Incor usa inteligência artificial para proteger dados pessoais em exames

Sistema criado em parceria com a Intel facilita sigilo em análise clínica e pode auxiliar pesquisas acadêmicas na área médica; plataforma poderá ser estendida a outros hospitais

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Por Bruno Capelas
Atualização:

O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (Incor) e a gigante de tecnologia Intel estão à frente de uma iniciativa pioneira: as duas instituições estão colaborando no desenvolvimento de uma tecnologia de inteligência artificial capaz de esconder os dados pessoais dos pacientes dos exames – algo que pode beneficiar não só o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas na área médica, bem como aumentar o sigilo quando um exame precisa ser analisado por um corpo diferente de médicos. 

Atualmente em uma segunda fase de testes dentro da instituição médica, a tecnologia utiliza aprendizado de máquina para conseguir separar o joio do trigo – ou seja, entender quais dados presentes em um raio-X, ressonância magnética ou tomografia pertencem ao paciente e quais dizem respeito à sua condição de saúde. 

Auxílio. Sistema deixa '2ª opinião' mais segura, diz Rabello Foto: Felipe Rau/Estadão

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“A máquina foi treinada a partir de uma base de dados e agora é capaz de entender se algo que está escrito no exame é o nome da pessoa ou a medida do seu pulmão, por exemplo”, explica Guilherme Rabello, gerente de inovação do Incor. “Depois que a tecnologia faz a varredura na imagem e detecta quais dados devem ser anonimizados, essas informações são borradas dentro do exame.” 

Segundo o executivo do Incor, a medida permite que um exame possa ser enviado para análise de um segundo grupo de médicos – a famosa “segunda opinião” – respeitando a privacidade do paciente. “É algo que é muito importante ser considerado quando temos uma lei como a Lei Geral de Proteção de Dados”, explica Rabello. 

Na primeira fase de testes, foram utilizados conjuntos com 600 imagens de cada tipo de exames populares no Incor – como raio-X, tomografia, ressonância, ultrassom e eletrocardiograma. “Conseguimos uma precisão de acerto em 91%. Agora que entendemos como funciona o processo, vamos refinar o aprendizado”, diz o gerente de inovação do Incor. Os dados que não forem anonimizados podem ajudar cientistas e médicos a entender novas fronteiras de diagnósticos, com auxílio de tecnologias como big data (análise de dados). 

Próximos passos incluem uso comercial em 2020

Na visão de Maurício Ruiz, presidente executivo da Intel no Brasil, a utilização de inteligência artificial para anonimizar os dados pessoais nos exames é “resolver um problema do século XX com as ferramentas do século XXI”. Segundo o executivo, a Intel entrou apenas como parceiro de desenvolvimento do Incor e não obterá qualquer vantagem comercial com a tecnologia. “Nossa função é fomentar o uso da tecnologia. O produto é deles.” 

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Segundo Guilherme Rabello, após o refinamento da tecnologia, o plano é passar a utilizá-la em escala comercial. É algo que só deve acontecer em 2020, de acordo com as metas do executivo. “Como instituição pública, nós temos a necessidade de criar soluções com impacto para a sociedade”, explica o executivo. Ele diz ainda que estuda como a tecnologia poderá ser utilizada por outras instituições de saúde. 

“Estamos estudando se o modelo de licenciamento ou cessão da tecnologia será mais útil para cumprir seu propósito. É uma solução que, inclusive, pode ser exportada para outros países”, diz o gerente do Incor. Ele ressalta ainda que uma tecnologia como esta mostra a vocação de desenvolvimento de inovação dentro do setor público – algo que nem sempre é ressaltado. “Podemos, inclusive, ter um retorno que pode ajudar a realimentar a cadeia de inovação pública, alimentando novos projetos e iniciativas.” 

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