Ação reduz Cracolândia, que resiste fragmentada

Obras, desapropriações e demolições avançam, só que usuários e moradores vivem clima de incerteza

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Por Felipe Resk
6 min de leitura
Na Júlio Prestes, tendas estão dispersas Foto: Daniel Teixeira/Estadão

SÃO PAULO - Um ano após ser alvo de uma megaoperação policial, a Cracolândia resiste, com o fluxo espalhado pelo centro de São Paulo. No “quadrilátero da droga”, porém, o cenário mudou: usuários dividem território com espigões residenciais de 17 andares, recém-construídos. Com obras, desapropriações e demolições em andamento, frequentadores e moradores vivem clima de incerteza – e o acirramento da tensão tem provocado conflitos com guardas-civis e policiais, e até invasões nos novos prédios.

Comparado ao cenário de 2017, o fluxo “pulou” uma quadra e a maioria dos dependentes químicos se concentra no cruzamento da Rua Helvétia com a Alameda Barão de Piracicaba. Lá, usuários de droga aproveitam os tapumes que os separam das obras do Complexo Júlio Prestes, no antigo terreno dos bombeiros, para pendurar cordões, como se fosse um varal, e tentam içar tendas. São entre 400 e 800, a depender do horário, segundo cálculos da Prefeitura. Em 2017, eram 1,7 mil.

“A Cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais”, declarou o então prefeito João Doria (PSDB), na época da operação. “A estrutura física da Cracolândia, como existiu por mais de 20 anos, nos quarteirões entre a Helvétia e a Alameda Dino Bueno, de fato acabou no dia 21 de maio com a ação do Projeto Redenção”, disse nesta quinta-feira, 17, em nota ao Estado.

+ Para lembrar: É o fim da Cracolândia? 

Comparado ao cenário de 2017, o fluxo “pulou” uma quadra e a maioria dos dependentes químicos se concentra no cruzamento da Rua Helvétia com a Alameda Barão de Piracicaba Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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É possível encontrar usuários fumando livremente na Rua Cleveland, na Dino Bueno e nas imediações do Largo Coração de Jesus. “Como querem que o pessoal venha morar nos prédios, se o fluxo está na porta?”, indaga Vivian Müller, de 37 anos, que há cinco vive em uma pensão da Cracolândia, mas está de mudança para Guarulhos, na Grande São Paulo, por causa das desapropriações. A Parceria Público-Privada (PPP) da Habitação deu prioridade a quem trabalha no centro. “Todas as famílias estão indignadas porque vão ter de sair daqui.”

O acirramento da tensão tem provocado conflitos com guardas-civis e policiais Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Deitados em colchões e barracas, usuários se aglomeram na frente da Estação Pinacoteca. Concentrações menores e “flutuantes” tendem a ficar próximas de equipamentos assistenciais, como da Avenida Duque de Caxias e o da Rua Mauá. Também entrou no radar da polícia uma “migração” para a Favela do Moinho, no centro, de usuários que buscam droga e se acomodam perto da linha férrea. 

“A primeira dificuldade é abordagem, a criação de vinculo. No fluxo, é difícil. Quando está sozinho, é mais fácil”, diz o deputado federal Floriano Pesaro (PSDB), secretário estadual de Desenvolvimento Social em maio de 2017. Para a polícia, a fragmentação também ajuda. Quanto mais gente, maior risco de conflito em operações. 

Incerteza. Os governos correm com obras e processos de desapropriação. Na Avenida Rio Branco, uma placa do Estado informa que, em três anos, será entregue o Centro de Referência da Mulher, do Hospital Pérola Byington, onde retroescavadeiras trabalham. Segundo a Prefeitura, equipamentos prometidos – como uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e um Centro Educacional Unificado (CEU) – só serão construídos após as 3.683 moradias previstas na PPP da Habitação.

Três dos sete hotéis, que segundo a polícia serviam para armazenar e distribuir drogas, estão lacrados. No fluxo, usuários discutem o futuro da Cracolândia. “Vai ser guerra, irmão! Quando entregarem esses prédios, é que vão querer tirar a gente. Só que a Cracolândia é território nosso, tá ligado? A gente cai para cima”, diz um rapaz, de bicicleta e cachimbo na mão. 

“Tá maluco, vagabundo, é claro que vai acabar! Com o hospital aqui, cheio de mulher e criança, vai ficar fumando o quê?”, rebate um amigo. “O crime é inteligente, vai aparecer uma biqueira aqui e outra ali. É pegar e sair, tá ligado? Pega e vai fumar no Brás, no Campo Limpo”, diz.

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Nos últimos meses, a região tem registrado conflitos entre usuários e agentes de segurança: alguns evoluíram para arrastões no comércio. Eles ocorrem principalmente durante a limpeza (três vezes por dia) – ou no “rapa”, como dizem frequentadores. Mesmo os prédios do Complexo Julio Prestes chegaram a ser invadidos, depredados e saqueados, com prejuízo não informado. Parte do Complexo, a Praça Julio Prestes, perto do fluxo, foi inaugurada mas, por enquanto, só é frequentada por seguranças. Em nota, o Estado diz que o objetivo é que seja um “ponto de convivência da população”.

Para a Prefeitura, a limpeza serve para tentar manter o domínio sobre o território, o que inclui, ainda, proibir barracas e usar drones para filmar a Cracolândia. “Não é mais controle deles”, diz o secretário municipal da Segurança Urbana, José Roberto Oliveira. Na semana passada, o prefeito Bruno Covas (PSDB) entregou a revitalização da Praça Princesa Isabel, como parte do projeto de reurbanização. “Não podemos ainda comemorar o fim de uma área degradada como a Cracolândia, mas acho que cada vez mais a gente vem tendo pequenas conquistas.”

Droga chega em saco de pão e carrinho de bebê

Um senhor de mais de 70 anos caminha pela Cracolândia segurando um saco com cerca de 30 pães. Escondidas no miolo, os policiais encontram várias pedras de crack. Com o enrijecimento do cerco policial que resultou na prisão de mais de 1,2 mil pessoas em um ano, traficantes têm recorrido à criatividade para abastecer o fluxo. Para driblar abordagens, também aliciam usuários a atuarem como “mula”, ou seja, transportando droga.

Segundo a Polícia Civil, a maioria do crack que chega à região é fabricada no exterior, principalmente em laboratórios do Paraguai onde há forte presença do Primeiro Comando da Capital (PCC), e tem no Mato Grosso uma das portas de entrada. No Brasil, o transporte da droga é feito por vias terrestres, com veículos que são trocados a cada nova operação para dificultar o monitoramento da polícia.

Na cidade de São Paulo, o crack é armazenado em entrepostos da zona leste e na Favela do Moinho, que fica no centro, a pouco mais de um quilômetro de distância da Cracolândia. De lá, a droga tem ido em quantidades menores para o fluxo – estratégia adotada pelos traficantes desde que a presença policial aumentou. Em um ano, 1.207 pessoas foram presas em flagrante na Cracolândia, além de 243 adolescentes apreendidos, segundo balanço da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Os agentes encontraram 652,3 quilos de drogas – 74,2 deles de crack. Entre os flagrantes realizados pela Polícia Militar e pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), já acharam pedras escondidas em embalagem de remédio, alimentos e até em carrinho de bebê.

Antes, os traficantes levavam “tijolos” de crack, cada um pesando de 2 a 3 quilos, e estocavam em hotéis que funcionavam dentro do quadrilátero, segundo afirma a Polícia Civil. De lá, distribuíam entre barracas ao ar livre.

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Facção. Investigações em curso indicam que, ao contrário do que acontecia recentemente, o PCC tem atuado a distância na Cracolândia. Segundo a Polícia Civil, o comércio direto da droga foi “terceirizado” e passou para mãos de “traficantes independentes”. À facção, cabe o papel de autorizar quem pode fazer negócio no território. Para isso, cobra uma taxa dos criminosos ou os obriga a revender o crack fornecido pela facção.

Entre 2015 e 2017, a atuação do PCC na Cracolândia era direta. Era a facção quem controlava a “feira da droga”, entre a Alameda Dino Bueno e a Rua Helvétia, área em que até agentes de saúde e assistentes sociais eram proibidos de entrar. O modelo parecia com o de franquias: a facção cobrava de R$ 70 mil a R$ 80 mil por ponto.

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