Escolas de samba de SP retomam ritmo para desfilar no próximo carnaval

Ingressos para a arquibancada do sambódromo já estão quase esgotados; agremiações defendem preparação e falam em 'superação'

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Foto do author Priscila Mengue

O silêncio e o esvaziamento dos barracões, das quadras e do sambódromo estão chegando ao fim. Aos poucos, as atividades presenciais das escolas de samba de São Paulo retornam e se ampliam, mas ainda com restrições e em parte fechadas para o público em geral.

O objetivo é fazer um “carnaval da superação”, após as vidas levadas pela covid-19 e a crise gerada pela pandemia. As datas para desafogar a emoção estão definidas: de 25 a 28 de fevereiro. 

Acadêmicos do Tatuapé retomou ensaios presenciais, mas com restrições Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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A venda de ingressos foi aberta na quarta-feira e, em 24 horas, as entradas para o setor F (de valor mais acessível) esgotaram para o primeiro dia de desfiles. Segundo a empresa responsável, a ALK Live Entertainment, “quase todos” os ingressos para as arquibancadas nos dias do Grupo Especial estavam vendidos até sexta-feira, 22.

A realização de fato dos desfiles dependerá da situação sanitária em 2022, mas a Prefeitura, as escolas e as entidades envolvidas no carnaval têm defendido o planejamento com meses de antecedência. “A missão está um pouco mais complicada”, resume Sidnei Carriuolo, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. “A produção do carnaval precisa de ao menos seis meses. Se não conseguirmos nos apresentar em fevereiro, na hora que melhorar depois nós vamos apenas precisar pegar o que produzimos e desfilar. Vai estar pronto."

Carriuolo também destaca que, caso seja necessário, o carnaval do sambódromo poderá se adaptar a protocolos sanitários. “A gente espera que possa ter arquibancada lotada, que possa fazer um desfile bem aglomerado, para poder dar uma plástica visual, mas, caso as autoridades entendam que não possa ser neste perfil, a gente vai se adaptar.” A pandemia será lembrada no sambódromo com um desfile de abertura exclusivo de integrantes das Velhas Guardas. A ideia é celebrar a vacinação com aqueles que sobreviveram à pandemia mesmo sendo de grupo de risco. Segundo ele, o momento será emocionante. “Todas as escolas tiveram perdas...Vai bater a saudade, não tem jeito.”

Colorado do Brás celebrou aniversário com evento híbrido Foto: Daniel Teixeira/Estadão

'Já se sente um novo frescor'

Aos poucos, as escolas têm acelerado as atividades de confecção de fantasias, alegorias e carros, com a chegada também dos profissionais de Parintins que vêm para a cidade todos os anos, e retomado os ensaios presenciais e fechados de comissões de frente, baterias e casais de mestre-sala e porta-bandeira. Também têm pipocado eventos de apresentação de fantasias, de samba-enredo e algumas celebrações.

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Na Acadêmicos do Tatuapé, por exemplo, foram retomados os ensaios da bateria neste mês, mas exclusivamente semanais e fechados. Há uma expectativa de que possam ser abertos em novembro, quando São Paulo liberará a realização de festas, permitindo a venda de ingresso, cuja ausência tem sido sentida.

Mestre de bateria e presidente da escola, Higor Silva conta que as atividades de produção de fantasias, alegorias e carros alegóricos estão no máximo. Para ele, este será o “carnaval da virada”, não só para as escolas de samba, mas para todos, por envolver uma data marcante no calendário brasileiro.

Já Cristiano Bara, carnavalesco da Unidos de Vila Maria, diz que “já se sente um novo frescor”. “Antes estava parado. Tem aquele alívio. Funcionário para lá e para cá, um caminho para a normalidade”, descreve.

Ele comenta que a alta do dólar e a pandemia afetaram a obtenção das matérias-primas, em grande parte importadas da Ásia, chegando a mais do que dobrar o custo de alguns itens. “Estamos procurando alternativas, fazendo pesquisa de preço. A gente tira da cabeça aquilo que não tem do bolso”, diz. Mesmo assim, calcula estar com 70% do desfile pronto.

Apresentação da escola de samba Colorado do Brás no Teatro Artur de Azevedo Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Na Colorado do Brás, foram contratados mais profissionais para a confecção de peças, restrita a ateliês e residências dos trabalhadores. O trabalho presencial no barracão está restrito aos profissionais de Parintins, focados na produção dos carros - “todos testados e vacinados”, garante o carnavalesco André Machado.

A escola celebrou o aniversário de 46 anos na sexta-feira, em um evento híbrido, com espectadores presenciais e pela internet, no Teatro Artur de Azevedo, na Mooca. A bateria, passistas, baianas, integrantes da comissão de frente e outros componentes se apresentaram no evento. "Para quem se sentiu seguro para sair de casa e ir ao teatro, a bilheteria abriu às 19h. Quem preferiu ficar em casa pode acompanhar a comemoração pelas redes sociais da escola e do próprio teatro", explica Kelson Wangles, diretor e coreógrafo da comissão de frente da agremiação.

Decisão semelhante foi tomada pela Rosas de Ouro, que celebrará o aniversário de 50 anos com uma festa no próximo sábado, com capacidade de público reduzida. A venda dos ingressos foi aberta exclusivamente para quem tomou a vacina da covid-19.

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'Tivemos perdas irreparáveis'

Carnavalesco da Colorado do Brás, André Machado relata o impacto "muito grande" da pandemia para o carnaval, com perdas de figuras históricas e componentes queridos e também um impacto financeiro enorme para quem trabalhava no setor. "Tivemos perdas irreparáveis, em destaque duas figuras importantes da nossa escola: o nosso diretor de bateria Carlinhos Sebastian e a nossa coordenadora da ala das baianas Nalvinha", lamenta.

Coreógrafo da comissão de frente da Acadêmicos do Tatuapé, Leonardo Helmer, conta que um dos bailarinos do grupo trabalha em hospital e costuma contar o dia a dia nas “trincheiras” durante as reuniões. Os encontros (antes por vídeo) por vezes eram em grande parte de troca de vivências.

Ao longo da pandemia, quando os ensaios eram à distância, Helmer também viu componentes pegarem a covid-19, um até mesmo sendo internado. Ele conta que a segunda onda foi o que mais desanimou na preparação. “Cada pessoa sentiu a sua luta individual, na saúde, financeira. Todo mundo sentiu bastante.”

Com a retomada aos poucos dos ensaios presenciais, com uma frequência ainda menor do que a normal, o coreógrafo também aguarda o retorno de alguns componentes que foram para outras cidades na pandemia. “O horário de trabalho de alguns também mudou, estamos reajustando.”

Já Sérgio Longobardi, presidente da Velha Guarda da Tom Maior, conta que o grupo vai homenagear a perda de dois dos antes 30 componentes durante a pandemia, um deles vítima de covid-19. “Foram nomes importantes para a escola.”

O primeiro encontro da Velha Guarda ocorreu no dia 16, em uma feijoada ao ar livre, em meio a samba, conversas e celebrações. “A expectativa para o carnaval está sendo muito grande”, conta. “(Desde 1973) Só não desfilei no ano que servi no Exército e neste que passou.”

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Especialistas em saúde estão entre o temor e a cautela

Entre os especialistas ouvidos pelo Estadão, as opiniões sobre a realização do carnaval de rua foram distintas. Médico sanitarista e professor na USP, Gonzalo Vecina Neto se diz “totalmente temoroso”. Para ele, a situação não terá mudado tanto em quatro meses e a vacinação chegará a cerca de 60% ou 70% até fevereiro. “O grande problema é que carnaval de rua e festa de réveillon não tem como controlar”, afirma. Como exemplo, cita outros países que flexibilizaram medidas com o avanço da vacinação, mas que não viveram uma experiência do porte de um carnaval de rua brasileiro, com milhões de pessoas aglomeradas. “Não dá para ter um evento (deste porte) sem máscara e sem controle”. O médico considera, por outro lado, que a realização dos desfiles de escolas de samba seja viável, desde que mediante a adoção de protocolos sanitários, como a vacinação completa dos componentes, a apresentação de comprovante de imunização pelos espectadores e outros. Infectologista e professora da Unicamp, Raquel Stucchi considera possível a realização do carnaval de rua em 2022 ao se considerar a redução de casos graves e, principalmente, o avanço da vacinação. Ela exemplifica que, diferentemente do ano passado, em que os números voltaram a subir após uma queda em novembro, desta vez a vacinação possivelmente conterá os números de internações e óbitos mesmo se a transmissão aumentar com as flexibilizações. “(O momento) Nos permite sim fazer essa programação, com muita chance de poder se concretizar, com a consideração que pode ser suspensa (em caso de agravamento da pandemia)”, comenta. Para ela, o principal fator que poderia impactar nesta situação é a disseminação de uma variante de preocupação que drible os efeitos da vacina.  A docente aponta que o ideal é alcançar cerca de 80% do esquema vacinal completo até o carnaval, com a aplicação da dose de reforço na população idosa, imunossuprimidos e outros grupos mais suscetíveis a desenvolver casos graves.Mas ressalta: “Precisa diminuir o número de internações e o de óbitos, porque 500 mortes por dia ainda é muito.”