‘Bolsonaro é impulsivo e irracional’, diz Marcos Cintra, candidato a vice-presidente do União Brasil

Ex-secretário da Receita Federal reclama que presidente interferiu no seu trabalho à frente do órgão e dos dribles feitos recentemente pelo governo no teto de gastos

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Por Lauriberto Pompeu
Atualização:

BRASÍLIA - Candidato a vice na chapa de Soraya Thronicke pelo União Brasil, o ex-secretário da Receita Federal Marcos Cintra não tem boas lembranças de quando estava no governo de Jair Bolsonaro (PL). Diz que o presidente atuou diretamente para demiti-lo em setembro de 2019 e agia de forma “impulsiva e irracional”. Ele também reclamou dos dribles feitos recentemente pelo governo no teto de gastos.

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“Lamento que as alterações estejam sendo feitas de maneira equivocada, caso a caso. Vê um problema nos precatórios, fura o teto, vê um problema no Auxílio Brasil, fura o teto”, disse Cintra ao Estadão, antes da entrevista de Bolsonaro ao Jornal Nacional, da TV Globo. Ao falar sobre os planos de governo de Bolsonaro, Lula e dos outros presidenciáveis, o ex-secretário os classificou de “documento burocrático formal onde todo mundo diz as mesmas coisas” e que os textos são “promessas absolutamente vazias”.

Cintra admite que seu plano inicial era ser candidato a vice na chapa de Rodrigo Garcia ao governo de São Paulo, mas o tucano preferiu escolher o deputado Geninho Zuliani, também do União Brasil. “Eu estava dentro do partido me preparando, negociando isso, mas não deu certo para ser o candidato a vice-governador do Rodrigo Garcia em São Paulo. O caminho adotado foi outro e, na última hora, com o lançamento da senadora Soraya, com uma candidatura pura, eu fui convidado por ela, o que muito orgulhou muito”.

Marcos Cintra, Soraya Thronicke e Luciano Bivar, presidente do União Brasil Foto: Maik César/Divulgação

O ex-chefe da Receita Federal faz parte do grupo de WhatsApp de empresários que deram declarações a favor de um golpe caso Lula vença as eleições, caso revelado pelo site Metrópoles. Apesar de fazer parte do grupo, não foi divulgada nenhuma mensagem de Cintra concordando com as falas golpistas. Ele minimizou o conteúdo das conversas e disse que não devem ser levadas a sério. “Pessoas que sem qualquer influência ou qualquer participação na vida política brasileira são ameaçadas de prisão porque falaram: prefiro golpe do que o PT”.

A Polícia Federal (PF) cumpre nesta terça-feira, 23, mandados de busca e apreensão em endereços ligados a oito empresários bolsonaristas desse grupo de WhatsApp. A operação foi aberta por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a revelação das mensagens golpistas.

O que motivou o senhor a ser candidato a vice-presidente?

Começou com uma construção da terceira via, que não deu certo, depois continuou com o lançamento do Luciano Bivar candidato a presidente e, praticamente uma semana antes do prazo final, o lançamento da candidatura da senadora Soraya. O processo inteiro foi muito tumultuado. Eu estava dentro do partido me preparando, negociando isso, mas não deu certo, para ser o candidato a vice-governador do Rodrigo Garcia em São Paulo. O caminho adotado foi outro. Na última hora, com o lançamento da senadora Soraya, com uma candidatura pura, eu fui convidado por ela, o que me orgulhou muito. Não estava realmente nos meus planos, vice não é um cargo que ninguém pleiteia, é um cargo que em geral você é convidado. É uma missão que eu resolvi aceitar pelo partido e pelos projetos que nós temos. Foi uma candidatura pensada de última hora infelizmente, ainda que a qualidade da candidata seja muito boa, os nossos projetos continuam sendo os mesmos, são os projetos do partido. Eu me sinto muito satisfeito de ter sido convidado e aceitei mais esse desafio.

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Geninho Zuliani foi uma escolha pessoal de Rodrigo Garcia para ser candidato a vice-governador?

É um processo que envolveu não só uma certa negociação interna do partido com as forças do União aqui em São Paulo, mas também a vontade do próprio governador. Eu fui convencido e acredito nisso de que foi uma preferência dele, por força da ligação que já tem com o deputado Geninho. Vamos continuar, bola para frente, mas não sei exatamente qual foi o processo que levou a essa escolha.

Lula e Bolsonaro prometeram que manterão o auxílio de R$ 600. Um eventual governo de Soraya e do senhor também manteria?

As discussões hoje dos projetos de governo estão sendo muito rasas, muitos superficiais. Os planos são uma exigência do TSE, acaba gerando um documento burocrático formal onde todo mundo diz as mesmas coisas, que quer uma reforma tributária que simplifique, que redistribua renda, que quer melhorar a saúde, que vai criar creches, que vai melhorar a educação, aumentar investimentos, tudo que todo mundo sabe.

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Estamos passando por um momento onde a crise é mundial e ela foi agravada por uma guerra universal, que foi a covid. Abalou o alicerce da sociedade e principalmente aqueles setores mais subdesenvolvidos, mais suscetíveis de sofrerem os impactos. Há necessidade de fazer um auxílio para a população mais carente? Sim, somos a favor do princípio. Agora, será que devemos começar a fazer um trabalho assistencial pontual? Por exemplo, dá um auxílio para determinadas famílias de R$ 600, depois dar o vale gás e depois dar uma outro privilégio qualquer a outro setor individualmente? Ou devemos trabalhar um projeto abrangente que estima uma renda básica, renda fundamental, e que para nós é muito importante, que chamamos de imposto de renda negativo. Nada mais é do que uma renda mínima a todos aqueles que não atingem um patamar desejado. Você tem todos esses projetos pontuais, que têm um custo burocrático gigantesco. A resposta é sim, vamos continuar com o Auxílio Brasil, porém queremos um projeto muito mais amplo, que realmente faça uma modificação sistemática na forma como se ajuda os setores mais carentes da sociedade. Imposto de Renda negativo significa o seguinte: vai ter determinado valor, quem ganha acima disso, paga imposto, e quem ganha abaixo, recebe.

Qual é o valor que vai determinar quem paga e recebe imposto?

Não temos ainda um valor específico, não chegamos a orçar. Ele garante no mínimo a continuação do atual Auxílio Brasil. Vai ser daí para cima.

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Quando era chefe da Receita Federal houve uma tentativa de voltar com um imposto sobre transações financeiras. Caso a chapa do União Brasil seja eleita, também pretende retornar com o imposto? Não seria repetir a CPMF, que é muito rejeitada?

Não tem nada a ver com CPMF. É um bicho completamente diferente. O que nós pretendemos com o Imposto Único Federal? Juntar todos os tributos federais em apenas um, mantendo o imposto de renda, não podemos por enquanto abrir mão dele, não temos o imposto de renda, mas todos os outros serão unificados sobre o imposto sobre pagamentos. Não tem nada a ver com CPMF, que foi um imposto bancário, veio para aumentar a carga tributária das pessoas. O nosso, pelo contrário, veio para reduzir a carga, substituir por outros impostos. Vai fazer com que a sociedade brasileira tenha maior poder aquisitivo. Temos estimativas e dados que mostram que haverá uma relação muito simplificativa na economia mantendo a arrecadação constante. Esse é o único projeto de reforma tributária que incorpora 30% do PIB que não paga imposto hoje. Ao começarem a pagar, os outros vão pagar menos. Quais são esses setores? A informalidade, o sonegador, aquele que faz planejamento tributário abusivo e a economia ilegal, o crime organizado, que hoje infelizmente no Brasil está representando uma força econômica muito forte. Na medida que eles comecem a contribuir, a carga tributária dos demais setores da economia poderá ser reduzida, com isso o assalariado vai ter grande aumento do poder aquisitivo, os preços vão cair e vamos ter justiça tributária.

Sempre que mencionado, esse imposto enfrenta grande resistência e nunca nem chega a ser analisado pelo Congresso. Vê margem para mudar isso e fazer o assunto ser discutido?

Qualquer reforma tributária não é bem aceita no Congresso. Essa não é só uma característica do imposto único, é da PEC 45, da PEC 110, do Simplifica Já e de todos os outros projetos que estão sendo apresentados nos últimos 30 anos. O que eu acho que faltou e vamos suprir essa falha agora, é explicar bem para a sociedade o que é o Imposto Único Federal. Essa é uma das razões pelas quais eu aceitei inclusive ser candidato a vice-presidente. Vamos ter uma exposição nacional, um partido que fez desse projeto o seu principal projeto. O principal projeto do União Brasil é o Imposto Único Federal. Na medida que nós tenhamos a possibilidade de explicar de maneira clara e transparente o que é esse projeto, tenho certeza que será aceito com muita facilidade.

O presidente Bolsonaro tentou interferir no trabalho da Receita Federal quando o senhor a comandava?

Eu estava fazendo um trabalho, o ministro Paulo Guedes conhece esse projeto do Imposto Único Federal, ele (Guedes) apoiou. A ideia dele era caminhar nessa direção, mas o presidente Bolsonaro caiu naquela conversa bem explorada ao longo dos anos, que é a volta da CPMF, não tem nada a ver com CPMF. Ele, com aquele temperamento impulsivo e irracional dele, achou que não. Eu acho que ele vai ser convencido no momento que tomar conhecimento de que é um projeto muito interessante. Lembro que eu tive uma conversa com ele e ele falou assim: ‘isso aí tudo bem, é um projeto bom, eu sei, mas convença o povo de que é bom, que eu topo’. Ele lê manchete de jornal e acha que é CPMF e CPMF é odiada. Não é.

Tanto bolsonaristas quanto petistas dizem que o teto de gastos precisa ser revisto. O senhor concorda?

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Ter uma âncora fiscal é importantíssimo. O teto de gastos cumpriu esse papel desde que ele foi instituído em 2016. Ele conteve a explosão de despesas previstas. Agora, ele precisa passar por alterações e é possível. Eu lamento que as alterações estejam sendo feitas de maneira equivocada, caso a caso. Vê um problema nos precatórios, fura o teto, vê um problema no auxílio brasil, fura o teto. Acho que existem maneiras de aperfeiçoar o mecanismo.

Como seria esse aperfeiçoamento?

Há necessidade de manutenção do teto de gastos. Agora, precisa diferenciar o que é gasto de custeio e gasto de investimento. Simplesmente manter um teto de gasto fixo, sabendo que as forças políticas pelos gastos de custeio são muito mais fortes que as forças políticas que querem mais investimentos e mais crescimento, o que acontece? O investimento desaparece e o gasto de custeio absorve praticamente todo o espaço disponível. Precisa garantir tetos de gastos setoriais para custeios, para investimentos e para outras eventuais despesas que precisariam ser respeitadas. Isso que está faltando, no geral tem que continuar existindo, mas eu faria esses aperfeiçoamentos.

Grande parte dos líderes do União Brasil procura se desassociar da eleição presidencial. Candidatos a governador em Goiás, na Bahia, Pernambuco, Ceará e em diversos outros Estados ignoram a existência da candidatura presidencial do partido. Não prejudica a campanha da Soraya e do senhor?

Infelizmente essa é uma característica de todos os partidos, todos têm rachaduras apoiando candidaturas diferentes. Aqueles que não têm as duas candidaturas claramente definidas, que é o presidente da República e o PT, todos passam por essa dificuldade e mal estar. Nossos partidos são verdadeiras confederações e em todos eles há grupos que apoiam um ou outro. Isso não quer dizer que o União não aceitou o desafio de lançar sua candidatura própria. Respeitando a visão de cada um dos governadores, dando a eles a liberdade de politicamente optarem por qualquer caminho, mas formalmente, estatutariamente e financeiramente, os recursos do partido serão alocados para a candidatura oficial. Infelizmente isso é verdade, todos os partidos são rachados e nós sofremos isso. Quem acredita que o governador, o prefeito, o deputado apoiando significa que ele hoje vai levar todo o grupo de seguidores acompanhando está redondamente enganado. Hoje a eleição é digital, o eleitor hoje está muito mais preparado e muito mais informado. De modo que essas divisões, essas bases regionais achando que o governador ou prefeito que dá, acho que estão muito enganados com isso. Vão ver no final que mesmo com o apoio ou a oposição de governadores e prefeitos, o eleitorado daquelas regiões tem voz própria, sabe pensar sozinho, não vão seguir como gado o que o governador ou prefeito faz. É um problema, o partido está dividido, mas que isso vai significar uma grande perda de eleitor onde poderia ter ganho, não acredito.

Em caso de segundo turno entre Lula e Bolsonaro, m quem o senhor votaria?

Eu só penso na candidatura da Soraya e vou trabalhar por ela. Se por acaso uma desgraça dessa acontecer, eu resolvo depois, de ter que optar entre um ou outro.

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O senhor faz parte do grupo de Whatsapp onde empresários dizem que preferem uma ditadura à volta do PT. Concorda com eles?

Ali não tem nenhuma conversa séria que implique qualquer coordenação de ações. São opiniões soltas, como se fosse uma conversa de clube. Realmente as conversas vão para todos os lados. Acompanhei aquela conversa, mas nada a ver, é observação inconsequente, nada como estão querendo fazer, dando a impressão de que há um grupo de empresários articulando ou se mobilizando por um golpe, não vi nada disso.

Estamos vivendo uma situação onde cada um tem sua justificativa, tanto para o bem quanto para o mal, estamos perdendo nossas liberdades fundamentais. É um exemplo rasteiro, sem nenhuma importância, quase anedótico, onde pessoas sem qualquer influência ou qualquer participação na vida política brasileira são ameaçados de prisão porque falaram: ‘prefiro golpe do que o PT’. Meu Deus do céu.

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