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App católico Hallow foi o mais baixado na semana do Carnaval: o que explica esse sucesso

Desafio criado para o período de Quaresma, marketing no Super Bowl e novos hábitos religiosos são a base do sucesso do aplicativo

Foto do author Guilherme Guerra
Foto do author Alice Labate
Por Guilherme Guerra e Alice Labate

Durante o carnaval, um aplicativo tornou-se o mais baixado nas lojas da Apple e Google no Brasil e nos Estados Unidos. Não era um app de entrega de bebidas e refeições, de ingressos para festas e shows nem de streaming para quem decidiu ficar em casa. Foi o Hallow, aplicativo de meditação e reza para católicos.

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O Hallow traz uma biblioteca de orações, a Bíblia na íntegra, um diário para documentar o cotidiano, a possibiliade de criar comunidades com outros fiéis e a criação de metas — a versão paga, por R$ 200 ao ano, traz mais recursos, como leitura de textos por celebridades. O app é bastante similar a outros aplicativos de meditação que trabalham a saúde mental dos usuários. A diferença é que, aqui, há o elemento religioso por trás das atividades.

O Hallow nasceu no final de 2018 pelas mãos de Alex Jones, atual presidente executivo da empresa e cofundador ao lado de Alessandro DiSanto e Erich Kerekes. Em texto publicado no site do app, o CEO narra como deixou de ser um ateu para se tornar um católico. Após reflexões existenciais sobre ciência, verdade e esperança, a aproximação com a religião começou a surgir: “Eu estava em um ponto em que podia ver um mundo no qual eu poderia acreditar que havia algum tipo de Deus lá fora, e que Ele poderia ou não ter algo a ver com esse cara chamado Jesus”, escreve ele no site da companhia.

Aplicativo católico Hallow foi fundado em 2018 por Erich Kerekes (esq.), Alessandro DiSanto e Alex Jones (dir.) Foto: Divulgação/Hallow

A fé levou Jones a fundar o Hallow (cujo nome, em inglês, significa “tornar sagrado”) com a premissa de levar a relação contemplativa com Deus “para o mundo real”, onde encontrar a paz e a meditação nem sempre são tarefas fáceis. O negócio é apoiado, entre outras pessoas, pelo investidor alemão Peter Thiel, primeiro nome a apostar dinheiro no Facebook e amigo pessoal de Elon Musk. Até agora, o Hallow já levantou US$ 105 milhões em aportes.

“O Hallow é uma maneira simples de criar um diário pessoal todas as manhãs em sua casa. A ideia não é inventar novas maneiras de rezar, mas sim trazer ao mundo a enorme riqueza de métodos de oração contemplativa que já existem na fé cristã atualmente”, escreve o CEO.

Os frutos desse trabalho estão sendo colhidos agora. Na semana do carnaval, o aplicativo católico tornou-se o mais baixado na App Store (do iOS) do Brasil e dos EUA, bem como o terceiro mais baixado na Play Store (do Android). O motivo para a procura está no desafio Quaresma2024, que incentiva que usuários se juntem para rezar cotidianamente ao app.

O pico de downloads na semana passada foi, é claro, na Quarta-feira de Cinzas, período que dá início à Quaresma no calendário católico. Nos próximos quarenta dias, até a Sexta-feira Santa que precede o Domingo de Páscoa, os fiéis usuários do app vão receber uma série de atividades para refletir sobre suas vidas e serem incentivados a jejuar do consumo de carne às sextas-feiras e praticar a esmola.

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O Hallow afirma que mais de 250 mil brasileiros estão participando do desafio, dentro de um total de 1,2 milhão de pessoas no mundo. Além disso, os downloads no Brasil ultrapassaram a marca de 3 milhões recentemente.

“Estamos a tentar levar a santidade e a paz onde elas são desesperadamente necessárias, e essa mensagem ressoa com os brasileiros. E temos visto um crescimento semelhante em todo o mundo, porque esse é um problema global, não apenas do Brasil”, explica ao Estadão a gerente regional do aplicativo, a brasileira Stephany Ibrahim.

Para crescer no País, tido como umas das regiões mais católicas do mundo, o Hallow fez parcerias com celebridades locais. O cantor Michel Teló, o ator Juliano Cazarré, os padres Márlon Múcio e Reginaldo Manzotti e a empresária Déa Camargos são alguns dos nomes participando do Quaresma2024, com leitura de textos bíblicos em português. O ator global, por exemplo, estrela anúncios no YouTube.

“Nosso crescimento no Brasil depende do trabalho colaborativo com todos os que partilham a nossa visão de ajudar o mundo a rezar”, diz Stephany.

No EUA, o ator americano Mark Wahlberg participou de um comercial de 30 segundos que foi revelado na semana passada no Super Bowl. O preço estimado da exibição foi de US$ 30 milhões, segundo o New York Times.

Religião e tecnologia unem-se

O Hallow faz parte de um fenômeno maior em que a prática religiosa vem, aos poucos, chegando no mundo das redes sociais, aplicativos e plataformas.

Esse crescimento de apps focados nisso teve um aumento considerável na pandemia e é um reflexo do consumo religioso moderno em geral

Renan William dos Santos, sociólogo

Com o isolamento social durante a pandemia de covid-19, celebrações socioculturais e, principalmente, práticas religiosas foram interrompidas de forma presencial. Como em todos os outros setores, a religião teve de ir para o meio digital também.

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“O uso da mídia e tecnologia para religião sempre existiu, desde estações de rádio até programas de TV religiosos. Esse crescimento de apps focados nisso teve um aumento considerável na pandemia e é um reflexo do consumo religioso moderno em geral”, explicou o sociólogo e membro do Comitê Diretivo da unidade de Religião e Ecologia da American Academy of Religion, Renan William dos Santos. “Há uma mudança estrutural da oferta religiosa que acompanha uma mudança estrutural da demanda.”

O Hallow tampouco está sozinho no mundo de apps cristãos. O mais similar é o Glorify, que levantou aporte de US$ 40 milhões em 2021 e também busca conquistar o fiel brasileiro. Há o InChurch, que permite que instituições religiosas criem espaços personalizados para que os fiéis acompanhem notícias e se inscrevam em eventos vinculados à igreja que frequentam. E há o Bola de Neve, com transmissão de cultos e informações sobre a Igreja Evangélica Bola de Neve.

Ficamos animados com todas as opções que possam ajudar o mundo a rezar um pouco mais

Stephany Ibrahim, gerente regional do Hallow no Brasil

Outras religiões entraram na onda nos últimos anos. O app Muslim Pro, por exemplo, é focado no islamismo e auxilia usuários em orações diárias com relógio e bússola para Meca. Já o Instarabbi responde perguntas sobre o judaísmo. E há também o Buddyfhi, para budistas, e o Umbanda, minha fé!, que ensina sobre a religião afrobrasileira.

Para Stephany Ibrahim, do Hallow, quanto mais apps do tipo, melhor. “Com respeito aos outros apps que estão tentando fazer a mesma coisa que nós, espero que tenham sucesso. Ficamos animados com todas as opções que possam ajudar o mundo a rezar um pouco mais”, diz a executiva.

Segundo Santos, o Hallow tem potencial para crescer ainda mais no Brasil, principalmente pelo fato de a maioria dos brasileiros se declarar cristã. “A religião está acompanhando a modernidade, mas é importante entender que esse mercado não é vinculado à Igreja em si. Ele continua sendo um negócio, com empresas que visam ao lucro.”

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