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Tarifa zero em ônibus de São Caetano faz dobrar nº de passageiros: ‘Quase não uso mais carro’

Maioria da população elogia medida, mas também há queixas de superlotação em horários de pico; prefeitura diz que tem feito melhorias no sistema

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Foto do author Ítalo Lo Re
Por Ítalo Lo Re
Atualização:

A tarifa zero nos ônibus municipais tem mudado a rotina de moradores de São Caetano do Sul, no ABC Paulista. Desde que a gratuidade foi adotada nas oito linhas do município, no início do mês passado, o número de passageiros mais que dobrou: de 25 mil para cerca de 50 mil por dia, segundo a prefeitura.

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A maioria elogia a iniciativa, mas também há queixas de superlotação do transporte, principalmente em horários de pico. A prefeitura diz trabalhar em melhorias e afirma que o total de veículos em circulação subiu de 47 para 57.

Neste domingo, 17, a Prefeitura da capital vai fazer um teste do passe livre nos ônibus, que será repetido em janeiro. Parte dos especialistas vê na política uma estratégia de inclusão social, com mais acesso a serviços de saúde, educação, lazer e esporte. Já outros apontam uso ineficiente de dinheiro público, uma vez que gasta volume expressivo de recursos em uma medida que não beneficia só os que mais precisam.

Em São Caetano, nº diário de passageiros agora passa dos 50 mil Foto: Werther Santana/Estadão

O Estadão foi a São Caetano na quinta-feira, 14. Uma das principais mudanças relatadas pelos passageiros é que muitos que antes faziam longos trajetos a pé, para não gastar, hoje recorrem ao ônibus. As economias de quem deixou de pagar pelas passagens também são um relato destacado.

“Quase não uso mais carro. Agora só vou trabalhar de transporte público”, diz a corretora Elaine Pontara, de 51 anos. Ela afirma que, antes, gastava quase 2 horas para ir de São Caetano até o trabalho, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na região central de São Paulo.

Hoje, Elaine só vai para o trabalho de Metrô e CPTM – ela gasta R$ 8,80 com as tarifas de ida e volta, mas comemora ter a opção de ir de ônibus gratuito de casa até a estação. “Tem dias que levo 40 minutos para chegar até o serviço. É bem mais rápido”, afirma. “Até meu chefe, que também mora aqui, tem pensado em fazer isso.”

Ao chegar de Montemor, no interior paulista, para visitar a mãe na cidade, o barbeiro Leonardo Pontara, de 21 anos, conta que ficou surpreendido ao ver a novidade no lugar onde cresceu. “Nunca vi isso em nenhuma outra cidade que conheço”, disse. “Se eu tivesse um carro aqui, já não usaria tanto.”

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Embora o barbeiro não conheça outras iniciativas semelhantes, há pelo menos outros 88 municípios no País que adotam o passe livre, segundo levantamento do pesquisador Daniel Santini, mestre em Planejamento Urbano e Regional da Universidade de São Paulo (USP). A maioria é de cidades pequenas.

São Caetano, de 165 mil habitantes, está entre as maiores a adotar o modelo, junto de Caucaia (355 mil), no Ceará, Luiziânia (209 mil), em Goiás, Maricá (197 mil), no Rio, e Ibirité (170 mil), em Minas.

Em vez de ir a pé, ônibus gratuitos

Muitos frequentadores de São Caetano ouvidos pela reportagem afirmam que, com a tarifa zero, deixaram de fazer trajetos longos para ir de ônibus aos destinos. Um desses casos é o da estudante de Fisioterapia Gabrielle Palma, de 22 anos, que costumava ir a pé da Estação São Caetano até a faculdade.

“Antes chegava a gastar 30 minutos nesse trajeto. Agora pego ônibus e ainda vou sentada na maioria das vezes. É tranquilo”, disse. A nova rotina, conta, também a deu mais tempo para pegar o trem de Mauá, onde mora, até lá. “Agora me preocupo menos em sair bem antes para chegar a tempo na aula.”

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Tem relato parecido o estudante Matheus Capelari, de 20 anos, que cursa Ciência da Computação. “Prefiro ficar 20 minutos no ônibus do que 20 minutos andando debaixo desse calor que está.”

‘Dá até para comprar um cafezinho’

No caso da estudante de Música Marcela Nakamura, de 28 anos, ir e voltar a pé da estação até a faculdade não era uma opção – ficaria inviável carregar os instrumentos, como o violino que segurava quando falou com a reportagem. Com a tarifa zero, ela economiza cerca de R$ 40 por semana. “Espero que esse dinheiro ajude a reformar meu apartamento”, diz ela, que em São Bernardo do Campo.

“Ainda não sei para que vou usar o dinheiro que tenho economizado, mas faz diferença”, conta a diarista Aparecida Fernandes, de 43 anos. “Só para levar meu filho de 11 anos à terapia, deixei de gastar cerca de R$ 100 por mês em passagens.” As sessões ocorrem semanalmente em um bairro mais afastado.

São Caetano hoje tem oito linhas de ônibus municipais, geridas pela Viação Padre Eustáquio (Vipe), concessionária de transportes do município do ABC paulista. Antes, a tarifa custava R$ 5. “Agora dá até para comprar um cafezinho, um lanche”, afirma Léa Chaves, de 38 anos, também diarista.

Tarifa zero ajuda a aquecer a economia, segundo comerciantes, mas superlotação de ônibus vira queixa de passageiros Foto: Werther Santana/Estadão

Comércio cheio e lotação de ônibus

Comerciantes da região central dizem que a clientela cresceu, movimento impulsionado pela alta de passageiros com a tarifa zero e também pelo fim de ano. “As vendas dobraram”, calcula o comerciante Leonardo Muniz, de 21 anos, que tem uma barraca de cachorro-quente.

Segundo ele, é comum ver inclusive moradores de cidades vizinhas, como São Bernardo, indo de carona para São Caetano para fazer o resto do trajeto de ônibus gratuito. Em paralelo, a prefeitura destaca que também houve um aumento expressivo de passageiros no fim de semana.

“Com mais pessoas usando o transporte público, o comércio local – principalmente o do centro – é o maior beneficiado, uma vez que a pessoa tem, além do dinheiro da passagem, mais facilidade de se deslocar para fazer compras”, diz Sergio Tannuri, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Caetano.

Já entre os motoristas, a percepção é de que a gratuidade divide opiniões. “Muitos me falaram que gostam, já que não precisam mais mexer com dinheiro, mas outros falam que tem horas que os ônibus ficam muito cheios”, afirma Muniz.

Moradora da Vila Prosperidade, a enfermeira Aeli Conrado, de 44 anos, conta que a linha de ônibus que ela pega às 6 horas têm ficado tão cheia no horário de pico que não consegue entrar no veículo em alguns dias. “Tenho de optar pelos ônibus metropolitanos nesses casos, algo que não acontecia antes”, disse. “Mas não sou contra por causa disso. Espero só que aumentem o número de ônibus.”

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Prefeitura diz trabalhar em melhorias

Sobre o caso relatado por Aeli, o prefeito José Auricchio Júnior (PSDB) disse ao Estadão que a linha 08-Prosperidade teve o número de veículos duplicado nos últimos dias. “Portanto, devemos ter rapidamente uma acomodação dessa dificuldade pontual”, disse.

Ele afirmou ainda que o aumento de 47 para 57 dos veículos em circulação dá “um número bastante estabilizado” da procura e oferta de passageiros. “Nosso programa passa semanalmente por revisão, junto com os técnicos da Secretaria de Mobilidade e os consultores externos, para que a gente possa fazer ajustes”, disse Auricchio Júnior.

Segundo o prefeito disse à Rádio Eldorado, também do Grupo Estado, a projeção inicial era de aumento entre 50% e 70% de acréscimo em relação ao total de passageiros transportados. “O número foi maior”, disse. “Chegou até a 120% de aumento.”

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