Caso Marielle expõe rede de políticos e agentes públicos por trás do crime organizado; veja os alvos

Investigação revelou detalhes do funcionamento de uma rede de autoridades públicas por trás do crime praticado em 2018; entenda quem são e qual foi a participação dos envolvidos, segundo a PF

Foto do author Vinícius Valfré
Foto do author Rayanderson Guerra
Por Vinícius Valfré e Rayanderson Guerra
Atualização:

BRASÍLIA E RIO DE JANEIRO – A Polícia Federal (PF) anunciou neste domingo, 24, a conclusão da principal etapa da investigação sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A investigação revelou detalhes do funcionamento de uma rede de autoridades públicas por trás do crime praticado em 2018. Os envolvidos são integrantes da Câmara dos Deputados, da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.

Domingos Brazão, Chiquinho Brazão, Rivaldo Barbosa, Elcio Queiroz e Ronnie Lessa Foto: Marcos Arcoverde/Estadão; Mario Agra/Câmara dos Deputados; Marcos Arcoverde/Estadão; Reprodução/TJ-RJ; Divulgação/PCERJ

Entenda quem são e qual foi a participação dos envolvidos, segundo a PF:

Ronnie Lessa

Ronnie Lessa foi condenado pela Justiça Federal do Rio de Janeiro a seis anos de semiaberto por contrabando de arma de fogo Foto: Divulgação/PCERJ

Ex-sargento da PM do Rio de Janeiro, está preso desde março de 2019 por ser o principal suspeito de executar o crime. Ele fez acordo de colaboração premiada e confessou ter puxado o gatilho. A delação foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 19. Ele morava no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca. Considerado um exímio atirador, ele se envolveu com a contravenção do Rio, atuava como segurança de bicheiros e prestava serviços como matador de aluguel.

Élcio de Queiroz

Ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz é condenado a cinco anos de prisão Foto: Reprodução/TJ-RJ

Ex-PM do Rio, foi o primeiro envolvido no duplo homicídio a assumir a coparticipação no crime. Ele foi expulso da polícia nos idos de 2015 por fazer a segurança ilegal em uma casa de jogos de azar e depois se dedicou a tarefas à margem da lei. Depois de quatro anos preso, Queiroz decidiu falar. Em delação, confessou ter participado de todo o planejamento do crime e de ter dirigido o carro para Ronnie Lessa fazer os disparos.

Chiquinho Brazão

Deputado Chiquinho Brazão durante discussão e votação de propostas na Câmara em março de 2024 Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados

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Foi vereador do Rio de Janeiro por quatro mandatos. No último, dividia o plenário da Câmara Municipal com Marielle Franco. Foi eleito deputado federal em 2018 e reeleito em 2022. Hoje, está no União Brasil. Em outubro de 2023, licenciou-se para tomar posse como secretário especial de Ação Comunitária da prefeitura do Rio, na gestão do prefeito Eduardo Paes. A nomeação dele foi consequência de um acordo partidário. A passagem foi curta e terminou em fevereiro deste ano.

Segundo a PF, Chiquinho é um dos mandantes do crime e tinha vínculo com milicianos da zona oeste do Rio que tinham interesse na grilagem de terras para fins comerciais. O grupo da vereadora Marielle Franco se opunha à proposta e buscava dar finalidade social às áreas em disputa.

Domingos Brazão

Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio Foto: Divulgação/TCE-RJ

Irmão de Chiquinho Brazão, atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Tem uma longa trajetória na política fluminense, sempre com forte influência na zona oeste do Rio.

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Domingos e Chiquinho são apontados como mentores do crime, ao lado do delegado Rivaldo Barbosa. As investigações que resultaram na prisão do conselheiro apontaram “diversos indícios” do envolvimento dos dois irmãos, “em especial de Domingos”, com “atividades criminosas, incluindo-se nesse diapasão as relacionadas com milícias e grilagem de terras”.

No decorrer do inquérito, a polícia apontou que ações no sentido de “criar obstáculos à regular tramitação da elucidação dos fatos”.

Domingos Brazão conseguiu o primeiro mandato de vereador em 1996. Em 1999, foi eleito deputado estadual pela primeira vez e acumulou mandatos até 2015, quando foi escolhido pelos demais deputados para a cadeira de conselheiro do TCE, um cargo vitalício. A nomeação dele foi feita pelo então governador Luiz Fernando Pezão.

Rivaldo Barbosa

Delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, na sede da Polícia Federal Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Delegado, assumiu a chefia da Polícia Civil do Rio na véspera do crime. No dia seguinte, recebeu as famílias das vítimas, solidarizou-se com elas e afirmou que solucionar o caso seria “questão de honra”.

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Segundo o inquérito, ele planejou o crime e depois atuou para atrapalhar as investigações. “O crime foi idealizado pelos dois irmãos (Chiquinho e Domingos) e meticulosamente planejado por Rivaldo”, diz o relatório. “Apesar de não ter o idealizado, ele foi o responsável por ter o controle do domínio final do fato, ao ter total ingerência sobre as mazelas inerentes à marcha da execução, sobretudo, com a imposição de condições e exigências.”

A investigação também apontou relação direta do delegado com o crime organizado. Ele recebia “vantagens indevidas da contravenção para não investigar e não deixar investigar os homicídios por eles praticados” quando chefiava a Delegacia de Homicídios. Com os pagamentos feitos por bicheiros, segundo a PF, ele aumentou o patrimônio e comprou imóveis.

Érika Andrade de Almeida Araújo

Advogada, é mulher do delegado Rivaldo Barbosa. A PF diz que ela não tem participação direta nos homicídios, mas movimentava e lavava o dinheiro sujo recebido pelo marido por meio de uma empresa de consultoria empresarial.

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Entre junho de 2016 e junho de 2018, houve uma movimentação a crédito de R$ 1.072.598,00 e a débito de R$ 1.141.159,00 nas contas da empresa. Os valores correspondem a mais que o dobro do faturamento esperado no período, de R$ 480 mil. Do montante sacado das contas, R$ 760.659,30 foram sacados em espécie, cerca de 70% das operações a débito.

Giniton Lages

Giniton Lages impediu que investigação chegasse aos verdadeiros mandantes do assassinato, segundo a PGR Foto: @ginolages via X (antigo Twitter)

Foi o primeiro delegado designado para investigar o assassinato, na Delegacia de Homicídios da Capital, nomeado por Rivaldo Barbosa, de quem gozava de estrita confiança. Foi alvo de busca e apreensão por suspeitas de atrapalhar as investigações. Também teve o afastamento da Polícia Civil do Rio de Janeiro decreto.

Segundo a investigação, Giniton Lages atuou depois dos crimes para “embaraçar as investigações e proteger os seus mandantes e executores materiais”.

Em 2022, lançou o livro “Quem Matou Marielle?”, no qual diz que “se apaixonou” pela atuação da vereadora.

Marco Antônio de Barros Pinto

Comissário da Polícia Civil do Rio de Janeiro, ele atuou com Giniton Lages e Rivaldo Barbosa para atrapalhar as investigações. De acordo com a investigação, Marco Antônio e Giniton Lages “foram fundamentais para o sucesso da empreitada que garantiu a impunidade do crime até os dias atuais”, porque os dois eram os responsáveis por atuar na chamada “hora de ouro”, o período logo após o crime considerado fundamental para a investigação.

Robson Calixto, o Peixe

Foi assessor de Domingos Brazão na Assembleia Legislativa do Rio e atuava como auxiliar dele no Tribunal de Contas. A investigação aponta que ele “funcionou como intermediário das conexões entre os executores dos delitos e os respectivos mandantes”. Não foi preso preventivamente, mas foi alvo de outras medidas, como a proibição de manter contato com investigados e a obrigação de usar tornozeleira eletrônica.

Edmilson Oliveira, o Macalé

Ex-policial militar Edmilson da Silva de Oliveira Foto: Polícia Civil

Edmilson da Silva de Oliveira, conhecido como Macalé, era sargento reformado da Polícia Militar e teria intermediado a contratação do ex-PM Ronnie Lessa para matar Marielle. Suspeito de ter ligação com a contravenção no Rio de Janeiro, o policial foi morto a tiros, aos 54 anos, em 2021, na zona oeste da capital fluminense. De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), Macalé participou ativamente do monitoramento de Marielle nos meses que antecederam o assassinato. O objetivo era rastrear os passos da parlamentar para definir quando Lessa executaria o crime.

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Ele também teria sido responsável por entregar o carro usado na execução, um Cobalt prata, aos comparsas Ronniel Lessa e o ex-bombeiro Maxwell Simões, o Suel, preso em operação da Polícia Federal no dia 24 de julho.

Maxwell Simões Corrêa, o Suel

Ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa, o Suel, foi preso em julho de 2023 Foto: Reprodução

Ex-bombeiro, Maxwell Simões Correa, conhecido como Suel, foi preso, em julho de 2023, acusado de participar do monitoramento de Marielle Franco, com “apoio logístico” aos executores do crime. De acordo com a PF, Maxell teria encaminhado o veículo utilizado no crime a um desmanche na zona norte do Rio e ajudado a ocultar armas de fogo de uso restrito e acessórios pertencentes a Ronnie Lessa.

José Carlos Roque Barboza

Citado como chefe da segurança do contraventor Bernardo Bello, policial militar reformado José Carlos Roque Barboza teria fornecido o carro usado por Ronnie Lessa e Élcio Queiroz para matar Marielle e Anderson. Segundo a delação de Élcio Queiroz, Barboza teria intermediado os primeiros encontros entre Ronnie Lessa e Bernardo Bello.

Edilson Barbosa dos Santos, o Orelha

Edilson Barbosa dos Santos, conhecido como Orelha, foi o mecânico acionado por Suel para se livrar do veículo usado no assassinato de Marielle e Anderson. De acordo com Élcio Queiroz, Orelha tinha uma agência de automóveis e já tinha sido dono de um ferro velho, logo saberia como se livrar do Cobalt prata. Ele foi preso em fevereiro deste ano.

Denis Lessa, irmão de Ronnie Lessa

É acusado de ter recebido os materiais usados no assassinato (arma do crime, touca, casaco e silenciador) no dia da execução. Segundo Élcio Queiroz, Ronnie Lessa teria entregado ao irmão, na casa de sua mãe, uma bolsa que continha a arma usada no crime, assim como o casaco usado por Lessa na noite do crime e outros “apetrechos” utilizados no momento dos disparos.

João Paulo Viana dos Santos Soares, o Gato do Mato

João Paulo Viana dos Santos Soares e a mulher, Alessandra da Silva Farizote, são suspeitos de terem recebido a arma usada por Ronnie Lessa no crime, uma submetralhadora MP5. Em delação, Élcio Queiroz diz que Ronnie e João Paulo tinham uma relação próxima de confiança e já foram sócios.

Mauricinho e Jomarzinho

A PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra Jomar Duarte Bittencourt Junior, o “Jomarzinho”, e Maurício da Conceição dos Santos Júnior, o “Mauricinho”, em julho do ano passado. Eles são acusados de vazar informações e alertar Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, por mensagens eletrônicas, sobre uma operação da Polícia Federal, em 2019. Jomarzinho é filho de um delegado aposentado da Polícia Federal, Jomar Bittencourt.

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