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Opinião|Chora tu primeiro!

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Atualização:

Quando a arte da oratória ainda contava com imensa legião de adeptos, costumava-se invocar o velho adágio de Horácio: “Se quiseres que eu chore, chora tu primeiro!”. Isso para recomendar aos oradores que se impregnassem da crença de que falariam bem sobre coisas boas.

Aos poucos, a voluptuosa arte da oração foi decaindo. Hoje, as sustentações orais nos Tribunais raras vezes são feitas por quem domine o dom da palavra. Há leituras monocórdicas, quando não tatibitate.

José Renato Nalini  Foto: Arquivo pessoal

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A mágica das tribunas vicejou na Igreja. Era no púlpito que brilhavam os persuasivos sedutores, cujas armas eram o adequado conhecimento do vernáculo, além da linguagem corporal e do jogo estratégico das expressões faciais.

Um grande pregador foi o franciscano Mont’Alverne. Sua cela era assiduamente frequentada por João Caetano, figura primacial do teatro indígena. Ali ele aprendia a arte de traduzir, em gestos, toda a escala das paixões humanas.

Um discípulo brilhante de Mont’Alverne foi o Arcipreste Joaquim Anselmo de Oliveira. Tanto aprendeu, que se tornou um dos maiores. O teatro de seus triunfos era, prioritariamente, a Sé de São Paulo. Quando prelecionou sobre um escravo a chorar uma lágrima, o fez com tão perfeito gestual que a assistência toda jurava ter visto a gota a deslizar pela face do elemento servil.

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O Arcipreste morava numa casa pequena e modesta, à rua do Carmo. Tantos eram os livros, espalhados por todos os lugares, que o Conselheiro Padre Pires da Motta julgava ver cobras em todas as salas e quartos da taciturna residência.

Uma das mais impetuosas ações do sacerdote Joaquim Anselmo de Oliveira era em favor dos escravos. Seus sermões eram a catilinária contra a escravidão, impregnados de ideais abolicionistas.

Foi vigário em Campinas durante seis anos e, numa de suas prédicas, exclamou que “os escravos não podiam ser considerados como máquinas de ferro ou de bronze – que, aliás, também se gastam e se tornam imprestáveis”.

Por isso conquistou ele a ira dos escravocratas. Estes simularam o furto de uma lâmpada de prata da Capela do Santíssimo Sacramento. Instaurou-se processo criminal e o Arcipreste Anselmo, pronunciado, submete-se ao Tribunal do Júri em Campinas.

Então ocorreu algo insólito. Conta a tradição que o vigário estava no banco dos réus, a aguardar seu julgamento, quando – de repente – na calma solene do Tribunal, começa a ressoar, plangentemente, o desesperado som de um sino. Todos estranharam.

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Não era sino do Fórum, onde funcionava o Júri. Os sons se repetem, incessantemente. O bimbalhar contínuo, formidável, faz com que se interrompa a sessão. Todos alarmados, espantados, alguns até aterrorizados.

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Todos correm na direção da Igreja Matriz, de onde vinham os descompassados sons. Chegam à porta do sineiro e nada avistam. Entram no tempo e, na escada de vinte degraus, que levava ao campanário, se defrontam com uma vaca. Estava solta no Largo da Matriz e, portas abertas, sobe os primeiros degraus e masca, furiosamente, a corda de um dos sinos. Essa a causa do ruído estentório, por coincidência no mesmo instante que o padre Anselmo, injustamente acusado por seus detratores, respondia ao pseudo furto do lampadário.

O povo não permitiu que o julgamento continuasse. Na tradição campineira, Deus se serviu do animal para que a injustiça não se perpetrasse contra Seu representante.

Quem contou a estória foi o Monsenhor Ezequias Galvão da Fontoura, que acrescentou um final. O Arcipreste se compenetrou dos sofrimentos, quantas vezes injustos, sofridos não só pelos escravos, mas também pelos encarcerados. E então, em Campinas, ia semanalmente levar aos presos a esperança numa frase, o consolo numa prática. Nunca improvisou. Com carinho se preparava. Estudava amoravelmente as palavras, as media, para que elas encorajassem os desgraçados. Aprendera a lição: “Se quiseres que eu chore, chora tu primeiro!”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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