Safári perto de São Paulo e em uma floresta da Mata Atlântica? Assista ao vídeo

Com 31 mil hectares de área preservada no Vale do Ribeira, o Legado das Águas alinha programação de trilhas, cachoeiras, safári noturno e canoagem à pesquisa científica

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Foto do author João Ker
Por João Ker
Atualização:

Com 31 mil hectares de área altamente preservada, o Legado das Águas é a maior reserva privada da Mata Atlântica em todo o Brasil, guardando dentro dos seus limites uma riqueza inestimável de biodiversidade. Criado em 2012 pelo grupo Votorantim, dono do empreendimento, o local une turismo ecológico e responsável à preservação e educação ambiental, com uma programação que inclui canoagem noturna pelo Rio Juquiá, trilhas pela floresta fechada, cachoeiras e um safári em busca das espécies nativas da região.

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A área total do espaço é limítrofe aos municípios de Juquiá, Miracatu e Tapiraí, no Vale do Ribeira. A base do Legado das Águas, por exemplo, fica a 35 quilômetros de distância da entrada mais próxima por esta última cidade, o que transforma o passeio e a hospedagem em uma experiência única de imersão total na Mata Atlântica. Os ingressos para visitação custam a partir de R$ 40 e variam de acordo com a quantidade de atrações.

“O Legado nasceu com o propósito de fazer a conservação da floresta e provar que é possível você ter um negócio sustentável por trás disso”, explica a gerente do espaço, Daniela Geneditz, de 44 anos, sobre o conceito de “uso múltiplo do território”. “Isso aqui é uma reserva particular com o objetivo de explorar a biodiversidade da Mata Atlântica de forma positiva e economicamente viável. Nenhuma empresa sobrevive no mercado de hoje sem isso, principalmente com a economia verde.”

Esse conceito se desdobra em várias vertentes que passam por pesquisa científica, turismo ecológico, reflorestamento, fomento da economia local, reabilitação e preservação de espécies. As águas que passam pelo Legado são usadas pelas usinas de aço da Votorantim e seguem para o Sistema São Lourenço, responsável por abastecer a região metropolitana de São Paulo.

O Estadão passou 24 horas imerso na mata fechada do Legado das Águas e conta abaixo como foi a experiência.

9h - Centro de Biodiversidade

Próximo à base do Legado, o Centro de Biodiversidade funciona como um polo de estudo, pesquisa, reabilitação e replicação de espécies da flora nativa da Mata Atlântica. O trabalho é feito com expedições semanais, através das quais a equipe coleta sementes das matrizes espalhadas pelas margens dos rios ou nas trilhas da floresta e resgata espécies de orquídeas cujas árvores foram derrubadas pelo vento.

Uma das estufas de germinação do Centro de Biodiversidade do Legado das Águas Foto: Leo Souza/Estadão

As sementes ainda viáveis são germinadas e depois mantidas em três estufas, a depender do nível de crescimento e das demandas de cada uma. Ao lado, o orquidário guarda mais de 230 espécies de orquídeas endêmicas da Mata Atlântica, algumas extremamente raras, incluindo a Octomeria estrellensis, que foi reencontrada pela equipe do Legado após ter sido considerada extinta da natureza paulista por mais de 50 anos.

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O trabalho realizado ali segue outras linhas de frente além da recuperação dessas espécies. Uma delas é direcionar a produção de 200 mil mudas por ano para clientes da capital, com o objetivo de substituir a preferência do paisagismo, que hoje é quase totalmente feito com flores, árvores e plantas exóticas. “A nossa ideia é botar a Mata Atlântica de novo nos centros urbanos”, diz o viveirista Adenir Lima, responsável por cuidar do centro.

Orquidário para reabilitação e replantação das espécies nativas da Mata Atlântica e encontradas no Legado das Águas Foto: Leo Souza/Estadão

Outra é a catalogação da biodiversidade presente no Legado, feita através de um sistema que indica quando e onde cada semente e espécie foi coletada e como encontrar a árvore matriz. Todas essas informações são atreladas a um QR Code que acompanha cada vaso vendido, mostrando o tempo de germinação e os cuidados com a espécie comprada.

10h30 - Trilha do Cambuci

Logo após a visita ao Centro de Biodiversidade, a equipe seguiu por um acesso à esquerda até o início da Trilha do Cambuci. De nível fácil, o caminho é todo feito por uma passarela de madeira suspensa na mata e cercado por nascentes, árvores, pássaros, borboletas e todo tipo de insetos menores.

Trilha do Cambuci é feita por passarela suspensa que permite imersão multissensorial na Mata Atlântica Foto: Leo Souza/Estadão

A equipe foi acompanhada pelo guia Osmidir Rodrigues. Nascido, criado e vivendo na região, ele conhece o local como a palma da mão e sabe quais são as árvores centenárias, os cogumelos venenosos, onde e quando ver os pássaros e as propriedades medicinais de cada uma das espécies ali.

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A trilha tem 2,4 quilômetros e é um dos mais rápidos, simples e fáceis de percorrer. Pensado para um passeio mais tranquilo, é uma boa oportunidade para admirar a preservação da floresta, passando exatamente pelos pontos de onde são retiradas as plantas e sementes que serão utilizadas mais tarde pelo Centro de Biodiversidade.

14h15 - Trilha Dezembro

Depois do almoço, pegamos 40 minutos de estrada até o início da trilha para a Cachoeira Dezembro, uma das maiores, mais visitadas e mais entranhadas na floresta. O nível de dificuldade é de fácil a médio, com alguns caminhos mais estreitos e uma travessia pela correnteza, que pode ser feita com a ajuda de uma corda para apoio entre uma margem e outra.

Ida e volta pela Trilha Dezembro leva aproximadamente 3h40 de caminhada pela mata fechada Foto: Leo Souza/Estadão

O caminho precisa ser feito com o auxílio de perneiras, tanto pela vegetação fechada quanto pela probabilidade de encontrar alguma cobra escondida entre as folhas. Logo no início, a equipe se deparou com rastros de pegadas de duas antas, uma adulta e uma bebê (caracterizadas pelo formato e tamanho dos três dedos). Segundo Osmidir, elas costumam fazer o mesmo trajeto para buscar frutos e água durante a noite.

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16h - Cachoeira Dezembro

Depois de atravessar o rio, a equipe teve a sorte de encontrar uma família de muriquis, o maior primata da América do Sul, pulando entre uma árvore e outra. Quase uma hora e mais de 4 quilômetros depois, chegamos à Cachoeira Dezembro, formada por três piscinas naturais, uma na base e outras duas mais rasas no topo.

Contando ambos os trechos, a trilha dura cerca de 3h40 e costuma receber excursões de até 15 pessoas, com indicação de faixa etária a partir dos 7 anos. Muitos visitantes, entretanto, preferem chegar cedo e passar o dia na cachoeira, para aproveitar o espaço ao máximo e evitar o caminho de volta ao anoitecer.

Piscina natural formada aos pés da Cachoeira Dezembro, uma das principais no Legado das Águas Foto: Leo Souza/Estadão

20h10 - Safári noturno

De volta à base do Legado, a equipe assistiu a uma apresentação da ONG Onçafári como parte do treinamento necessário para fazer o Safári Noturno. O objetivo da atividade é explorar a floresta com a companhia de biólogos e seguir os rastros de alguns dos animais nativos da Mata Atlântica.

A parceria entre o Legado e a Onçafári começou em 2020 e, desde então, já espalhou dezenas de “armadilhas fotográficas” estrategicamente posicionadas pela área da reserva. É com elas que a equipe de biólogos e biólogas consegue analisar o comportamento noturno dos animais, descobrir quais espécies estão concentradas em quais lugares e estudar seus hábitos de alimentação, reprodução e deslocamento.

Espécie de sapo encontrada às margens do Rio Juquiá durante o safári noturno no Legado das Águas Foto: Leo Souza/Estadão

O objetivo do safári é proporcionar a mesma experiência africana, onde os animais nativos são observados de longe e sem interferência humana. A diferença é que, ao contrário do que acontece na savana, as espécies da Mata Atlântica não se concentram em um único lugar, então o avistamento depende da sorte, do clima e da boa vontade dos bichos aparecerem.

Ainda assim, a equipe do Estadão, acompanhada da bióloga Bianca Machado e do guia Tiago Dias, conseguiu avistar uma variedade de pássaros, sapos, aranhas e até um casal de cachorros-do-mato, que seguiram o carro da expedição por uma parte da estrada (para não espantá-los, precisamos andar com os faróis apagados e em silêncio).

Em uma das paradas, Bianca recuperou o cartão de memória de uma das armadilhas fotográficas. Nas imagens da noite anterior, foi possível ver que por aquele mesmo ponto passaram algumas famílias de antas e outros cachorros-do-mato se aventurando pela noite da floresta.

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21h - Canoagem no Rio Juquiá

O ponto alto da programação noturna foi a expedição pelas águas formadas com a represa do Rio Juquiá. O trajeto de 7 quilômetros é percorrido a bordo de caiaque e com a companhia de Bianca e Tiago, que vão explicando os hábitos das espécies encontradas às margens do rio.

Equipe do Onçafári durante a canoagem noturna no Rio Juquiá Foto: Leo Souza/Estadão

Mesmo com a presença de ambos, o uso de coletes salva-vidas, da lanterna de cabeça e a habilidade de nadar, a atividade não é para os fracos de coração. A paisagem, como era de se esperar, é indescritivelmente bonita e exuberante, mesmo no escuro. A própria experiência de remar o rio à noite te deixa se sentindo igualmente vulnerável e curioso pelo que está na mata.

Outro aspecto a ser considerado é o condicionamento físico de quem vai fazer o passeio, uma vez que certos pontos do trajeto demandam uma velocidade maior para se esquivar dos troncos, árvores, restos de matéria orgânica e raízes presos no fundo do rio.

Os mais corajosos que não se importarem com sapos, aranhas e outros tipos de animais, também podem acompanhar a correnteza mais próxima das margens, onde o reflexo de milhares de olhinhos entre as árvores abre asas para a imaginação.

Às margens do Rio Juquiá, equipe do Onçafári busca, identifica e estuda durante a canoagem noturna as espécies nativas da Mata Atlântica em seu hábitat natural Foto: Leo Souza/Estadão

Ao longo do passeio, avistamos uma porção de morcegos sobrevoando o rio; ouvimos uma sinfonia sem fim de sapos e pererecas descansando às margens; tivemos o caiaque invadido por peixinhos que pulavam da água para o colo da equipe; e fomos visitados por uma borboleta que, atraída pela luz dos capacetes, não deu trégua enquanto não pousou no repórter.

9h - Café da manhã com os pássaros

Próximo à base do Legado, a parte externa do restaurante é um dos principais pontos para o avistamento de pássaros, que sobrevoam o local desde o início da manhã. Quanto mais cedo, melhor e mais chances de ver uma variedade maior de tamanhos, cantos e cores dentre as espécies nativas.

Vale ressaltar que a comida servida no café da manhã, no almoço e no jantar também tem várias opções de sopas, saladas e sobremesas feitas a partir do que é plantado e colhido no próprio Legado.

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Pássaro nativo da Mata Atlântica avistado na área externa do restaurante, na base do Legado das Águas Foto: Leo Souza/Estadão

Serviço

  • Legado das Águas

Endereço: Santa Rita do Ribeira, Miracatu - SP, 11850-000

Preços e disponibilidade sob consulta: contato@legadodasaguas.com.br

Mais informações: https://legadodasaguas.com.br/

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