Uso da K9, a ‘droga zumbi’, avança na Cracolândia: ‘A pessoa congela, sem movimento’

Mais baratas, substâncias sintéticas são mais procuradas por usuários; efeitos incluem taquicardia, alucinações, ‘efeito zumbi’ e rápida dependência

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Por Gonçalo Junior
Atualização:

Popularmente conhecidos como “maconha sintética”, “K2″, “K4″, “K9″, “selva” “cloud 9″, “spice”, “espace” ou “supermaconha”, os canabinoides sintéticos estão cada vez mais presentes nas ruas de São Paulo, principalmente na Cracolândia, depois de terem se espalhado inicialmente nos presídios paulistas.

Usuários de drogas se espalham pela Rua dos Protestantes, no centro de São Paulo Foto: Werther Santana/Estadão

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Dos 28,8 mil atendimentos realizados pelo Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, principal porta de entrada do governo estadual para tratamento de pessoas com quadros agudos de dependência química, 37,7% dos pacientes declararam já ter consumido a substância. Em maio do ano passado, esse total era de aproximadamente 12%, segundo balanço obtido pelo Estadão.

Outras substâncias psicoativas como a maconha (81%), cocaína (78%) e crack (77%) permanecem como as mais utilizadas nas cenas abertas de uso, principalmente na Cracolândia, que nos últimos dois anos tem se espalhado por diversas ruas no centro paulistano. Os dados vão de abril de 2023 a 2024.

Responsável por liderar uma ação conjunta entre os poderes estadual e municipal naquela região, o vice-governador Felicio Ramuth (PSD) reconhece que as drogas sintéticas já são uma realidade.

Policiais circulam em área do centro de São Paulo logo após deslocamento do fluxo da Cracolândia Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 22/12/2022

“O governo de São Paulo já tem atuado com investigações da Polícia Civil, além de várias operações. Tivemos aumento substancial da apreensão de drogas, também de drogas sintéticas em São Paulo. A K9 é uma realidade, mas a Polícia Civil já está buscando a cadeia desse tipo de droga”, afirmou Ramuth ao Estadão.

A persistência da Cracolândia tem sido um dos principais desafios da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), que renovou o pacote de ações de segurança e de saúde para a região, na tentativa de reduzir o tamanho do problema, que se estende por mais de três décadas.

O Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) informa que apreendeu mais de 40 toneladas de drogas no ano passado, entre elas, 157 quilos das drogas “K”.

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Embora seja chamada de maconha sintética, a K foi criada em laboratório, não vem da planta cannabis sativa e tem efeito até 100 vezes mais potente que a maconha comum. Os canabinóides sintéticos têm maior concentração de THC, que é o princípio ativo da maconha, é o que causa o “barato”, como explica o professor Thiago Fidalgo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Civil prioriza o combate ao tráfico desses entorpecentes. “Por meio de ações de inteligência e investigações estratégicas, as equipes identificam os pontos de distribuição e rastreiam laboratórios clandestinos, interceptando a distribuição em varejo, com apreensão das drogas e prisão dos suspeitos”.

A diminuição dos custos das drogas sintéticas, que são vendidas por R$ 5 ou R$ 10, e a alta potência dos efeitos estão entre os fatores que explicam a rápida disseminação, de acordo com os especialistas.

“O baixo custo de produção e aquisição e a chamada ‘vibe’, mais forte que o crack, ajudam a explicar esse avanço”, afirma o delegado Edson Pinheiro, diretor do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp).

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“Há uma ideia entre os jovens de que eles estão usando uma maconha ‘batizada’, sem a noção exata de que é uma substância fabricada em laboratório, com poder de reação quase 100 vezes maior que a maconha natural e que causa muito mais danos”, diz o diretor técnico do Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, o psiquiatra Quirino Cordeiro.

“De maneira inadvertida, pensam apenas que é uma maconha mais forte”, acrescenta. O hub fica na Rua Prates, no centro.

Em São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde registra 233 casos suspeitos de intoxicação por canabinóides sintéticos neste ano em equipamentos de saúde públicos e privados. Durante todo o ano passado, foram 1.081 casos.

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Essa baixa percepção de risco pode ter relação com as formas mais comuns de consumo da droga.

  • As drogas K podem ser fumadas, vaporizadas, ingeridas de forma diluída, em comprimidos e borrifadas em mix de preparações.
  • A substância já foi identificada em forma de incenso, pot-pourri de ervas, sais de banho, líquidos, papéis, aromatizador, pó, cristal, goma de mascar, cigarro e essência de vape (cigarro eletrônico).

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), essas substâncias têm “composição molecular variada e não estão estruturalmente relacionadas aos canabinoides naturais encontrados na planta de cannabis, além de apresentarem diferentes potências, efeitos e toxicidades”.

É uma mistura de substâncias químicas que mimetiza os efeitos de drogas clássicas e já conhecidas – como LSD, maconha, cocaína, heroína –, mas com potência até cem vezes maior.

  • Os efeitos fisiológicos incluem taquicardia, hiperemia conjuntival (olhos vermelhos), aumento do apetite e fala arrastada, entre outros.
  • Na intoxicação grave, ocorrem alucinações, delírio, distonia, paranoia, agitação psicomotora, psicose, convulsões, arritmia cardíaca, perda da consciência. Os efeitos começam minutos após a inalação da fumaça.

Dos pacientes que chegam no Hub, 71% daqueles que relatam uso dos canabinóides sintéticos apresentam quadro de dependência grave. “Muitas vezes, a pessoa congela, sem se mexer, fica estática”, afirma Cordeiro.

“Em doses muito altas, o THC pode causar quadros psicóticos em quem tem vulnerabilidade genética. Essas pessoas podem apresentar delírios e/ou alucinações, ouvir vozes, se sentir perseguido, observado. Esse é um quadro psiquiátrico grave, que exige tratamento específico feito por especialista e que pode ter impactos significativos na vida pessoal, profissional e familiar das pessoas”, completa Fidalgo.

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O início de pico e a duração dos efeitos são mais curtos que os observados no consumo de canabinoides de origem natural. As manifestações clínicas podem durar de várias horas a dias, dependendo do composto e potência.

Como a droga chega ao Brasil

A matéria-prima para fabricar a K4 chega ao Brasil pelo contrabando ilegal em portos, aeroportos e fronteiras terrestres, principalmente dos Estados Unidos, da Ásia, de partes da Europa e do norte da África, de acordo com os investigadores.

A droga desembarca em pequenas pedras que se assemelham a sais de banho. Esses materiais são “cozinhados” em laboratórios clandestinos, sem nenhum controle de qualidade, até serem transformadas em um líquido transparente.

O Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) apreendeu, ao longo de 2023, mais de 40 toneladas de drogas, entre elas 157,1 quilos das drogas “K”. Nos quatro primeiros meses deste ano, já foram apreendidas 9,6 toneladas de entorpecentes, sendo 7,2 quilos de drogas “K”.

O avanço das drogas “K” acende sinal de alerta entre as autoridades, diante de crises de uso de drogas observadas em outros países.

Os Estados Unidos enfrentam uma situação sem precedentes com o uso descontrolado de opioides, substâncias que interagem com receptores no sistema nervoso para aliviar a dor e são comumente utilizados no período pós-operatório.

Medicamentos como fentanil, codeína e oxicodona são eficazes e seguros quando prescritos corretamente por um médico. Mas, sem orientação de especialista ou para uso recreativo, há alto risco de o indivíduo desenvolver dependência.

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“É difícil saber como isso vai evoluir. No Hub, tivemos aumento significativo. Hoje, a realidade é essa. Sem dúvida, é um grande desafio”, afirma Cordeiro.

De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, um óbito foi registrado como suspeito por intoxicação exógena por canabinóides sintéticos.

Em nota, a pasta informa ter 102 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), distribuídos em 33 equipamentos da modalidade Infantojuvenil (IJ), 34 para atendimento à população adulta e 35 do tipo Álcool e Drogas (AD). Os Caps IJ e os Caps AD, direcionados, respectivamente, para a população infantojuvenil e adulta.

São equipamentos integrados por equipes multiprofissionais, incluindo médicos, psicólogos, enfermeiros, farmacêuticos, assistentes sociais, educadores físicos, terapeutas ocupacionais, técnicos de enfermagem, agentes redutores de danos, oficineiros e demais profissionais de apoio, que trabalham de forma integrada com outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), visando a proporcionar o cuidado integral.

Em julho de 2023, a SMS publicou nota técnica orientativa para assistência às intoxicações por canabinóides sintéticos junto à população infantojuvenil na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do município.

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