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Opinião|O relógio do velho oeste

convidado
Luis Cosme Pinto Foto: Arquivo pessoal

A frase não nasceu à toa. Foi pensada e repetida.

“Só os infelizes são pontuais.”

Soaria melhor se falasse ao contrário?

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“A pontualidade é a marca dos infelizes” ou ainda “O atraso comprova a felicidade.”

Hoje é difícil apontar qual a mais despropositada, porém, em 1987, na mesa daquela pizzaria em Bauru, no Velho Oeste Paulista, ele teve certeza: “Só os infelizes são pontuais”, era uma potente frase de efeito.

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O jovem forasteiro esperava a convidada há 3 chopps e 2 cigarros. Era a noite do primeiro encontro.

A frase aliviaria o constrangimento da colega atrasada em meia hora e quebraria o gelo. Esse era o plano.

De costas pra porta, sentiu a presença dela antes da entrada. Em décimos de segundo, o perfume doce invadiu o salão, os saltos finos espetaram a madeira e junto com eles um tilintar de pulseiras que acompanhava o balanço dos quadris largos e fortes. A moça vistosa, enfim chegara. Sentou com a perna cruzada e a saia vermelha subiu alguns centímetros.

Ao ouvir a frase ensaiada, a moça entrou no assunto.

- Nunca tinha pensado nisso, explica melhor.

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- Quem se atrasa é porque tem convites, amigos com novidades pra contar, está terminando de ler um livro, acaba de chegar de viagem. Vida agitada, sabe?

- E o que não se atrasa?

- O pontual é pessoa de poucos amigos, vive na monotonia. Pô, se você só tem aquele encontro na semana, não tem porque se atrasar. Entendeu a relação do tempo com a satisfação pessoal?

A moça sorriu com a boa vontade dos otimistas e desistiu de contestar a inusitada teoria. A noite seguiu meio margherita, meio calabresa.

Saíram outras vezes, sempre como amigos. Dois jornalistas novatos, que depois de trabalhar na TV de Bauru, caminharam em outras direções.

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Dia desses, ele volta à cidade. Reúne amigos, escreve dedicatórias e mostra seu novo livro. Os antigos companheiros de redação espalham, a rádio entrevista, a TV divulga, o jornal avisa, surgem os convidados.

O dono do bar enche a geladeira, chama o violeiro, o cozinheiro e quando a luz apaga são três da manhã. Acabaram-se os livros e secaram as garrafas.

O escritor adiou a volta pra São Paulo. Queria visitar as próprias memórias: a república de tantas festas, o bar do Hélio de contas penduradas, o calçadão do comércio popular, a emissora da Bela Vista que acreditou em sua aventura de repórter.

É claro, que nesse tempo Bauru mudou muito, mas para ele a sensação é mais de 35 dias do que de 35 anos.

Relembra a noite passada. Entre os sessentões viu alegria e entusiasmo. Cabelos diminuíram, corpos mudaram, mas a sensação é que ninguém liga pra isso. É como se exposta ao mesmo espaço de tempo a distância entre eles não mudasse, como numa longa escada rolante. Ombro a ombro, com os anos passando ao lado.

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Perambula sem pressa nem horário na tarde escaldante do velho oeste paulista.

Tal qual a moça sem compromisso com o relógio.

Aquela moça atrasada e feliz.

Outubro será mês de férias pra mim. Volto em novembro. Até lá e obrigado pela leitura

Dedico essa crônica aos amigos e amigas de Bauru e, em especial, à Dulce Kernbeis

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*Luis Cosme Pinto é autor do livro de crônicas Birinaites, Catiripapos e Borogodó, da editora Kotter

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