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Trânsito em SP melhorou ou piorou nos últimos anos? Os números podem surpreender

Mudanças comportamentais na pandemia alteraram também o uso do transporte na cidade

Foto do author Giovanna Castro
Por Giovanna Castro
Atualização:

Cansado de enfrentar congestionamentos nos horários de pico? O trânsito na cidade de São Paulo está longe de ser bom, mas, acredite, já foi pior. A quarentena causada pela covid-19 ficou para trás, mas as taxas de lentidão nas ruas e avenidas não voltaram ao que eram antes da pandemia.

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De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), o índice de lentidão da cidade toda (20 mil km de vias) registrado para o mês de agosto de 2023 foi 25% menor em relação ao mesmo mês em 2019, último ano antes da pandemia. A lentidão média anual deste ano (327 km) tem se apresentado, até agora, 32% menor ante 2019 (481 km).

Estudo da LCA Consultores, empresa especialista em análises de economia, revela que o trânsito diminuiu todos os dias da semana, mas principalmente às segundas, quintas e sextas-feiras. Entre os possíveis motivos, segundo os autores, está o aumento do trabalho em modelos home office (remoto) e híbrido (parte no escritório, parte em casa), além de flexibilidade de jornada, o que ajuda a evitar horários de pico.

Em agosto, taxa de congestionamento na capital caiu 25% ante o mesmo mês de 2019; Marginal do Pinheiros (foto) é uma das principais vias da cidade. Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Conforme a pesquisa, que usou dados de 2019 e 2023 do Metrô, da SPTrans e da CET, houve ainda redução de passageiros em estações de metrô e ônibus, principalmente no centro expandido. Outra mudança de comportamento que influencia esse cenário é a adoção de transportes alternativos, como bicicletas e carros por aplicativo.

A SPTrans afirma que, neste momento, sua frota de ônibus está operando em 97% da capacidade nos bairros mais afastados do centro e em 93% em toda a cidade. Esses veículos têm atendido a demanda atual, que corresponde à 76% do total de pessoas que eram transportadas no período pré-pandemia. Ou seja, há mais ônibus por quantidade de passageiros do que em 2019.

“Hoje, prefiro pegar Uber, pela rapidez”, diz a designer de produto Carolina Naomi, de 24 anos, que deixou de trabalhar presencialmente todos os dias, usando ônibus, metrô e trem, para trabalhar de casa. “Antes, eu não me importava de pegar ônibus e metrô mesmo no fim de semana, mas como isso não faz mais parte do meu dia a dia, parece muito mais trabalhoso pegar o transporte público”, afirma.

O que mostra o estudo sobre metrô e ônibus?

Segundo análise da LCA Consultores, de 2019 para 2023, houve queda de aproximadamente 40% de entradas de passageiros nas estações de metrô Palmeiras-Barra Funda (Linha 1-Vermelha) e Consolação (Linha 2-Verde), no centro expandido. Já na estação Capão Redondo (Linha 5-Lilás), na periferia da zona sul, a redução fica em torno de 21%.

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Nos ônibus, também foi registrada queda. Em julho de 2019, as catracas giraram 208 milhões de vezes; no mesmo mês de 2023, foram 159 milhões, baixa de 24%.

Bruno Imaizumi e Gabriel Nunes, economistas responsáveis pelo estudo, explicam que a diferença por região reflete a desigualdade social. “Trabalhadores mais qualificados – e consequentemente mais remunerados – estão aproveitando mais dos benefícios dessa modalidade de trabalho (home office ou híbrida) e consomem cada vez menos transporte público”, dizem os especialistas.

Alda Paulina dos Santos, professora de Planejamento Urbano e Arquitetura da FEI, acredita que o caminho seria valorizar alternativas públicas e da intermodalidade. Isso envolve, segundo especialistas, melhorar a qualidade do serviço e aumentar a segurança nas estações, por exemplo. Além disso, Alda defende programas voltados para a habitação e a descentralização, que mudam a lógica como a cidade é pensada.

“São Paulo tem mais de 10 milhões de habitantes. Este é um problema sistêmico, que afeta principalmente áreas mais periféricas, onde as pessoas têm de fazer movimento pendular, saindo de onde moram para o centro, que tem mais oferta de trabalho, escola, equipamentos de saúde etc”, afirma a professora. “O ideal é não precisar se deslocar tanto no dia a dia.”

Fugindo do trânsito e das baldeações

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Luis Felipe Silva, 26 anos, especialista de Recursos Humanos, sempre morou entre Barueri e Osasco, na região metropolitana. Antes e durante a pandemia da covid-19, pegava ônibus e metrô lotados, todo dia, para chegar ao trabalho, na região da Vila Olímpia, zona sul paulistana. No ano passado, decidiu alugar um carro.

“Tomei essa decisão porque, entre minha casa e o trabalho, demoro 20 minutos de carro, quando pego pouco trânsito, que é maioria dos dias. Se uso transporte público, demoro uma hora e meia”, diz. Ele conta ainda que evita horários de pico, já que seu trabalho oferece flexibilidade de início da jornada, e passou a preferir atividades de lazer perto de casa.

Sobre duas rodas

Augusto Biason, servidor público de 29 anos, diz que sempre teve vontade de se locomover pela cidade de bicicleta. Mas só na pandemia ele adotou a prática. Desde então, não largou mais a companheira de duas rodas. Para ele, que mora no centro, onde as distâncias são menores e há mais infraestrutura cicloviária, esse modal de transporte “vale muito a pena”.

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“Na pandemia, não deixei de trabalhar nenhum dia presencialmente. Para evitar o transporte público, comecei a ir de bicicleta”, diz. “Foi vantajoso. Demoro um pouco menos para chegar ao trabalho de bicicleta, por incrível que pareça, contando todo o deslocamento. E achei benéfico colocar uma atividade física no dia a dia, algo que eu sentia falta.”

Augusto Biason faz de bicicleta o trajeto de menos de 15 minutos entre sua casa, no bairro de Santa Cecília, e o trabalho no centro histórico de São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Leonardo Skinner, 31 anos, engenheiro, também começou a usar a bicicleta para ir e voltar do trabalho, entre outros locais, e aprovou. “Chego mais rápido e gasto menos dinheiro”, diz. “Dou preferência ao metrô e ao ônibus para lazer quando é longe para ir de bicicleta. De Uber, só quando é um local que demoraria mais tempo de transporte público ou quando a estação fica longe do destino.”

Em nota, o Metrô disse que, este ano, “antecipou a elaboração da Pesquisa Origem e Destino, iniciada neste mês (agosto), para entender os impactos da pandemia da covid-19 nos deslocamentos das pessoas e as mudanças da mobilidade”. “O estudo, dentre todos os seus levantamentos, é um dos principais norteadores para embasar as políticas públicas pelo Estado e investimentos sobre os trilhos”, afirma.

A companhia diz ainda que “atualmente, o governo de São Paulo está empenhando recursos na extensão da Linha 2-Verde, que está em obras para chegar até a Penha, atendendo novas regiões e criando novas opções de trajeto aos moradores da zona leste. Também está em curso a ampliação da Linha 15-Prata, com obras nas estações Boa Esperança e Jacu Pêssego, que vão reduzir em mais de 50% o tempo de trajeto do extremo leste ao centro, além da estação Ipiranga, que as obras já estão contratadas.”

A Prefeitura disse, em nota, que “trabalha de forma contínua para melhorar o sistema de transporte público municipal, tornando-o mais atrativo, confortável e ágil” e que “neste momento, a gestão municipal está realizando estudos sobre a possibilidade de implantação de tarifa zero no transporte público por ônibus”.

“Desde janeiro de 2021, 2.893 veículos mais modernos foram incorporados à frota. Até 2024, a cidade deverá contar com 20% da frota composta por veículos elétricos, além de ampliar a frota com ar-condicionado, USB e com conexão de internet por wi-fi”, afirma.

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“Também estão sendo projetados novos corredores, terminais e implantadas faixas exclusivas que contribuem para a maior eficiência ao sistema, reduzindo os tempos de viagem. Além disso, está prevista a implantação do Aquático SP, o primeiro modo de transporte hidroviário de passageiros na cidade”, complementa a nota.

Já a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento informa que o Plano Diretor Estratégico da cidade tem “como diretriz a redução de distâncias na cidade, principalmente, em relação aos deslocamentos entre moradia e emprego. Os Planos de Intervenção Urbana (PIUs) também são instrumentos importantes para o desenvolvimento urbano e social de territórios estratégicos na cidade”. Entre os exemplos citados pela Prefeitura, estão os PIUs Jurubatuba e Arco Leste.