareceu fumando maconha em uma transmissão ao vivo na Internet em 2018, quando participava de um podcast e, em 2020, um foguete da SpaceX levou folhas de maconha até a Estação Espacial Internacional

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