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Após dois anos, caso Marielle ainda tem lacunas; veja perguntas e respostas

Acusados de serem os executores do crime estão presos e vão a júri popular, mas mandantes não foram identificados

Foto do author Roberta Jansen
Por Roberta Jansen
Atualização:

RIO - Dois anos depois do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, no Rio, perguntas cruciais sobre o caso seguem sem respostas. O policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz foram presos há um ano, acusados de serem os executores do crime – eles negam –, mas os mandantes não foram identificados. Lessa e Queiroz devem ser submetidos a júri popular este ano.

Vereadora do PSOL e motorista Anderson Gomes foram assassinados no Rio Foto: Wilton Júnior / Estadão

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As principais linhas de investigação foram sendo descartadas sem que outras tenham vindo a público. Como o caso é mantido sob segredo de Justiça, pontos básicos do crime, como a motivação do assassinato, continuam desconhecidos. Ainda nestes dois anos, acusações graves foram feitas à equipe de investigação da Polícia Civil – que receberia propina de milicianos – e uma “investigação da investigação” chegou a ser instaurada pela Polícia Federal. Os resultados das apurações nunca foram apresentados. Abaixo, veja perguntas e respostas sobre o caso:

1) Quem mandou matar a vereadora Marielle Franco?

Embora dois suspeitos de serem os executores do crime (Ronnie Lessa e Élcio Queiroz) tenham sido presos, ainda não há nenhuma pista sobre os mandantes do crime. Investigadores de Brasília citaram o nome do ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Domingos Brazão. Ele e sua família são apontados como integrantes de milícias da zona oeste do Rio. No entanto, investigações tocadas por autoridades fluminenses descartam a hipótese de que ele seja o mandante do crime. 

2) Qual foi o motivo do crime?

Não se sabe. Quando foi morta, Marielle tinha acabado de concluir o primeiro ano de seu primeiro mandato como vereadora. Parentes, amigos e companheiros de partido são unânimes em dizer que ela não estava sendo ameaçada. Uma hipótese investigada era de que a morte estaria relacionada à grilagem de terras na zona oeste do Rio. Outra era de que ela teria sido morta como “recado” ao deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), de quem era próxima. As relações de Marielle no PSOL também foram investigadas, bem como discussão dela com o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), de quem era vizinha de gabinete na Câmara Municipal.

3) No início das investigações foi dito que um segundo carro teria participado do crime. Isso foi descartado?

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Essa hipótese foi citada pela polícia na semana do crime, mas não voltou a ser detalhada. Não foram fornecidas informações sobre que modelo ou quem estaria no veículo.

4) Também foi divulgado que câmeras de segurança que poderiam ter registrado o momento do atentado estavam desligadas. Por ordem de quem? Por qual motivo?

As imagens do momento exato do crime seriam cruciais para a investigação. Até agora, no entanto, não se sabe o resultado da apuração sobre o desligamento das câmeras.

No Rio de Janeiro, manifestantes vão às ruas pedir justiça pela morte de Marielle Franco Foto: Pilar Olivares / Reuters

5) Perito da PF teria detectado fragmentos de impressões digitais em cápsulas de munição achadas no local do crime. Eles foram usados?

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Na época se afirmou que o fragmento era insuficiente para rastrear uma identidade, embora pudesse ser comparada a de eventuais suspeitos. Não foi revelado, porém, se o fragmento foi comparado às digitais dos presos nem qual teria sido o resultado.

6)Por que ainda não foi encontrada a arma do crime?

A polícia identificou a arma do crime como sendo uma submetralhadora de origem alemã HK MP5, de calibre 9 mm. Trata-se de uma arma de uso restrito no Brasil, usada apenas por forças especiais. Cinco submetralhadoras semelhantes teriam desaparecido do arsenal da Polícia Civil em 2011. A munição usada no crime, por sua vez, pertencia a um lote da Polícia Federal ligado a outros crimes e teria sido roubada na sede dos Correios na Paraíba. Dias após a divulgação da suspeita de roubo nos Correios, a estatal informou que não houve nenhum roubo de munição na Paraíba. Quatro pessoas, incluindo a mulher de Ronnie Lessa, foram presas em outubro do ano passado acusadas de ocultar provas do crime.

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A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos no dia 14 de março de 2018 no centro do Rio Foto: Mário Vasconcellos / CMRJ

7)A PF abriu uma “investigação da investigação” por suspeita de que haveria “interferências externas” na elucidação do crime. Qual o resultado dessa apuração?

A Polícia Civil do Rio, responsável pela investigação, foi acusada de receber propina da milícia e obstruir a resolução do crime, mas nenhum resultado foi divulgado sobre a “investigação da investigação”.

8)Qual era a relação de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz com os integrantes do Escritório do Crime?

O Escritório do Crime seria comandado pelo ex-PM Adriano da Nóbrega – que foi morto pela polícia na Bahia há pouco mais de 1 mês. Não foi revelado até que ponto a morte de Nóbrega estaria relacionada ao caso Marielle. Ele não era, portanto, suspeito de ser mandante ou executor do crime. O Escritório do Crime foi citado ao longo da apuração do caso e, por isso, Adriano foi classificado como “suspeito no Caso Marielle” quando morreu.

O policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos (à esquerda), e o ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz, de 46 (à direita), presos acusados de matar a vereadora Marielle Franco Foto: Polícia Civil / via AFP

9)Os suspeitos do caso tiveram acesso a informações da investigação?

No dia em que foram presos, Lessa e Queiroz já se preparavam para fugir, indicando que receberam informações sobre a prisão. Nóbrega também estava em fuga quando foi cercado pela PM da Bahia. É provável que eles tenham informantes, já que a milícia costuma ser composta por ex-policiais. 

10) O que diz a Promotoria do Rio dois anos após o crime?

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O Ministério Público do Rio informou na quinta-feira, 13, que mais de 200 pessoas já foram ouvidas. Investigadores do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) disseram que buscam os mandantes do crime com “checagens rigorosas de todas as informações obtidas que devem ser provadas tecnicamente”. Segundo o MP, há sete investigações paralelas à principal sobre o crime.

Correções

Texto alterado às 14h12 para acréscimo de informação sobre o suposto roubo de munição nos Correios da Paraíba (pergunta 6).

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