Diversidade e inclusão viram fatores primordiais para o sucesso de empreendimentos

Profissionais de diferentes perfis venceram preconceitos e discutem como reduzir disparidades no mundo dos negócios

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Por Jayanne Rodrigues

Você já se sentiu em desvantagem no trabalho? Em algum momento da carreira, situações desconfortáveis podem ter sido mais corriqueiras para mulheres, pessoas negras, trans e com mais de 50 anos. A alternativa encontrada por esses grupos é empreender. Profissionais de diversas áreas se reuniram no evento Empreendedoras no Corre, que celebra o protagonismo da mulher no mundo dos negócios, para reafirmar como a diversidade é um fator primordial para o sucesso das empresas.

O encontro organizado pelo Estadão, com patrocínio do Grupo Boticário e Dorflex, foi realizado no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Veja como foi o evento na íntegra no vídeo abaixo:

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Profissionais negros representam a maior fatia de empreendedores no Brasil, um total de 52% em meio ao contingente de 29,3 milhões de empresários, segundo levantamento do Sebrae com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do 3.º trimestre de 2023.

Embora sejam maioria no setor, empreendedores negros e negras lucram menos do que pessoas brancas (77,6% recebem até 2 salários mínimos por mês), conforme o estudo.

Fundadora da Move Maria, produtora de audiovisual que promove a inclusão de pessoas negras a este setor, Maria Gal conta como virar empresária foi importante para corrigir disparidades no mundo dos negócios, incluindo a barreira de acesso a capital, além da discrepância em relação aos lucros.

Maria Gal, fundadora da Move Maria: empreender para criar oportunidades para si e para os outros Foto: Marcelo Chello/Estadão

“Nunca imaginei virar empresária, comecei a vida no ramo artístico, no teatro e na dança. Pensei em empreender para criar oportunidades para mim e para outras pessoas”, diz.

Com o propósito de ampliar o espaço para profissionais negros atuarem no mercado de trabalho, ela decidiu adotar estratégias mais firmes no intuito de quebrar outro obstáculo. Desta vez, o do networking, que considera o mais difícil no empreendedorismo.

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“Quem assina o cheque para poder apoiar o seu investimento? Geralmente, são pessoas brancas. Se não temos esses contatos, não basta mandar um e-mail”, afirma. Por ter entendido esse recado logo no começo, Gal costuma fazer uma manobra inteligente. Na hora de fechar um projeto para o negócio já vai com a faca e o queijo na mão: “Chegamos no canal com o patrocinador”.

Empreendimentos mais diversos geram mais inovação

Pessoas maduras também enfrentam mais obstáculos no mercado de trabalho e encontram no empreendedorismo uma oportunidade de ascensão. “O empreendedor maduro empreende por quê? Porque o mercado é preconceituoso e muitas vezes não há outra opção”, pontua Fran Winandy, sócia da Acalântis Services, consultoria de recursos humanos e diversidade etária.

Fran Winandy, da Acalântis Services: luta contra o etarismo e contra os estereótipos Foto: Marcelo Chello/Estadão

Por, em tese, terem mais experiência para lidar com as adversidades, as pessoas maduras, com mais de 50 anos, têm mais chances de sucesso na abertura de um negócio. É o que atesta a pesquisa Empreendedores 50+, o futuro do Brasil, da consultoria Empreendabilidade.

O estudo constatou que 15,6% dos empreendedores com idade entre 55 e 64 anos têm empresa ativa há mais de 3,5 anos. Por outro lado, eles precisam de mais capacitação para aprimorar habilidades.

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É exatamente neste ponto que Fran Winandy defende que mulheres empreendedoras devem desenvolver mais autoconfiança. “As mulheres têm mais síndrome da impostora. Precisam de alguém que dê a mão e diga que ela consegue”, afirma a consultora, acrescentando que a pessoa madura tem o discernimento para saber o que é preciso fazer, só é mais difícil porque sofre mais preconceito. “Mas temos de mostrar que isso tudo são estereótipos.”

Na visão de Fabiana de Freitas, vice-presidente de Assuntos Corporativos do Grupo Boticário, a capacitação é importante mas, sozinha, não é suficiente para acelerar a carreira de empreendedores. “Não basta ter o conhecimento técnico, tem de ter confiança e educação financeira para saber lidar (com o negócio)”, diz.

Fabiana de Freitas, do Grupo Boticário: confiança e educação financeira para lidar com o negócio Foto: Marcelo Chello/Estadão

Além de cursos e treinamento, ela dá uma dica simples: “Sem uma boa dose de coragem não conseguimos fazer nada”.

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Existe uma força feminina muito destacada no empreendedorismo

Fabiana de Freitas, do Grupo Boticário

Maite Schneider, cofundadora da Integra Diversidade e da TransEmpregos, que visa inserir pessoas trans no mercado de trabalho, refletiu sobre como é importante inverter a lógica de fracasso imposta a grupos minorizados. “São pessoas que, além de competentes, tiveram de fazer na marra. Hoje em dia, são pessoas que podem tudo porque vêm com sangue nos olhos”, afirma.

Maite Schneider, da Integra Diversidade e da TransEmpregos: 'Só teremos bons CNPJs quando formos bons CPFs' Foto: Marcelo Chello/Estadão

As empresas, segundo ela, assumem um papel importante de não só contratar pessoas trans, como também oferecer treinamento para evidenciar as competências de cada colaborador. Maite ainda compartilhou um conselho que todos devem ter em mente para definir o futuro do mercado de trabalho. “Só vamos ter bons CNPJs quando formos bons CPFs.”

Maria Gal, da Move Maria, completou: “Temos pudor de falar de ambição e dinheiro, mas o empreendedorismo traz uma vontade de sonhar alto”.

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