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‘Não consigo olhar o empreendedorismo se não for social’, diz CEO da ONG Incanto

Camila Casagrande criou o projeto em 2017; hoje, ela defende que as organizações filantrópicas que não adotarem medidas de governança e transparência vão ficar para trás

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Por Jayanne Rodrigues
Foto: Marcelo Chello
Entrevista comCamila CasagrandeCEO da ONG Incanto

Foram muitos os passos que Camila Casagrande teve de dar até se tornar uma empreendedora. Dos primeiros contatos com a dança, aos 15 anos, no colégio público em que estudava, coreografou todos os caminhos que levaram à fundação do Instituto de Cultura, Arte e Novas Tecnologias (Incanto). A ONG, que tem o apoio do Grupo Boticário, oferece aulas regulares em diferentes vertentes artísticas e culturais para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Desde 2017, a Incanto busca na arte a chave para a transformação de vidas. Mas, para garantir o sucesso da iniciativa, Camila mudou a maneira como encara a filantropia, agora como um negócio. “Essas organizações podem, sim, gerar recursos, desde que sejam reinvestidos no projeto”, explica, em entrevista ao Estadão.

Ela foi uma das participantes do Empreendedoras no Corre, evento que celebra o protagonismo da mulher no mundo dos negócios. O encontro, organizado pelo Estadão com patrocínio do Grupo Boticário e Dorflex, reuniu mulheres inspiradoras no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Veja a íntegra no vídeo abaixo:

Confira trechos da entrevista:

Como surgiu a ideia do Incanto?

O Incanto surge em 2017, mas o trabalho social em si começou muito tempo atrás. Com 15 anos, tive uma primeira experiência artística na escola pública em que estudava e, a partir daí, entendi que precisava fazer alguma coisa pela sociedade. Eu achava muito esquisito só ter tido acesso à arte aos 15 anos. Então, comecei a dar aula de dança no pátio de uma escola pública na comunidade, em Curitiba. Depois de quase 10 anos, fiz o convite para os alunos se tornarem professores. É neste momento que o Incanto surge como ONG - a partir de uma metodologia de gestão (de voluntários).

Como o empreendedorismo social pode transformar a vida de pessoas em situação de vulnerabilidade?

O empreendedorismo social é fundamental. Não consigo mais olhar o empreendedorismo se não for social. A nossa sociedade está cada vez mais se moldando para que as empresas olhem para o impacto que estão deixando. Então, é fundamental que qualquer negócio tenha um olhar para o impacto de transformação na sociedade. Visualizamos um resultado muito positivo de transformação a longo prazo efetivamente na ponta. Temos mais de 1 mil crianças atendidas toda semana, mais de 1 mil pessoas qualificadas nos cursos. Esse número é muito representativo porque mostra, em dados, quantas vidas estamos conseguindo alcançar. Acreditamos que, com iniciativas como o Incanto, podemos dar um pouco mais dignidade, promover uma sensação de pertencimento e fazer com que essas pessoas entendam que podem ser o que quiserem na vida.

Camila Casagrande fala sobre a evolução do papel das organizações sociais no País Foto: Marcelo Chello

Como a filosofia do empreendedorismo social pode ser colocada em prática?

Acreditamos que os empreendedores olhem para o tamanho do negócio que eles têm e entendam quais são as ações, mesmo que pequenas, que podem mudar no dia a dia para que tenham impacto social. Estamos falando do social, mas tem também o ambiental, a pauta do ESG (governança ambiental, social e corporativa) está muito em alta. Então, é olhar para esse modelo de sustentabilidade a longo prazo - e o social se inclui nisso - e entender quais são as microações que eles podem fazer. Por exemplo, um empreendedor tem um produto. Quais são as ações que ele pode fazer de logística reversa, de doações de resíduos, contratação de pessoal para manipular esse material? Quais são as ações que um restaurante pode fazer para incentivar a agricultura familiar ou os pequenos agricultores? É entender como os stakeholders de um negócio podem gerar impacto na ponta para a sociedade.

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Qual o papel da inovação no empreendedorismo social?

Houve uma evolução no papel das organizações sociais aqui no Brasil muito significativo nos últimos anos. Estamos saindo de um cenário de filantropia, que está sempre pedindo, dependente das ações, e partindo para um lugar em que essas organizações são um negócio. Podem, sim, gerar recursos, desde que sejam reinvestidos no projeto. Então, ela tem fins lucrativos, mudando um pouco essa perspectiva. A pauta do empreendedorismo é extremamente importante para ajudar a organização social como atrair o segundo setor. Não dá para fazer transformação social sozinho. Não dá para ocupar só o primeiro ou o segundo setores. Hoje, o Incanto se coloca como uma ponte para as empresas que têm estratégias do ESG, porque nós estamos ali na ponta, temos expertise da favela. É trazer essa empresa para perto como responsabilidade dela também.

Na sua visão, qual é o futuro do empreendedorismo social no Brasil?

Cada vez mais organizações do terceiro setor vão entrar no modelo corporativo e de impacto de resultados. Organizações filantrópicas que não adotarem gestão, indicadores, metas, governança, transparência vão acabar ficando para trás. Esse é um caminho sem volta. Quanto mais organizações conseguirem inovar, trazendo tecnologias sociais para dentro do seu negócio, mais resultados vão conseguir gerar e mais sucesso vão ter.

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