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De inspetor de escola a ministro: quem é Benedito Gonçalves, relator da ação contra Bolsonaro no TSE

Magistrado será responsável pelo primeiro voto no julgamento que pode deixar o ex-presidente inelegível por oito anos

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Por Rayssa Motta
Atualização:
Ministro Benedito Goncalves começou a carreira na magistratura há 35 anos. Foto: LUCAS PRICKEN

Quem parou na última quinta-feira, 22, para ouvir o ministro Benedito Gonçalves apresentar, ao longo de duas horas, o relatório da ação que pode deixar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inelegível, provavelmente notou o cuidado com os detalhes. Ele rememorou com precisão todo o roteiro de tramitação do processo. A leitura foi apenas o preâmbulo de um julgamento histórico. O clímax é esperado na próxima semana, quando o ministro revelará seu voto, que tem centenas de páginas.

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Não é incomum ouvir de ministros que “processo não tem capa”, mas a dedicação de Benedito Gonçalves certamente tem relação com o peso do julgamento. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é sobre a conduta do ex-presidente, mas terá consequências políticas sobre o futuro do bolsonarismo e sobre a organização da direita no País.

Pessoas próximas ao ministro ouvidas pela reportagem do Estadão afirmam, no entanto, que a devoção ao trabalho é um traço característico de sua personalidade. Antes da entrar para a magistratura, Benedito Gonçalves foi inspetor de escolas, papiloscopista da Polícia Federal e delegado da Polícia Civil.

A carreira como magistrado só começou aos 34 anos, em 1988, quando foi aprovado em um concurso na Justiça Federal do Rio Grande do Sul. Foi com os gaúchos que aprendeu a apreciar a grapa, bebida destilada feita à base de uva.

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Dez anos mais tarde, voltou para o Rio de Janeiro, sua terra natal, ao tomar posse como juiz do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região. Foi promovido a desembargador na Corte, por merecimento, até que, em 2008, acabou indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde é o único negro entre 33 ministros. A cadeira que ocupa no TSE, desde novembro de 2021, é reservada a ministros oriundos do STJ.

Ao encontrar com Benedito Gonçalves, em uma cerimônia no TSE, em agosto do ano passado, Lula fez um afago no ministro – deu singelos tapinhas em sua face esquerda – em meio ao tumulto de repórteres que circundava o então ex-presidente.

Os dois se reencontraram na diplomação do petista, em dezembro de 2022. Foi Benedito Gonçalves quem conduziu Lula ao plenário do TSE. O gesto que faz parte da solenidade. Ao ser chamado por Alexandre de Moraes, presidente da Corte Eleitoral, para trazer o petista à mesa de autoridades, quebrou o protocolo e disse ao pé do ouvido do colega: “Missão dada é missão cumprida”.

Benedito Gonçalves é corregedor do TSE e relator da ação que pode deixar Bolsonaro inelegível. Foto: Gustavo Lima/STJ/Divulgação

A ação que pede a inelegibilidade de Bolsonaro já tramitava há dois meses no TSE quando chegou ao gabinete de Benedito Gonçalves, em outubro do ano passado, em meio aos processos herdados do acervo do ministro Mauro Campbell Marques, a quem sucedeu na Corregedoria da Justiça Eleitoral.

Cabe agora a Gonçalves dar o pontapé no julgamento que vai definir o destino de Bolsonaro. Como relator, ele é o primeiro a opinar. Se for condenado, o ex-presidente pode ficar fora das eleições até 2030.

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Além de diligente, o ministro é conhecido como uma pessoal cordial, inclusive com quem está abaixo na hierarquia, e de “sorriso largo”. Também é elogiado por tratar bem os advogados que procuram seu gabinete. O perfil jurídico é mais legista.

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Como até os homens mais detalhistas erram, Benedito Gonçalves se confundiu no plenário do TSE na última terça-feira sobre o ponto menos controverso. Na boca dele, o ex-presidente Jair virou ‘José’ Messias Bolsonaro.

Além da ação que atinge o ex-presidente, outro processo polêmico esteve recentemente sob suas rédeas: o que levou à cassação do ex-procurador Deltan Dallagnol. O julgamento fez com que voltassem a circular notícias a respeito de uma apuração administrativa sobre a relação do ministro com o ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro, um dos principais delatores da Lava Jato. O procedimento foi arquivado.

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