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Opinião|Escrevo o que penso

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Esse deveria ser o lema do diplomata Manuel Oliveira Lima, cujas “Memórias”, que chama “estas minhas reminiscências”, não poupa ninguém. Como integrante do Itamarati, era considerado um dos maiores, ao lado de Rio Branco e de Joaquim Nabuco. Nem por isso deixou de fustigá-los quando entendeu por bem fazê-lo.

José Renato Nalini Foto: Alex Silva/Estadão

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Foi bastante cruel em relação a Francisco Glicério, um dos próceres da República. Chega a atribuir a ele a tentativa de assassinar Prudente de Moraes. Fala sobre a “famosa interinidade de que resultou o atentado contra Prudente de Moraes, no qual é convicção minha que estava implicado o hábil e corrupto político Francisco Glicério”.

Quanto a Joaquim Nabuco, diz que a amizade entre eles foi baseada nos favores que prestou e que teria saldo credor, diante da desproporção entre préstimos e gentilezas de parte a parte. Nabuco não gostava de ser criticado e começou a espaçar a correspondência entre ambos. Acreditava que Oliveira Lima “parecia empenhado em demolir quanto ele idealizava”. A correspondência cessou e também a amizade. Narra Oliveira Lima: “Nabuco ficou tão enraivecido com uma carta minha ao Jornal do Recife sobre um editorial da mesma folha apontando para as nossas ideias divergentes na questão do panamericanismo, que chegou a solicitar de Rio Branco a minha disponibilidade pelas alusões que eu fazia à sua incoerência. Rio Branco esquivou-se dizendo-lhe que fizesse oficialmente o pedido, abonando suas razões para leva-las ao Presidente. Nabuco recuou. ...A minha pequena vingança foi traduzir o título do último livro de Nabuco, livro de declínio – “Pensées detachées”, por “Pensamentos desconexos”.

Até mesmo o Presidente americano Theodore Roosevelt não escapou das críticas de Oliveira Lima. Seu testemunho é sarcástico: chama Roosevelt de “fetiche”. Textualmente: “Nunca tive Roosevelt por um grande homem como o mundo acreditou, sim como um bom patriota para quem a maior grandeza do seu país era o objetivo da sua ação extrema e espantosa, não recuando para obtê-la, se se lhe deparavam favoráveis as circunstâncias”.

Oliveira Lima escreveu a Nabuco “que se o meio nos Estados Unidos não fosse outro e permitisse desmandos do poder dessa natureza, Roosevelt seria tão ditador quanto o era Castro”. E continua: “Theodoro I – como eu o tratava em artigos para O Estado de São Paulo, com que Rio Branco se dizia escandalizado – não praticava arbitrariedades contra a vida ou contra a propriedade legítima do cidadão, mas governava com mão mais pesada do que a de qualquer soberano constitucional e julgo que o Kaiser alemão, tão acusado de autocrata, invejaria a amplitude do seu poder”.

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Via Roosevelt como alguém muito sagaz e hábil para seduzir o populacho: “Da sua educação de politician de uma cidade tão politicamente corrupta quanto Nova Iorque, não derivou Roosevelt o gosto pelas trapaças desonrosas, mas uma grande esperteza no promover o seu prestígio pessoal, sabendo como impressionar o seu povo e impressionar o estrangeiro pelas suas proezas de rough rider, de domador de potros, de caçador de feras, por fim de explorador de terras virgens, numa exibição de atividade física simultânea com a atividade política e social que lhe custou a vida antes de chegar a velho”.

Entretanto, Roosevelt era gentil com Oliveira Lima. Convidou-o para a conferência na Real Sociedade de Geografia, em Londres, oportunidade em que ele – Roosevelt – “muito lealmente realçou o papel de Rondon na exploração que juntos fizeram e em que, nas suas palavras, o famoso rio da Dúvida não foi descoberto e sim geograficamente localizado”.

Isso não foi suficiente para que Oliveira Lima o elogiasse: “Roosevelt era um apressado na sua produção literária e nem tinha grande educação humanista, nem era um estilista, como em geral não o são os americanos, prolixos e desiguais na forma, com altos e baixos de ideias e de imagens...Como orador, berrava demais, gesticulava demais, dava demasiados murros com a mão direita sobre a esquerda espalmada, mostrava demasiado a possante dentadura, fazia demasiados trejeitos, armava demasiado efeito”. O efeito de seus discursos era desastroso e sua aparição causava estranheza, “quase grotesca, em contraste com a viva popularidade que acompanhava o seu nome e da curiosidade que despertava a sua pessoa”.

Todos mortos, e há muito tempo, estas expressões constituem mera curiosidade. Mas é interessante constatar que a fama nem sempre vem acompanhada de encômios. Mesmo por que, de perto ninguém é normal.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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