Um mutirão quer ampliar casa de 4 m² em SP; modelo pode servir para moradias da região

Residência de trabalhador da reciclagem de 58 anos tem cama suspensa por causa da falta de espaço; plano vai criar banheiro externo

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Por Gonçalo Junior
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Francisco da Silva, o Tiquinho, mora numa casa de 4 metros quadrados. Ele tem sofá, vaso sanitário, três prateleiras e uma cama suspensa no teto. O resto do espaço é cheio de outras carências. O trabalhador de reciclagem de 58 anos toma banho de caneca porque não tem água; não guarda comida, pois não tem geladeira.

Os vizinhos do Jardim Colombo, parte do Complexo de Paraisópolis, na zona oeste, estão se mobilizando para ampliar a casa (ou cômodo?) em que ele vive. Especialistas acreditam que as soluções que estão sendo propostas ali podem inspirar moradias de 15 a 25 metros quadrados, comuns no bairro.

Francisco da Silva em sua cama suspensa na casa de 4 metros quadrados, no Jardim Colombo Foto: FELIPE RAU/ESTADAO

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A vizinha de Tiquinho, que mora na parte de cima do imóvel, cedeu o espaço embaixo da escada para a ampliação. No boca-a-boca, moradores buscam voluntários para as obras. Um movimento nas redes sociais, ainda na fase inicial, busca doações de pessoas físicas e jurídicas.

A ação é liderada pela arquiteta Ester Carro, ativista urbana do movimento Fazendinhando, que reúne moradores e voluntários em torno da transformação social a partir da recuperação de espaços públicos e ações culturais. O projeto investe também em ações de capacitação, principalmente das mulheres. O nome do projeto se refere ao antigo lixão que foi revitalizado e virou um parque de eventos e cursos no Jardim Colombo.

Moradores do Jardim Colombo se organizam para ampliar a casa de Francisco da Silva  Foto: FELIPE RAU/ESTADAO

A arquiteta encaminhou ao Estadão os primeiros croquis com suas ideias para a minicasa. O vão da escada vai ser um banheiro externo, aproveitando a doação da vizinha. Com isso, a casa vai ficar com 5 metros quadrados e um pouquinho. Ela pretende mudar a posição e o formato da janela e ajustar o lugar da porta. A ideia é ganhar espaço e tentar tornar o local menos insalubre. Nesse projeto, algumas medidas de saúde e qualidade de vida são tão urgentes quanto o projeto arquitetônico.

“O primordial nesse momento é levar as necessidades básicas para o Tiquinho, como acesso à água para que ele consiga tomar banho direito e que possa cozinhar e guardar comida na geladeira”, diz.

Tiquinho tirou todos os móveis de sua casa para falar com o Estadão. Por necessidade. Por causa de uma chuva forte da metade de janeiro, o colchão ficou ensopado, não dá para usar mais. O sofá também desmanchou. O homem de 58 anos mostrou a ginástica que tem de fazer para dormir. Ele sobe no vaso sanitário, depois numa escada, se escora na janela e joga o corpo até a armação suspensa, perto do teto, onde fica a cama (o pé direito da casa é bem alto). Ele tem um fogão elétrico, mas não consegue guardar os alimentos porque não tem geladeira. A água é emprestada dos vizinhos.

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Francisco comprou a casa três anos atrás por R$ 2 mil à vista, dinheiro de uma rescisão trabalhista. Sabia que o espaço era pequeno, mas não tinha opção no bairro. “Agradeço a Deus por ter esse espaço aqui. A gente sabe que muita gente está na rua”, afirma. “Um banheiro do lado de fora já vai ajudar muito. Vou colocar um armário e um fogão aqui dentro”.

A arquiteta Ester Carro organiza um mutirão para a reforma casa e quer criar referências para outros projetos da região Foto: FELIPE RAU/ESTADAO

Ele prefere viver sozinho a pedir ajuda a um dos dez filhos que moram no Jardim Monte Kemel, zona oeste. Tiquinho passou o último Natal com a família quase toda reunida. Espontaneamente, ele fala da mãe, emocionado, sobre a pessoa que considera a mais importante da sua vida: Adília Clemente da Silva tem 99 anos. “Ela não sabe escrever, nem o nome, mas tem a cabeça melhor que a minha”.

Modelo para outras casas da região

Parte do complexo de Paraisópolis, o bairro do Jardim Colombo é densamente ocupado. Boa parte dos moradores não têm propriedade formal sobre a sua casa. Ester Carro considera que o projeto que está sendo desenvolvido para um lugar tão pequeno como a casa de Tiquinho, a menor da região, pode servir como exemplo para o bairro, marcado por moradias de 15 a 25 metros quadrados. A cama suspensa, por exemplo, pode ser uma solução a ser replicada para ganhar espaço para um armário.

Estudo para ampliação da casa Foto: Ester Carro

Ela lembra ainda que existem muitas casas com vários andares em que cada família ocupa um pavimento. Aqui também é importante a organização do espaço. “O layout de uma casa de 4 metros quadrados pode facilitar as reformas de casas com áreas maiores, mas que também precisem de organizar o espaço. Ela pode ser uma referência”, diz.

Como ajudar

No site do projeto (www.fazendinhando.org/) é possível fazer doações via pix, depósito bancário ou paypal. O site também é o melhor caminho para quem quiser ser voluntário. Para mais informações, falar com Ester Carro (1198308-3044) ou enviar um e-mail para parquefazendinha@gmail.com

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