Achados arqueológicos na obra da Linha 6 vão de trilho de bonde a louças e galeria subterrânea

Artefatos expõem avanço da industrialização desde o século 19 e aterramento do Rio Tietê e afluentes; maioria dos achados ocorreram na zona oeste

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Por Priscila Mengue
Atualização:

Um trilho de bonde, uma galeria subterrânea, louças variadas, vidros de medicamentos, brinquedos em meio a restos fabris e possíveis resquícios de um quilombo urbano estão entre os milhares de artefatos arqueológicos encontrados desde o início do ano passado na cidade de São Paulo. Os itens são dos séculos 19 e 20 e oriundos das obras da Linha 6-Laranja, cujo monitoramento arqueológico tem identificado testemunhos da industrialização e urbanização da capital paulista, especialmente das regiões oeste e central.

Até o momento, as obras resultaram no registro de nove sítios arqueológicos no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a maioria no distrito Lapa, em bairros como Água Branca e Pompeia. O número pode aumentar ao longo do avanço das escavações, ainda iniciais no centro paulistano, por exemplo.

Cerâmicas encontradas no monitoramento arqueológico das obras da Linha 6-Laranja Foto: Relatório de Resgate Arqueológico/A Lasca Arqueologia

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O caso mais recente é o da futura Estação 14 Bis, em que as prospecções encontraram itens possivelmente ligados ao Quilombo Saracura, que existiu há mais de 100 anos. O levantamento será aprofundado após obras de contenção, com início estimado entre o fim de agosto e o início de setembro, com a expectativa que novas peças sejam identificadas. Os demais sítios passaram por “resgate arqueológico” e foram posteriormente liberados, segundo a Linha Uni, responsável pela obra.

O monitoramento arqueológico da Linha 6-Laranja envolve o acompanhamento de parte da rotina dos canteiros, geralmente durante intervenções no solo, como abertura de valas e terraplenagem, por exemplo. Os trabalhos foram retomados no ano passado, após os quatro anos de suspensão da obra. Antes disso, em 2015 e 2016, foram identificados dois sítios arqueológicos na Freguesia do Ó, na zona norte, e Água Branca, oeste.

Cravo e trilho de bonde encontrado durante obras da Linha 6-Laranja na Estação Bela Vista Foto: Relatório Parcial/A Lasca Arqueologia/Reprodução

Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Eduardo Neves explica que a maior parte da Arqueologia feita hoje no País envolve avaliações para licenciamento ambiental e monitoramento de grandes empreendimentos e obras de infraestrutura. “Basicamente, quem faz Arqueologia é (majoritariamente) por causa de obras de licenciamento, do Metrô, do Rodoanel…”

Ele ressalta que mesmo achados de períodos mais recentes, como os séculos 19 e 20, podem contribuir para a memória da cidade. “A partir do estudo da materialidade dos objetos, pode trazer perspectivas, às vezes de populações que não escreviam sobre si, sobre padrões de consumo, pode trazer uma contraposição ao que foi dito e escrito até então sobre uma população.”

Como exemplo, cita o próprio caso do Quilombo Saracura, que existiu em um bairro mais conhecido pelo passado ítalo-brasileiro. “A arqueologia pode ajudar a entender histórias que foram mal contadas ou até deliberadamente escondidas.”

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Passado da industrialização é resgatado em obras da Linha 6

Nas obras da Linha 6-Laranja, a maioria dos achados é de louças, vidros e cerâmicas encontrados em áreas no entorno do Rio Tietê, incluindo as futuras estações Santa Marina e Sesc Pompeia, e poços de ventilação. Segundo relatórios da equipe de Arqueologia (da empresa A Lasca) enviados ao Iphan, parte dos itens tem os selos dos fabricantes, como a Fábrica de Louças Santa Catharina, a Companhia Vidraria Santa Marina e as Indústrias Reunidas Matarazzo, e possivelmente são refugos de produção utilizados no aterramento e retificação do rio e seus afluentes, como o Córrego Água Preta.

Galeria subterrânea encontrada durante obras da Linha 6-Laranja na futura Estação Sesc Pompeia Foto: Relatório Parcial/A Lasca Arqueologia/Reprodução

Em um dos sítios na Água Branca, batizado de Santa Marina II, 1.411 artefatos foram selecionados como de interesse arqueológico, como fragmentos de vasos, tampas, tigelas, tachos, pratos, moringas e panelas, além de um poço, cisterna ou outra estrutura de saneamento, que possivelmente fazia parte de uma produção industrial entre o fim do século 19 e ao longo do século 20 ou de uma tubulação de esgoto centenária.

Outro item foi um frasco íntegro de “magnésia fluída recarbonada”, medicamento patenteado em 1807 na Escócia e popular pelo mundo. Embora em menor número, as bolinhas de gude e quatro peças de brinquedos, como parte de um carrinho e um motor de tração, também foram destacados nos relatórios de arqueologia como possíveis testemunhos da presença de crianças nos ambientes fabris.

Na área da Estação Sesc Pompeia, onde antes havia um estacionamento, por sua vez, os trabalhos entre julho e agosto do ano passado coletaram 18.695 remanescentes arqueológicos, mais da metade de louças, além de vidro, cerâmica, metais etc. Uma galeria subterrânea, possivelmente de água, feita de tijolos assentados em argamassa e barro também foi identificada, na várzea do Córrego Água Preta, afluente do Tietê e quase invisível por obras da região. Outra galeria também foi achada no sítio Sara de Souza, nas obras de poço de ventilação, na qual também foram resgatadas 33.079 peças.

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No caso da Estação Sesc Pompeia, as escavações ainda demonstraram a existência de estruturas construtivas possivelmente de moradias operárias nas proximidades da Rua Venâncio Aires e da antiga fábrica de tambores que precedeu o Sesc Pompeia (Irmãos Mauser). Para os arqueólogos, o sítio se destacou porque demonstra a urbanização e industrialização do bairro em um mesmo terreno.

Mestra pela Mackenzie com uma pesquisa sobre o desenvolvimento da região, a urbanista Adriana Serra explica que a urbanização e a industrialização estavam diretamente ligadas. “Começaram a ser urbanizadas por conta da instalação de indústrias, que procuravam terrenos amplos e planos, perto da ferrovia (antiga São Paulo Railway) e com disponibilidade de água em abundância.”

“A presença de indústria demanda infraestrutura, habitação para os operários, rede de transporte, serviços e comércio. O começo do século 20 ficou marcado então em regiões como Lapa, Água Branca e Pompeia como o início do desenvolvimento desses bairros, consequência direta da industrialização”, acrescenta.

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Fragmentos de vasos, tampas e moringas encontrados no bairro Água Branca durante obras da Linha 6-Laranja Foto: Relatório de Resgate Arqueológico/A Lasca Arqueologia

Trilho de bonde e antigos vidros de medicamento são achados no centro

Os trabalhos arqueológicos no entorno das obras da Linha 6-Laranja são mais iniciais, por causa do ritmo de implantação das estações, mais adiantado na zona oeste. Os sítios registrados são os das Estações São Joaquim e 14 Bis, o primeiro com 640 artefatos encontrados em fevereiro e o outro com resgate previsto para entre o fim de agosto e o início de setembro.

Nem todos os achados ocorrem em sítios arqueológicos em potencial. Na Estação Bela Vista, por exemplo, foi encontrado um trilho de bonde durante a abertura de uma vala para realocação dos sistemas de água e esgoto.

O item está nas imediações da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a Rua Pedroso, por onde o bonde passou durante décadas, atravessando a via do Parque do Ibirapuera até o centro. A operação chegou a ser registrada em fotografia pelo etnólogo e antropólogo francês Claude Lévi-Strauss quando professor da USP, nos anos 1930.

O bonde que atravessava a Brigadeiro teve o papel, no início do século passado, de carregar a carne fresca do antigo matadouro da Vila Clementino (atual Cinemateca). Quando parou de operar, gerou comoção. Como noticiou o Estadão na época, em 1965, despediu-se das operações com uma faixa escrita “adeus” enquanto transportava uma fanfarra que tocava a Valsa da Despedida e o então prefeito, Faria Lima.

O vestígio foi mantido no local. Outros artefatos também foram encontrados e retirados do local, como cravos de metal utilizados em trilhos de bonde.

Peças de vidro encontradas no bairro Água Branca durante obras da Linha 6-Laranja Foto: Relatório de Resgate Arqueológico/A Lasca Arqueologia

Também na região central, o sítio São Joaquim I passou por trabalhos de resgate no início de 2022, com um total de 640 remanescentes arqueológicos variados, como cerâmica, louça, vidro, metal e outros, além de piso de tijolos de “dimensões reduzidas”. Pela história da região e características dos itens, os arqueólogos estimam que estejam ligados a descartes de medicamentos de hospitais e casas de saúde da região em meados do século passado.

Procurada pelo Estadão, a Linha Uni, liderada pela empresa Acciona, manifestou-se apenas por e-mail. Na resposta, direcionada à equipe de Arqueologia, destacou que o potencial arqueológico das áreas de implantação da linha já era esperado e que a região central tem ainda mais chance de ter novos achados, pela “maior antiguidade dos momentos históricos relacionados à formação dos bairros do centro e diversas comunidades que participaram desse processo”.

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Perguntada se o trilho de bonde será futuramente mantido no local, como foi feito no Largo da Batata (com um pequeno trecho exposto), por exemplo, a concessionária afirmou que “esse tipo de estrutura pode ser exposta em museu se estiver bem preservada ou se trouxer informações relevantes do ponto de vista da arqueologia, mas somente com a finalização da pesquisa arqueológica é possível conhecer, de fato, o que está no solo”.

Além disso, o consórcio explicou que os materiais estão sendo encaminhados ao Centro de Arqueologia de São Paulo (Casp), ligado à Prefeitura, após processo de estudo e catalogação. “Outras alternativas poderão ser avaliadas e submetidas à aprovação do Iphan. O patrimônio arqueológico é bem público, sob a tutela do Estado brasileiro”, acrescentou.

Achados arqueológicas encontrados no sítio Santa Marina II Foto: Relatório de Resgate Arqueológico/A Lasca Arqueologia
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