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Opinião|História mal contada

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Atualização:

Daqui a pouco chegaremos a 2024. Hora de celebrar a Revolução de 1924 e de fazer justiça aos que dela participaram. O livro “1924 – Episódios da Revolução de São Paulo”, de Antônio dos Santos Figueiredo, oferece interessante material de reflexão.

José Renato Nalini Foto: Werther Santana/Estadão

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Ele escreve: “Pretenderam imprimir um significado mesquinho à revolução. Até 4 de julho de 1924, dizia-se que um grupo de oficiais do Exército detestava o Senhor Arthur Bernardes, e conspirava para estabelecer uma ditadura. Mas, tanto no movimento de 1922, como no de 1924, verificou-se que não existiam somente, no Exército, aqueles tarimbeiros positivistas, que estiveram ao serviço de presidentes ineptos, e foram causa direta de todas as crises da República”.

Salienta a participação da juventude à época: “Teve um papel saliente, nessas duas revoltas, a mocidade brasileira, que se sacrificou e morreu nas fortalezas e nas trincheiras. Não o fez, é claro, por um princípio. Envolveu-se nessas lutas por uma questão de brio. Ora, do brio ao ideal, a distância é curta”.

Severo em relação aos legalistas, comandados pelo insensível Marechal Setembrino de Carvalho, é grato aos moços: “Salvou-se apenas a juventude brasileira. Foi ela a desprendida e a heroica. Bem revelou, nestes tristes episódios, que a propaganda de Olavo Bilac, iniciada em 1917, calou no seu ânimo. O nacionalismo do poeta era inadmissível; mas veio demonstrar aos céticos, que os rapazes de hoje são sensíveis às exortações generosas e elevadas. Pode-se confiar neles de hoje para o futuro”.

Esses jovens estavam também no Exército: “No exército há elementos sadios, ainda indecisos, que serão aproveitados para belas obras purificadoras. Basta incutir-lhes no cérebro, as teorias que regem a fraternidade humana. No dia em que compreenderem a necessidade de reagir contra o materialismo de hoje, e nos milagres da vontade, a nação se conduzirá por outros roteiros”.

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Quanta mudança de mentalidade em um século! O que se pode dizer hoje em relação a Pátria, Patriotismo, sacrifício de uma vida em prol do Brasil?

Entretanto, em 1922, os “18 do Forte” deram a vida por uma causa. Verdadeiros mártires, a enfrentar milhares de soldados armados e poderosa artilharia. Em 1924, consequência de 1922, havia idêntico fervor por parte dos herdeiros da carnificina perpetrada pela República em Copacabana. Os revoltosos que estavam em São Paulo combatiam por uma boa causa. Defendiam a honra da nação. Enquanto a população pacífica da capital bandeirante sofria a sanha de vândalos oficiais.

Esse “amor à Pátria” sofreu mutações no decorrer das décadas. O “ame-o ou deixe-o” não empolgou aqueles que não estavam satisfeitos com o autoritarismo e com o maltrato à Constituição e aos direitos humanos. Tentar incuti-lo à infância escolar, mediante a disciplina “Educação Moral e Cívica” adquiriu conotação de adesão explícita à anomalia governamental.

Enquanto em 1922, 1924 e, poucos anos depois, em 1932, outro e muito mais nobre era o intuito dos que não hesitaram a sacrificar sua vida e lutaram para a redemocratização do Brasil.

Para estes é que o narrador de alguns dos episódios da Revolução de julho de 1924 reservou as palavras de “um filósofo contemporâneo”, cujo nome não explicitou em seu livro: “Todos os desastres não terão consequências, se a nossa vontade de triunfar persistir. A perseguição e a tortura não são bastante para esmagar um povo. Para dominá-lo, é preciso vencer a sua alma. Os povos invadidos pela Alemanha não viram enfraquecer a sua vontade. À submissão vergonhosa preferiram a morte. Esta energia é suficiente. Hoje, não há déspota, por mais forte, que vença uma nação que não quer obedecer. Napoleão fez uma experiência com a Espanha. Tomou cidades, venceu os seus Exércitos; mas, apesar de ser o maior capitão da História, não a submeteu jamais. O futuro depende (o nosso também), da duração da nossa vontade. “Vencer ou perecer, mas nunca ceder!” – eis o dilema. Nada resiste a uma vontade forte e contínua – nem a natureza, nem os homens, nem a fatalidade mesma”.

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Muito sangue ainda correria, principalmente em 1932. Era o que Antônio dos Santos Figueiredo chamava de “duelo entre o pundonor e a desonra, entre a lisura e a degradação”. Entendia ele haver-se vincado, de maneira solene, a incompatibilidade entre a nobreza do caráter e a hipocrisia malfazeja das oligarquias autoritárias. A História diria que essa luta não seria fácil.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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