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Vereador do PT diz ter assinado sem querer pedido para criar CPI contra padre Júlio Lancellotti

Manoel del Rio afirma que no dia assinou inúmeros papéis e acabou também incluindo assinatura nesse por ‘equívoco’; parlamentar solicita retirada de seu nome do documento de abertura da investigação, pois ‘não concorda com objeto do pedido’

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Por Alex Braga
Atualização:

O vereador de São Paulo Manoel del Rio (PT) enviou ao comando da Câmara Municipal de São Paulo, nesta sexta-feira, 5, um requerimento solicitando a retirada de sua assinatura do pedido de abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, que deve ter por foco de investigação os trabalhos do padre Júlio Lancellotti. No documento, o petista disse que se “equivocou” e solicita a retirada de seu nome, pois “não concordo com o objeto do pedido”. Segundo ele, isso se deu pelo volume de documentos que assinou no mesmo dia.

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“Informo que assinei para encaminhamento vários projetos de leis, os quais por força regimental serão submetidos a votação pelo plenário da Casa, porém entre esses projetos, acabei assinando de forma equivocada também o apoiamento de encaminhamento da referida CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito, com a finalidade de investigar as Organizações Não Governamentais (ONGS) que fornecem alimentos, utensílios para uso de substâncias ilícitas e tratamento aos grupos de usuários que frequentam a região da Cracolândia, conforme RDP –34/2023, do vereador Rubinho Nunes”, justificou-se Manoel del Rio ao comando da Casa.

“Pese a assinatura no pedido apenas de apoiamento não quer dizer e tampouco garante o voto favorável em plenário, peço por gentileza que seja tornado SEM EFEITO a minha assinatura”, escreveu ele no requerimento.

Vereador Manoel Del Rio (PT) alegou ter assinado por equívoco o pedido de instalação da CPI das ONGs Foto: Afonso Braga/Câmara de Vereadores de SP

Em suas redes sociais, antes de enviar o pedido de retirada de seu nome, o vereador chegou a publicar uma mensagem de apoio ao padre Julio Lancellotti por toda essa situação. Na postagem, Manoel afirmou que a investigação é “absurda” e trata-se de uma “perseguição”. O parlamentar é assessor jurídico da Frente de Luta por Moradia (FLM).

O Estadão tentou contato com Manoel del Rio, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço continua aberto para a manifestação do vereador.

Apoio do presidente e da Arquidiocese de SP

Sobre a possível abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal paulistana, a Arquidiocese de São Paulo defendeu o trabalho do padre Júlio Lancellotti e afirmou acompanhar com “perplexidade” as notícias que “colocam em dúvida” a conduta do sacerdote no serviço pastoral à população em situação de rua.

Em nota divulgada nesta quarta-feira, 3, a instituição afirmou que Lancellotti “exerce importante trabalho de coordenação, articulação e animação dos vários serviços pastorais voltados ao atendimento, acolhida e cuidado das pessoas em situação de rua na cidade”.

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Já o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), manifestou seu apoio ao padre Júlio Lancellotti. Em uma postagem nesta quinta-feira, 4, o petista afirmou que Lancellotti “dedica sua vida a seguir o exemplo de Jesus”, e, ainda, que seu trabalho é “essencial para dar algum amparo a quem mais precisa.”

Padre Júlio Lancellotti participa de diversas iniciativas para oferecer refeições e produtos a pessoas em situação de rua em São Paulo Foto: Márcio Fernandes/AE

CPI das ONGs

A CPI articulada na Câmara de São Paulo tem por objetivo investigar organizações não governamentais (ONGs) que atuam na Cracolândia, região central de São Paulo. O autor da proposta prevê que a comissão será instaurada em fevereiro, após o recesso parlamentar. Segundo ele, o padre Júlio Lancellotti será um dos principais alvos da CPI das ONGs. Contudo, além de Manoel del Rio, pelo menos outros quatro vereadores já pediram a retirada de seus nomes do requerimento, dizendo-se enganados pelo vereador Rubinho Nunes, autor da proposta. Com isso, a realização da CPI está ameaçada.

Rubinho Nunes acusa as organizações de promoverem uma “máfia da miséria”, que “explora os dependentes químicos do centro da capital”. Segundo ele, essas organizações recebem dinheiro público para distribuir alimentos, kit de higiene e itens para o uso de drogas, prática conhecida como política de redução de danos, à população em situação de rua, o que, argumenta ele, gera um “ciclo vicioso” no qual o usuário de crack não consegue largar o vício.

Em sua defesa, o padre Júlio Lancellotti afirma que se trata de uma ação legítima quando se instala uma CPI para investigar o uso de recursos públicos pelo terceiro setor. Ele acrescenta que não faz parte de nenhuma organização conveniada à Prefeitura de São Paulo, mas, sim, da Paróquia São Miguel Arcanjo.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

O sacerdote diz ainda que seus trabalhos estão vinculados à Ação Pastoral da Arquidiocese de São Paulo, que, por sua vez, “não se encontra vinculada, de nenhuma forma, as atividades que constituem o objetivo do requerimento aprovado para criação da CPI em questão”.

A Craco Resiste, um dos alvos do vereador, informou que não é uma ONG e sim um projeto de militância que atua na região da Cracolândia para reduzir danos a partir de vínculos criados por atividades culturais e de lazer. “Quem tenta lucrar com a miséria são esses homens brancos cheios de frases de efeito vazias que tentam usar a Cracolândia como vitrine para seus projetos pessoais. Não é o primeiro e sabemos que não será o último ataque desonesto contra A Craco Resiste”, diz a entidade em nota divulgada nas redes sociais. A reportagem não conseguiu contato com o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, conhecida como Bompar, também mencionada por Rubinho.

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