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Informação; conceito; desenho

David McCandless é o criador do site Information is Beautiful e o maior nome de uma nova tendência – a visualização de dados.

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Por Redação Link
Atualização:

Por Diana Assennato, especial para o Estado / Londres

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Se fosse possível representar em uma imagem a mente de David McCandless, jornalista, autor e designer inglês que se tornou um dos principais nomes de uma tendência chamada de visualização de dados, seria uma ilustração em que cada forma e cor teria um significado baseado em dados coletados cuidadosamente. McCandless trabalha com mídia impressa há 25 anos e há um ano é considerado – inclusive por ele mesmo – como o precursor desta e uma nova tendência definida como “dataviz”.

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David descreve a visualização de dados como a transformação de padrões, números, estatísticas e ideias que estão ao nosso redor em imagens que contam uma história.

“O objetivo final, para mim, é retirar o véu de algumas conexões que estavam encobertas pelo excesso de informação que às vezes não conseguimos interpretar”, explica. “O que eu faço é deixar que, por um momento, essas imagens revelem mais do que os seus números sozinhos fariam. E quando a informação é interessante, ela se torna bela.”

Foi o excesso de informação que o levou a criar seu primeiro dataviz, enquanto organizava uma extensa pesquisa para uma matéria sobre criacionismo e teoria evolutiva. Imerso em pilhas de papel, dezenas de abas abertas no navegador e muitos post-its, ele se perguntou como poderia agrupar aquilo tudo de forma coerente. “Desenhei um diagrama para me ajudar a entender a cartografia do que estava pesquisando. Quando ficou pronto, olhei bem para aquilo e disse a mim mesmo: ‘Ei, isso funciona!’. Animado, chegou a sugerir a publicação do mapa em vez da própria matéria – o que quase lhe custou o emprego. Mas foi a partir desse rabisco, inicialmente imaginado em um guardanapo, que David descobriu seu talento em contar histórias por meio de imagens. “Fiquei tão encantado com a ideia que comecei a olhar para as minhas pilhas de anotações de outra maneira”.

O jornalista passou os seis meses seguintes juntando números e estatísticas sobre toda espécie de assunto em planilhas sem ter muita certeza do que faria com aquilo. Pressionado por sua agente para desenvolver um projeto para editoras interessadas em seu trabalho jornalístico, David mencionou a ideia de criar um livro visual baseado em mapas de informação. “Parecia uma ideia estúpida porque eu não tinha nada para mostrar além de um mar de números, mas mesmo assim ela me pediu para fazer uma proposta para os publishers, e eu fiz”. Em menos de uma semana, três editoras brigavam pelo seu projeto. Depois de três meses de negociação (e um excelente contrato), ele ainda não acreditava que aquilo tinha virado um emprego. Em fevereiro de 2010, McCandless publicou Information is Beautiful (A informação é bonita, sem previsão de lançamento no Brasil), pela poderosa editora Harper Collins, do grupo News Corp.

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Meticulosamente organizado, David é do tipo de pessoa que anota tudo o que pretende fazer, ler e checar. Consumidor quase compulsivo de RSS , apaixonado por games desde a adolescência, é autodidata em todos os seus ofícios. “Sempre fui péssimo aluno, não fiz faculdade e larguei os estudos aos 19 anos. Gosto de aprender na prática, e acho que sou bom nisso”. Depois de anos de redação e cansado de escrever, aventurou-se na criação de sites quase como um hobby e nessa época descobriu softwares que hoje o ajudam a criar os seus desenhos. “Trabalho quase sempre sozinho e uso o Ilustrator, mas às vezes só um papel e uma caneta resolvem uma ideia solta”, explica. O que torna o seu trabalho mais do que um belo livro de mesa é a maneira como lida com a matéria prima de seus dataviz.

“A informação nunca pode depender do design e, por isso, a criação visual só aparece quando a pesquisa já está feita. O caminho é de baixo pra cima, Informação, conceito, desenho”, conta David, que costuma basear suas próprias pesquisas em fontes abertas para comprovar a veracidade daquilo que cria. “Eu me preocupo com o impacto que estas imagens têm. Um bom design carrega consigo um senso de autoridade que muitas vezes parece indiscutível para quem vê a imagem”, discute.

É por essa razão que ele faz questão de mencionar todas as suas fontes em seu blog, o InformationIsBeautiful.net, e abrir espaço para comentários e discussões. Para David, a audiência é parte importante do processo e o ajuda a refinar os seus gráficos. Segundo ele, quando a pesquisa tem bases sólidas, proposta e significado, a imagem tem apelo para todo tipo de pessoa. “Acho que um dos melhores efeitos colaterais da visualização é apresentar novas realidades para pessoas que originalmente não se interessariam por determinados assuntos. Pessoas que não teriam saco de acompanhar meses de notícias para entender aquilo que está sendo lindamente contado através de uma imagem”, argumenta. Até hoje, ele não teve de fazer inimigos para ter acesso às informações que precisou, mas admite que a abertura e a transparência política estão longe de ser uma realidade quando se trata de números. “É uma linda bandeira para governos democráticos. ‘Nossos dados estão todos disponíveis, façam suas pesquisas online’, mas será que a história é essa mesmo? Quais são os dados que o governo nos permitem ver? Quem decide o que pode ser visto?”, pergunta.

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Para ele, é preciso ter cautela para prever o caminho que a política, a tecnologia e a transparência que a internet proporciona vão seguir quando esses elementos colidirem. “Não quero ser cínico, mas quem vai dominar o quê?”, provoca.

Do ponto de vista de quem já esteve em uma redação, McCandless é claro ao diferenciar infográficos de visualizações de dados. “Infográficos são completamente abarrotados de coisas. É uma lógica um pouco cruel, onde a história fica à mercê do espaço livre”, complementa. Otimista, porém, acredita que a lógica digital pode fazer que a mídia entenda que a informação tem sua própria topografia e o seu espaço de assimilação. “Mapas nos ajudam a achar caminhos quando estamos perdidos, é como um guia que permite navegar através dele. Você acaba engajando as pessoas através de um fascínio visual. E isso é lindo – e muito poderoso”.

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