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Opinião|A ‘fé' que conduziu golpistas ao 8/1 como órfãos de Bolsonaro e segue como aviso a Lula em 2024

Julgamentos no STF reúnem fotos, vídeos e mensagens e expõem o pensamento extremista que não queria ver Lula no Planalto e considera o petista uma ameaça ao País

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Foto do author Francisco Leali

O ano vai terminando com mais uma leva de extremistas na antessala da condenação no Supremo Tribunal Federal (STF). O grupo de 29 pessoas reúne uma pequena amostra de como a política se apropriou da fé para conduzir a marcha dos insensatos até a Praça dos Três Poderes e depredar o que havia pela frente. Os processos estão recheados de registros feitos pelos próprios golpistas em seus celulares. Servem como indicador de como foi a rebelião dos órfãos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Também estão carregados de simbolismo sobre o pensamento de uma parcela da população que não engoliu a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e segue sendo um público para quem os ouvidos estão fechados às ações da gestão petista no governo federal.

Jesse Lane, Sipriano de Oliveira, Edilson da Silva e Eric Kobayashi são nomes desconhecidos encontrados no rol de processos que tramitam no STF. Os quatro fazem parte da leva de 29 que começou a ser julgada no plenário virtual da Corte no dia 15 de dezembro. Por conta do recesso, só saberão a sentença no início de fevereiro. A eles, o relator do processo, ministro Alexandre de Moraes já propôs penas de 14 a 17 anos de prisão.

Eric Kobayashi gravando vídeo enquanto o STF era depredado no 8 de janeiro Foto: Reprodução / Estadão

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Os votos de Moraes reproduzem uma acusação comum de violação do Estado democrático e depredação ao patrimônio público. Como provas para a cadeia que lhes quer impor, o ministro incluiu laudos produzidos pela Polícia Federal a partir do conteúdo encontrado nos celulares dos próprios réus. A estratégia já foi usada em outros processos que levaram à condenação de extremistas pelo STF.

Para além de comprovar que os acusados estavam presentes e participaram da barbárie do 8 de janeiro, os conteúdos dos aparelhos de telefone exibem uma versão deturpada da fé. A crença cega no discurso político bolsonarista que estimulou um levante militar com o empurrãozinho dos “patriotas” para redimir o País invadindo Congresso, Planalto e STF. Gente que via e, certamente ainda vê, Lula como um “anticristo”.

Eric Kobayashi, que ficou acampado no QG do Exército em Brasília, gravou vídeos mostrando o plenário do Supremo sendo depredado. Depois correu para o Planalto, onde mais tarde foi preso. Ali, disse que se ajoelhou junto com os demais e nada fez de errado. Apenas estava participando do que chamou de “movimento em prol da nação”.

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Edilson da Silva, réu no STF, aparece em vídeo que ele mesmo gravou no dia 8 de janeiro dizendo: "tomamos o poder" Foto: Reprodução /Estadão

Também acampado no QG, Edilson da Silva pegou seu celular e gravou um vídeo ainda no dia 7 de janeiro. Mandou seu recado: ”Galera, não quero abrir esse vídeo chamando vocês de patriota, como eu sempre o faço... Mas hoje eu quero referir a vocês como Brasil (...) aquele que vem para a guerra... aquele que veio para Brasília para fazer a diferença... portanto, estamos hoje aqui no QG nos preparando para amanhã cedo ir para o Congresso e derrubar as fronteiras... derrubar aquelas paredes... entrar e tomar aquilo... tomar aquilo que sempre foi nosso... e o comunismo satanista tem tentado roubar de nós”.

A última frase é a pitada pseudo-religiosa que associa o inimigo ao demônio. O inimigo era Lula, empossado presidente. Não por acaso, o petista foi alvo da pregação de boa parte dos pastores evangélicos mais simpáticos a Bolsonaro. Em todas as pesquisas de intenção de voto, era sempre essa parcela da população onde Lula tinha o pior desempenho e seu adversário o melhor.

No final deste ano, numa espécie de discurso motivador para os militantes do PT, o presidente advertiu que o partido não consegue falar com os evangélicos. Mesmo tendo um ou outro parlamentar egresso de igrejas, os petistas e seu governo ainda não sabem como falar aos crentes.

Réu no STF, Edilson da Silva foi identificado pela PF nas imagens das câmeras do Planalto Foto: Reprodução/ Estadão

No 8 de janeiro, Edilson fez novo vídeo. Exultante, declara na frente do Congresso: “tomamos o poder”. Ele e outros réus devem ir para cadeia por ordem do STF. Pode-se dizer que fazem parte do contingente mais eufórico que perdeu-se na disputa entre bolsonaristas e petistas. Outros réus dessa última leva repetiram na frente de um juiz designado por Moraes que entraram nos prédios públicos para “orar pelo País”. O acusado em posição de mero devoto preferiu não revelar seu ódio ao resultado das urnas e aos petistas que assumiram o poder federal.

Outro dos réus é Nelson da Costa. Moraes indicou para ele 17 anos de prisão. No dia do depoimento, o bolsonarista jurou não ter participado de atos de vandalismo ou depredação. Em 8 de janeiro, foi detido no plenário do Senado. No seu celular foram encontrados pela Polícia Federal fotos e vídeos. Às 13h daquele domingo, ainda no QG do Exército, anunciou: “a resistência começou, o povo brasileiro vai lutar pela liberdade e contra o governo tirano”. Torceu ainda por uma intervenção militar porque ”um bandido subiu a rampa do Planalto”. De dentro do Congresso, prometeu que só sairia dali “guerreando”.

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O espírito belicoso, cada vez mais comum dentro e fora do Congresso, é o mesmo que levou Nelson da Costa e tantos outros ao ato golpista. No 2024 que está para chegar, novamente teremos embate eleitoral. Lula já se preocupa com a parcela da população que não o quis com a faixa presidencial. Mas os gestos concretos de seu governo ainda não estão claros para essa gente. Mesmo que pareçam não ouvir nada que venha da boca do petista, cabe ao presidente fazer o primeiro gesto, como quem abre a porta da casa para receber o visitante que não se dá com o anfitrião.

Opinião por Francisco Leali

Coordenador na Sucursal do Estadão em Brasília. Jornalista, Mestre em Comunicação e pesquisador especializado em transparência pública. Escreve às sextas-feiras.

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