Os versos e gírias de um compositor com gênio difícil

Sambas de Padeirinho são interpretados por Tantinho, outro ilustre mangueirense

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

23 de setembro de 2009 | 00h00

Nascido no Rio, Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927-1987), o Padeirinho da Mangueira, era homem de gênio bem difícil, mas dono de grande talento musical. Devani Ferreira, o Tantinho da Mangueira, quando adolescente nos anos 1960, conviveu com Padeirinho no Morro da Mangueira. "Ele não tinha parceiros porque era muito chato", diz Tantinho, hoje com 63 anos. "O Cartola corria dele."

Ouça trecho de Distância

Ao fazer improvisos nas rodas de partido-alto, Tantinho lidava com a implicância do outro, que adorava meter-se em brigas. Mas isso não impediu que ele cantasse uma música do sambista mais velho num programa do Chacrinha veiculado pela rádio Mayrink Veiga. Tirou o primeiro lugar no concurso - ganhando um dinheiro que fez diferença - com Mora no Assunto, composição que, infelizmente, não aparece entre os 14 sambas do CD Tantinho Canta Padeirinho da Mangueira.

Este é o segundo trabalho de Tantinho, depois de Memória em Verde e Rosa, ganhador do prêmio TIM de melhor disco de samba em 2007. Com arranjos de Paulão 7 Cordas e participação de Cláudio Jorge (violão), Carlinhos 7 Cordas (violão), Esgubela (percussão) e outros, ele apresenta inéditas - Logo a Mim e Distância -, que o intérprete conseguiu com a família do sambista mangueirense. Registra as clássicas, como Favela, Modificado, Linguagem do Morro, A Situação do Escurinho, Terreiro em Itacuruçá e O Grande Presidente, do compositor que aprendeu a ler e escrever somente aos 15 anos, e sozinho.

Exímio percussionista, Padeirinho, segundo Tantinho, pode ser igualado em talento a outros mangueirenses como Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e Geraldo Pereira. "Mas quase ninguém o conhece", apesar de gravado por Chico Buarque, Nara Leão, Germano Mathias, João Nogueira, Jamelão, Beth Carvalho e outros. (Padeirinho nunca gravou um disco-solo). A suas letras são marcadas pelas gírias. Os seus versos são estruturados em sextilhas - evitando as quadrinhas, mais fáceis, segundo o compositor Nei Lopes. E a sua melodia tem o ritmo marcadamente sincopado. "Quando junta os instrumentos nos sambas do Padeirinho, você percebe que eles têm uma grande beleza", diz Tantinho, que ficou fascinado com Modificado, quando o Paulo 7 Cordas colocou a harmonia.

Padeirinho foi chamado de "filólogo da Mangueira" por Franco Paulino, o seu biógrafo, que assina a introdução do encarte. A única imagem de Padeirinho no CD é do fotógrafo Walter Firmo: ela mostra um homem sentado sobre uma pedra, com um tamborim na mão, chapéu de fita verde e rosa, ao lado de um cachorro vira-lata.

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